Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Um brincar antigo que vence na era digital

Pesquisa internacional indica crescente procura por brinquedos educativos e pedagógicos

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2018 | 03h00

Na casa da professora Adriane Ratão, de 42 anos, as crianças nunca ficam sentadas no sofá jogando videogame ou assistindo a vídeos no celular. Lá, os trigêmeos de 7 anos são incentivados a lidar com brinquedos mais simples, nunca com os eletrônicos. Como o meio digital cada vez mais ganha espaço e tempo na infância, as famílias têm evitado o contato dos filhos com esses aparelhos e dado preferência para os brinquedos tradicionais. 

Uma pesquisa da Euromonitor International, empresa de pesquisa de mercado, mostra que, desde 2016, tem sido crescente a procura por brinquedos educativos e pedagógicos – que estimulam o desenvolvimento cognitivo, físico e emocional da criança. Segundo o estudo da consultoria, as vendas dos brinquedos classificados como STEM Toys (sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática), ou seja, brinquedos educativos voltados a Ciências e Matemática, apresentaram crescimento de 7% em 2017. 

Para os responsáveis pela pesquisa e especialistas da área, o aumento na procura por esse tipo de brinquedo mostra pais que estão buscando estimular os filhos a passar menos tempo nos celulares ou videogames. Adriane explica que quis manter as crianças longe do meio digital para que possam de fato brincar. “Se não for agora, quando vão ter a oportunidade? Não quero ver meus filhos sentados com um celular na mão, isso eles vão fazer quando forem mais velhos.”

Para ela, os pais têm de dar o exemplo. Adriane diz evitar usar o celular na frente das crianças ou deixar a televisão ligada em casa. Ela também diz ser importante que os pais brinquem com os filhos. Entre os brinquedos favoritos de Joaquim, Lívia e Mariana estão carrinhos, bonecas e jogos como o de memória e o de quebra-cabeça. “Mas eles sempre querem que a gente brinque junto e isso é ótimo. Se estivessem mexendo no celular, não iriam querer a companhia dos pais.”

O psicanalista Pedro Luiz Santi, professor da ESPM e especialista em comportamento do consumo, também observa a demanda de alguns pais. “Dar brinquedos caros é muitas vezes uma tentativa de reparar a culpa de trabalhar demais, de deixar a criança muito tempo na escola. Temos uma geração de pais que, quando eram filhos, receberam essa reparação. Agora, eles querem fazer diferente.”

A farmacêutica Milena Ikauno, de 38 anos, também não deixa a filha Beatriz, de 7, usar celular e computador para o lazer. Para ela, a decisão de evitar os eletrônicos nessa idade exige uma postura de toda a família. “Se eu não a deixo usar o celular, não posso deixar de dar atenção para ela e ficar usando o meu aparelho”, diz. E incentivar os brinquedos comuns é às vezes mais trabalhoso e até mesmo custoso: Beatriz adora bonecas e fazer trabalhos, como dobraduras e desenhos. “Ela sempre pede para que eu reponha os materiais que usa.” 

Levantamento da Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedos (Abrinq) aponta que, em 2017, 19% dos brinquedos vendidos eram bonecas e 15,5%, carrinhos. Os eletrônicos eram apenas 4% do total comercializado. “Não podemos esquecer que as próprias crianças demandam o presencial, o contato com o físico. Elas precisam por a mão no brinquedo, morder, sentir o cheiro. O digital não traz essa experiência”, diz Santi. 

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