Transexual reclama de constrangimento durante Enem

Candidato diz que foi interrompido três vezes durante a prova nesse domingo

Luisa Roig Martins, Especial para o Estado

28 Outubro 2013 | 10h33

Felipe quer ser reconhecido como Felipe. Mas o nome de menina escrito no documento, contrastando com a aparência, causou transtorno em uma sala da Univale, em Governador Valadares (MG), onde Felipe Henriques, de 17 anos, prestava o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nesse domingo, 27.

O candidato diz ter sido interrompido pelo menos três vezes durante o primeiro dia de exame - uma para passar por "reconhecimento visual"; outra, para assinar um termo de responsabilidade, caso fosse descoberto que seus documentos eram falsos. Felipe é transgênero.

Desconfiança. Ao Estado o estudante relatou que, na porta da sala, o fiscal riu ao examinar sua identidade. "Isso é o seu nome, rapaz?", teria perguntado. Passada meia hora de exame, Felipe diz ter sido interpelado para entregar sua identidade e assinar um papel conforme a assinatura registrada no documento. "Ele levou o papel e mostrou meu RG para outros ficais. Todos ficavam apontando para mim. Segundo o chefe da sala, estavam tentando fazer 'reconhecimento visual'", diz o candidato.

Achando que teria paz para continuar a prova, Felipe diz ter sido interrompido uma segunda vez. "A coordenadora de aplicação de provas pediu para que eu falasse todos os meus dados. Quando disse que era do sexo feminino, ela riu e perguntou se eu tinha certeza. Fiquei calado", diz. Um tempo depois, o fiscal teria vindo de novo interpelar o estudante. "Ele perguntou se não teria nenhuma surpresa se eu levantasse minha camisa".

Henriques, que tenta vaga em Medicina pelo segundo ano consecutivo, se sentiu prejudicado pela conduta dos fiscais e coordenadores do exame. "Saí da sala duas vezes porque não conseguia fazer a prova e acabei chorando pelo constrangimento", desabafa. O aluno diz que nesta segunda, 28, já entrará com uma ação contra o Ministério da Educação.

Diálogo. Em coletiva de imprensa realizada ao fim do Enem, no domingo, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, afirmou que ainda não havia tido conhecimento, durante a realização das provas, de nenhum caso de discriminação contra transexuais por causa do nome social. "Se houver ocorrência nesse ano, vamos dialogar com as entidades que representam essa população", garantiu. O titular da pasta ainda afirmou que a grande motivação do Enem é a inclusão social e a permissão da participação de todos, com total respeito à igualdade e à diversidade.

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