Taba Benedicto/Estadão
Fabiola de La Lastra Helou com os filhos Layla, 14 anos, e Tayo, 12 anos. Casada com um homem com dislexia, Fabiola cuida dos filhos que possuem o mesmo transtorno. Taba Benedicto/Estadão

Transtorno de aprendizagem: famílias pagam caro e até viajam em busca de diagnóstico

Pesquisa mostra que deslocamentos, muitos deles para outros Estados, são feitos por 1/3 dos pais em busca de avaliação médica para os filhos; 10 milhões de brasileiros têm alguma condição desse tipo, segundo estimativa

Ítalo Cosme, especial para o Estadão

03 de outubro de 2021 | 05h00

Luiz, de 11 anos, sempre perguntou à mãe, Angelica, assuntos complexos para a idade dele. Apesar disso, na escola, a criança desde cedo não desenvolvia a leitura e a escrita. Professores adaptaram as tarefas, médicos foram consultados, mas ninguém conseguia explicar o porquê ou reverter o quadro. Há três anos, o garoto recebeu um diagnóstico. Mãe e filho saíram de Mato Grosso para São Paulo para descobrir que a criança tem dislexia, um dos tipos de Transtorno Específico de Aprendizagem (TEAp).

Pesquisa sobre o perfil do TEAp no Brasil mostra que 35% das famílias viajam, até para outros Estados, em busca do diagnóstico. O mapeamento, ao qual o Estadão teve acesso, foi realizado pelo Instituto ABCD em parceria com o Cisco do Brasil e o Instituto IT Mídia.

O trabalho indica ainda que um terço das crianças consultaram mais de cinco especialistas até obter o laudo. As famílias gastam, em média, R$ 800 mensais em acompanhamento especializado. A análise envolve respostas de 304 questionários aplicados, de 17 Estados.

Após gastos em Cuiabá, os custos de consultas e estadia em São Paulo foram altos, para Angelica Simioni, de 46 ano. Luiz passou por novas avaliações médicas e baterias de exames por mais de uma semana na capital paulista até o diagnóstico tardio. E essa peregrinação não é um caso isolado.

O instituto estima 10 milhões de brasileiros com algum transtorno de aprendizagem. No entanto, a falta de conhecimento e de profissionais especializados na rede pública prejudica o diagnóstico, conforme Ana Márcia Guimarães Alves, pediatra especialista em desenvolvimento infantil.

As famílias ouvidas pelo Instituto ABCD ainda sinalizaram impactos emocionais negativos do TEAp nas crianças e nos jovens, tais como tristeza, ansiedade e baixa autoestima. Angelica conseguiu orientação após encontrar um grupo de parentes de disléxicos que discutia o assunto em Mato Grosso.

“Foram essas famílias que me falaram qual caminho seguir para entender o que o meu filho tinha.” A fundadora do grupo é a bióloga Gabrielle Coury, mãe de Maria Lúcia, de 18 anos, que também fez em 2014 o mesmo trajeto de Angelica, para saber o porquê de a filha não se adaptar à escola.

Gabrielle conta que passou seis meses até conseguir revelar para a filha o diagnóstico. “Coloquei uns vídeos de umas crianças falando no YouTube, e ela se reconheceu. Ela olhou para mim e disse: ‘Então não sou burra, mamãe? Eu sou disléxica”, lembra emocionada a presidente de honra da Associação Mato-grossense de Dislexia, fundada em 2016 e que hoje tem mais de 200 associados.

O longo período de salas de aula fechadas por causa da pandemia no Brasil também traz prejuízos para esse grupo, diante das dificuldades para a adaptação ao ensino remoto. Além das mudanças na escola, de acordo com a pesquisa, muitas crianças e jovens tiveram mudanças no acompanhamento terapêutico personalizado.

Investimento e soluções

A administradora de empresa Fabiola de La Lastra Helou, é mãe de Layla, de 14 anos, e Tayo, de 12. A filha tem discalculia, transtorno relacionado aos números, que precisa de intervenções pontuais. Já o filho tem dificuldade na aprendizagem por causa da dislexia. Além deles, o marido de Fabiola também é disléxico – esses transtornos são hereditários.

Atenta à literatura internacional do TEAp, Fabiola matriculou o filho por oito meses em uma escola americana com metodologia específica, que custou cerca de R$ 50 mil por mês.

No fim do período, Tayo saiu do nível de leitura de uma criança na pré-escola para o de uma criança no 3.º ano do ensino fundamental. O gasto da família inclui os quase R$ 15 mil mensais com a escola brasileira e intervenções da psicologia. Ela lamenta que muitas mães não consigam sequer acesso ao diagnóstico e defende mais atenção do poder público ao assunto. “É mais fácil manter do jeito que está porque é menos oneroso”, diz Fabiola.

Entre as soluções propostas para melhorar o cenário de atenção aos transtornos no País, destaca Juliana Amorina, fonoaudióloga e diretora-presidente do Instituto ABCD, está a aprovação do projeto de lei 3.517/2019, que tramita há quase 12 anos no Congresso.

O texto prevê acompanhamento integral dos alunos das redes pública e privada de ensino em parceria com os profissionais da rede de saúde. Na consulta aos profissionais especializados feita também pela ABCD, apenas 8% trabalham com serviços gratuitos.

