Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Torneio de ciência entra na rotina das escolas

Colégios privados reforçam preparação para as olimpíadas de conhecimento; para especialistas, estímulo não deve virar pressão

VICTOR VIEIRA, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2014 | 02h03

SÃO PAULO - Com o protagonismo recente das olimpíadas científicas, colégios reforçaram a preparação para os torneios. Além de medalhas, segundo as escolas, a participação amplia as experiências dos alunos e melhora o rendimento em classe. Outro foco são instituições estrangeiras: muitas usam o envolvimento nas competições como critério de seleção - ideia também estudada pela Universidade de São Paulo (USP).

Para evitar apenas participações esporádicas, que dependem do interesse de um professor ou grupo de alunos, as escolas montam equipes e estruturas de treinamento. O trabalho envolve turmas de estudo extras, tutorias individuais com ex-medalhistas, apostilas específicas e, nos casos de maior êxito, apoio a viagens para o exterior. O risco, para especialistas, é aumentar a pressão por resultados e a competitividade entre jovens e colégios.

O interesse das particulares nas competições de conhecimento cresceu nos últimos anos. Na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM), por exemplo, 42% das escolas participantes eram privadas em 2009. Neste ano, a proporção subiu para 71%. A participação da rede pública também continuou forte no período, principalmente na Olimpíada Brasileira de Matemática de Escolas Públicas, que em 2014 teve 18,2 milhões de alunos inscritos, de quase todas as cidades do País.

O Colégio Etapa, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, é um dos mais tradicionais em competições científicas, desde os níveis iniciantes até os internacionais. "Se uma nova olimpíada desperta interesse no aluno, já avaliamos a possibilidade de organizar a preparação", explica Edmilson Motta, coordenador da escola e diretor acadêmico da OBM.

Como o treinamento exige estrutura e investimento significativos, segundo Motta, ainda são poucas as escolas que investem nesse modelo. Cada torneio segue uma regra diferente - parte exige participação da escola no processo e outros aceitam inscrições individuais.

Mão na massa. Com 16 anos, Rafael Geromel tem no currículo premiações em olimpíadas de Matemática, Química e Informática - conquistadas nos últimos cinco anos. Hoje no 2.º ano do ensino médio, seu foco está em torneios de Robótica.

Para ele, o mais desafiador é colocar em prática conhecimentos da sala de aula. "Trabalhamos em projetos reais, com ajuste de erros durante a competição", afirma. "Também melhora a autonomia, proatividade. Temos de correr atrás do que precisamos", completa o jovem, que pretende tentar uma universidade fora do Brasil.

Formação ampla. No Colégio Albert Sabin, no Parque dos Príncipes, zona oeste, o convite para as olimpíadas é feito em todas as salas. Victor Vasconcelos, de 17 anos, se animou. Hoje, no 3.º ano do ensino médio, coleciona cinco medalhas em campeonatos diferentes, como de Química e Matemática. "O bom é que as aulas extras de preparação servem também para vestibulares." Outra vantagem é que torneios cobram questões interdisciplinares, que exigem melhor entendimento dos conteúdos.

Os mais entusiasmados transitam entre diferentes campos - da Linguística à Astronomia. A oportunidade, relatam, ajuda até na escolha profissional. "Temos mais contato com as áreas. Antes pensava em Direito, agora me decidi por Engenharia de Materiais", diz Vasconcelos.

Sem pressão. O incentivo dos colégios à participação em olimpíadas científicas não deve carregar nas doses de rivalidade e cobrança. "Quando o aluno é obrigado, desenvolve resistência e, se tem mau desempenho, fica frustrado", pondera Ana Luiza de Quadros, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que estudou o clima de competição nos torneios.

Rafael Geromel, aluno do ensino médio e medalhista, diz que não há tensão entre os participantes. "Cada 'olímpico' tem um conhecimento específico e existe colaboração mútua." Segundo ele, que admite ter mais dificuldade em Ciências Humanas, o esforço concentrado em algumas disciplinas não prejudica as notas. 

"A recomendação é que a escola evite treinamento exagerado, mas os próprios alunos buscam cada vez mais prêmios ", diz o coordenador da Olimpíada Brasileira de Química, Sérgio Melo. Outro problema, para especialistas, é que as medalhas sirvam apenas como estratégia de divulgação dos colégios particulares. 

De acordo com Melo, os torneios são uma chance para que os professores estimulem o aluno a ir além da sala de aula. "O participante faz pesquisas aprofundadas na internet e até em livros de pós", destaca. As universidades estrangeiras de ponta, que consideram a participação em olimpíadas no processo seletivo, também viram sonho de consumo. Um exemplo é o Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos.

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