Trotes estudantis são sadomasoquistas e deveriam ser abolidos, defende professor

Para especialista, rito de passagem não contribui na aproximação de calouros e veteranos

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2014 | 16h51

Com o período de matrículas nas universidades, é reaberta a temporada de trotes contra calouros. O rito de passagem para quem acaba de chegar ao ensino superior é marcado por brincadeiras e até ações solidárias, mas também excessos. Todo ano surgem novos casos de violências físicas e humilhações. Nesta semana, o episódio de um rapaz amarrado a um poste na Avenida Paulista, parte do trote da Faculdade Cásper Líbero, levantou o debate nas redes sociais.

 

Na opinião do professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de São Carlos, Antônio Zuin, o trote possui um viés sadomasoquista. "O calouro que sofre violência física e psicológica adquire o direito de se vingar de tais sofrimentos nos calouros do próximo ano", afirma ele, que também reivindica atuação mais intensa das faculdades para coibir exageros.

 

Ele acredita que de nenhuma maneira o trote aproxima os veteranos dos recém-chegados às salas de aula. "A integração na vida universitária não pode se pautar pelos sofrimentos psíquicos e físicos que recebem dos veteranos", defende Zuin, autor do livro O Trote na Universidade: Passagens de um Rito de Iniciação.

 

Confira a abaixo a entrevista que o especialista deu ao Estadão.edu:

 

Os trotes nas universidades envolvem relações de poder. Há chances de que eles consigam promover a integração entre calouros e veteranos ou deveriam ser abolidos?

Os trotes deveriam ser completamente abolidos. Não há quaisquer chances de que eles possam promover uma integração não doentia na vida universitária. Etimologicamente, trote significa domesticação, ou seja, é feito pelo veterano que se sente no direito de domesticar o calouro, não por acaso identificado como bicho, para que possa adentrar na vida universitária. Por isso, o trote pode ser caracterizado como rito de passagem sadomasoquista, pois o calouro que sofre violências física e psicológica adquire o direito de se vingar de tais sofrimentos nos calouros do próximo ano, ou seja, quando se tornar veterano.

O que as universidades deveriam fazer para coibir trotes violentos? Em geral, as instituições dedicam atenção suficiente a este tema?

Não, em geral elas não dedicam atenção suficiente. As universidades deveriam promover debates constantes envolvendo toda a comunidade acadêmica, e não apenas no momento da entrada dos calouros na vida universitária. Os próprios alunos também poderiam se organizar para debater as razões do trote e ajudar os calouros a entender que a integração na vida universitária não pode se pautar pelos sofrimentos psíquicos e físicos que recebem dos veteranos.

Legislações locais e resoluções internas às universidades contribuem no combate aos trotes violentos? Que peso teria a aprovação de uma lei federal que proibisse os trotes estudantis (projetos de lei sobre o tema tramitam no Congresso Federal desde 1995)?

Sim, elas contribuem. Mas certamente a aprovação de uma lei federal teria muito mais peso em relação à proibição do trote. Há que se pensar na elaboração de políticas públicas que possam abranger as universidades brasileiras como um todo, pois isso ajudaria a engendrar ações coletivas de combate ao trote.

Quais devem ser os mecanismos de denúncia e alerta sobre os abusos cometidos nos trotes?

O chamado disque-trote, que já funciona em algumas universidades, certamente ajuda no combate ao trote (na USP, o disque-trote funciona desde 2000). Mas, mesmo assim, muitos calouros temem revelar o quanto sofreram justamente porque podem ser identificados, de alguma maneira, como aqueles que não aceitaram participar do trote. Para evitar essa rotulação, é necessário que os próprios estudantes se organizem para que os calouros se sintam amparados a denunciar o quanto sofreram e sofrem.

Como a multiplicação de mídias, como celulares com câmeras, alteraram a dinâmica dos trotes? As universidades tendem a ser mais atuantes quando o nome da instituição é atrelado a práticas violentas na imprensa e nas redes sociais?

De fato, há uma contradição muito interessante quando se pensa na relação entre trotes e mídias. Por um lado, cada vez mais os veteranos filmam os trotes aplicados e os postam nas redes sociais. Essa espetacularização do trote estimula a aplicação de violências cada vez mais intensas, pois tais imagens precisam ser cada vez mais chamativas para que possam vencer a concorrência com centenas, ou mesmo milhares de outras imagens que clamam para que também possam ser percebidas. Por outro lado, essa mesma exposição midiática, em muitas ocasiões, acelera a produção de reações das universidades em relação às suas respectivas responsabilidades diante das práticas do trote.

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