Trotes mais "leves" aguardavam calouros da USP

Música, banhos de lama, danças com um toque de humilhação e "pedágio" aguardavam, nesta segunda-feira, primeiro dia de matrícula, os calouros da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Na Faculdade de Medicina, os "bixos" também tiveram de pedir dinheiro nos semáforos da Avenida Dr. Arnaldo para financiar a cerveja dos veteranos.Na Escola de Comunicações e Artes (ECA), em um clima mais ameno, só a pintura no rosto, nos cabelos e braços dos calouros lembrava o início dos estudos de parte dos 8.331 aprovados nos vestibulares da USP.As canções escrachadas do grupo Mamonas Assassinas recepcionavam os futuros engenheiros da Poli. Presos com um barbante no pulso e conduzidos por veteranos, um grupo conheceu as instalações da faculdade e foi levado, depois, à Avenida Brigadeiro Faria Lima, em Pinheiros, onde faria pedágio.Outros, em cima da caixa de força de um prédio, dançavam para os colegas, sob ameaças e banhos de mangueira. Vários tiveram de "mergulhar" em uma poça de lama. O santista Bruno de Rezende, de 21 anos, aprovado em engenharia química, não parecia se importar com o banho de lama. "Estou muito feliz", justificou.Constrangidos, os colegas que dançavam e os que pularam na lama não demonstravam muito contentamento com as brincadeiras. "Não adianta reclamar. A gente tem de obedecer", disse um calouro que não se identificou."O pedágio não é só constrangedor, como também perigoso, porque alguém pode ser atropelado. Não é fácil combater o trote, mas trabalhamos com a prevenção", afirmou o professor do Instituto de Física Luiz Carlos Gomes, coordenador do Grupo Pró-Calouro da USP.Alunos flagrados praticando trote violento estão sujeitos a suspensão e expulsão. Nas matrículas da ECA, o calouro podia comprar por R$ 20 o "kit-bixo". Numa sacola de plástico, o kit vendido pelos alunos da empresa Eca Júnior - formada por alunos da faculdade - trazia uma camiseta, mapa do câmpus, tíquetes de refeição, preservativos, barras de cereal e chaveiro."Na semana de recepção, vamos pedir alimentos e roupas para doar a uma entidade beneficente. Não haverá trote violento e, se a pessoa quiser, nem pintura faremos", explicou a relações-públicas da Eca Júnior, Patrícia Teixeira.Durante a semana, os calouros terão palestras com ex-alunos ilustres, como o escritor Marcelo Rubens Paiva e o jornalista Marcelo Tass; assistirão a filmes independentes e shows de música. "Estar aqui é realizar um velho sonho; estou adorando", disse a aprovada em relações públicas Camila Midori Moreira, de 18 anos, de Ilha Solteira, no Vale do Ribeira.Com um visual punk totalmente pintado de várias cores, Gustavo Porcelli, de 18 anos, aprovado em audiovisual, também comemorava a matrícula.Calouros que se sintam agredidos pelas brincadeiras devem ligar para o Disque-Trote: 0800-121090.Segundo a coordenadoria de atendimento do serviço, o número de ligações vem caindo: no ano passado, foram 241, ante 576 em 2001. O trote está proibido desde 1999, após a morte de um calouro de medicina.

Agencia Estado,

10 de fevereiro de 2003 | 22h50

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