Trote: tradição da era medieval

No País, há registro do rito desde 1827; no início do século 20, imprensa discutiu violência

Rose Saconi, Acervo Estadão

30 Janeiro 2014 | 01h59

Criado na Idade Média para integrar alunos veteranos e novatos, o trote passou a ser utilizado para recepcionar os calouros nas universidades europeias no século 11. Na época, os universitários eram submetidos a rituais ridículos e cenas de constrangimento e submissão. Além de terem os cabelos raspados, suas roupas eram queimadas em uma espécie de rito de purificação.

No Brasil, o trote despontou com selvageria em 1827, nas escolas militares. O primeiro caso grave registrado data de 1831. Francisco da Cunha e Meneses foi morto a facadas em seu primeiro dia de aula. Pouco depois, outro calouro morreu ao ser mergulhado em um barril de piche. Mesmo fazendo vítimas, os trotes continuaram sendo realizados e viraram uma tradição no País.

O fim do ritual nas escolas superiores começou a ser discutido na imprensa no início do século 20. "A idéa da abolição do trote aos calouros das escolas superiores (...) merece as sympathias com que foi acolhida pela maioria da classe academica", escreveu o jornalista Sertório de Castro, em 1910, então chefe da sucursal do Rio do Estado.

Em Por que deve e por que não deve ser abolido o trote, Castro descreve os violentos trotes praticados na antiga Escola Militar da Praia Vermelha. "A iniciação de um recém-matriculado era uma verdadeira atrocidade. Começavam despindo-o quasi por completo. Em estado de meia nudez, era amarrado a uma cama de ferro, e sobre seu corpo passeavam as chammas de um jornal acceso."

Outros, como mostra uma crônica publicada na mesma época, saíam em defesa da prática do trote: "Não vejo razão para se abolir essa mesma prova, infinitamente mais suave com que os veteranos experimentam os que pretendem iniciar-se no grande mysterio da Sciencia para a conquista do saber. (...) O trote encontra, portanto, justificação bem séria no mundo moderno".

Confraternização. Ao longo das décadas, instituições foram adotando a prática do trote pacífico. Na década de 1930, a Faculdade de Direito de São Paulo promovia a Festa do Abacaxi, uma confraternização em que calouros recebiam dos veteranos a fruta, simbolizando as dificuldades do curso e os espinhos da profissão. "Nada de empurrões, cacholetas (pancada na cabeça) e outras brincadeira de mau gosto", anunciou no jornal, em 1932, uma escola de Campinas, optando por uma festa.

Mortes causadas durante trotes, como as de um estudante que foi agredido em 1980 e outro que se afogou em uma piscina, em 1999, causaram grande repercussão. Hoje, a maioria das escolas combate com rigidez a violência, com punição severa e legal aos responsáveis.

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