O projeto estabelece ainda capacitação continuada de professores para que reconheçam mais precocemente sinais persistentes das crianças com resultados mais lentos na aprendizagem. “(A ideia é) implementar um sistema de triagem e monitoramento para que o encaminhamento seja mais preciso”, reitera Juliana. Isso também evita desperdício de recursos antes da descrição adequada do transtorno. Campanhas com informações sobre o tema também ajudam as famílias.

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Como e onde buscar auxílio para o transtorno de aprendizagem?

É estimado que dez milhões de brasileiros tenham alguma condição do tipo, mas a maioria não sabe ou busca acompanhamento médico adequado

Ítalo Cosme, especial para o Estadão

03 de outubro de 2021 | 05h00

Da dislexia à discalculia, as várias formas do Transtorno Específico de Aprendizagem (TEAp) mobilizam pessoas de todo País a buscar não só um diagnóstico específico para essas condições, mas também formas adequadas de tratamento. Não à toa, uma a cada três famílias que têm membros com TEAp viajam, até para outros Estados, em busca de avaliações médicas precisas, segundo estudo do Instituto ABCD, em parceria com o Cisco do Brasil e o Instituto IT Mídia.

O instituto estima que até dez milhões de brasileiros convivem com algum transtorno de aprendizagem, embora a maioria não saiba, o que pode atrapalhar a vida escolar e social. Para tirar dúvidas sobre os sinais de que a criança têm alguma dessas condições e como buscar o diagnóstico, o Estadão preparou uma série de perguntas e respostas sobre o assunto:

1. Quais são os tipos de transtorno de aprendizagem?

Os transtornos de aprendizagem são divididos em três tipos principais, conforme as dificuldades dominantes. São eles a dislexia, em que há

maior prejuízo relacionado à leitura – em precisão, velocidade, fluência e compreensão leitora; a discalculia, quando há maior comprometimento em matemática, com prejuízos no senso numérico, na memorização de fatos aritméticos, na precisão em cálculos e no raciocínio lógico; e a disortografia, em que há prejuízo acentuado na expressão escrita: ortografia, gramática, pontuação e organização textual.

2. Como identificar os sinais de transtorno de aprendizagem na criança?

Presidente do Instituto ABCD e fonoaudióloga, Juliana Amorina ressalta que o Transtorno Específico de Aprendizagem está relacionado a alterações nos componentes linguísticos.

Isso pode se refletir com trocas na fala, dificuldades com rimas, parlendas ou tarefas desenvolvidas na educação infantil. Também é preciso atenção se a pessoa não consegue identificar palavras parecidas ou letras, principalmente as presentes no seu nome.

“É algo persistente. A criança com o transtorno, mesmo com recursos e estímulos, é mais difícil de aprender”, completa. Nesta segunda-feira, 4, no lançamento da pesquisa da instituição, um recurso para triagem dos sinais dos transtornos será adicionado ao aplicativo EduEdu, diz Juliana, para ajudar pais e professores.

3. Qual profissional é o mais indicado para fazer o diagnóstico?

Não é apenas o médico quem pode fazer o encaminhamento da criança, mas um profissional é o único que pode dar o diagnóstico. O psicólogo ou professor em sala de aula pode solicitar avaliação neuropsicológica que mostrará os sinais do TEAp. O pai pode levar o filho ainda a um pediatra.

A partir da análise dessas avaliações, o médico poderá dar ou não o CID da criança para, enfim, ter acesso ao tratamento e a alguns direitos que lhes são garantidos, como currículo adaptado e prova diferenciada em concursos públicos, por exemplo.

Conforme Ana Márcia Guimarães Alves, pediatra especialista em desenvolvimento infantil, a Sociedade Brasileira de Pediatria pleiteia a oficialização da área de pediatria do desenvolvimento e comportamento para treinar mais pediatras para a detecção precoce de transtorno de aprendizagem, entre outros transtornos do neurodesenvolvimento e a subsequente reabilitação no tempo adequado.

4. Qual impacto positivo pode o tratamento precoce proporcionar à criança?

A pediatra Ana Márcia Guimarães afirma que pode variar, a depender do grau do TEAp, que pode ser leve, moderado ou grave. Com isso, o impacto também será diferente.

A especialista pontua que, a depender do grau, se o tratamento for iniciado precocemente, a criança consegue passar pelo processo de alfabetização acompanhando seus pares. “Assim, evitando que a dificuldade cause outros problemas, como depressão e abandono escolar”, alerta.

5. Há caminho para conseguir atendimento gratuito no Sistema Único de Saúde?

O atendimento no SUS para os transtornos ainda é muito insuficiente do ponto de vista dos pais e especialistas. Porém, vale a pena tentar, uma vez que a estrutura pode ser diferente dependendo da cidade onde se esteja. O ABCD dá dicas para que se separe a identidade da criança e do responsável, comprovante de residência e o cartão do SUS.

Além disso, é importante conseguir um encaminhamento feito pela escola ou relatório escolar recente para apresentar na Unidade Básica de Saúde (UBS), também conhecido como posto de saúde ou postinho mais próximo.

6. E quem deve ser acionado?

Se você não souber a qual o posto de saúde ir, ligue para 156 e pergunte. Se possível, quando for ao local, agende consulta com pediatra ou médico da família. Na conversa, diga todas as dificuldades que o filho tem para aprender, falar, ler, identificar os números. Conte sobre exames de visão ou audição já feitos. Se alguém na família apresentar dificuldades semelhantes, também informe. A partir disso, o médico deve encaminhar a criança para exames específicos.

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