Paulo Giandalia/AE - 1/10/2010
Paulo Giandalia/AE - 1/10/2010

Thomaz Souto Corrêa: 'De olho no iPad, mas sem descuidar do presente'.

Revisteiro mor da Abril acredita que tablet tem tudo para ser o futuro da imprensa, mas veículos não podem esquecer que o que paga suas contas é o que fazem hoje

Sergio Pompeu, Estadão.edu

30 Novembro 2010 | 10h59

Thomaz Souto Corrêa foi vice-presidente e diretor editorial do grupo Abril, redator chefe da revista Cláudia e ocupou cargos de diretor de redação e diretor do grupo de reivstas femininas. Presidiu a Associação Nacional de Editores de Revistas e foi primeiro latino-americano eleito para o conselho executivo da Federação Internacional de Imprensa Periódica. Desde 2003, integra o Conselho de Administração e presta consultoria na área editorial da Abril.

 

O senhor ficou responsável pela disciplina Edição e Design no curso de pós-graduação em Jornalismo da ESPM. Fale um pouco sobre ela.

Meu módulo deriva de um trabalho que faço aqui na Abril. Quando entra a palavra design no nome as pessoas perguntam: "Mas tem design em rádio?" E eu acabei descobrindo que tem, se você leva design no sentido de organização. Quando eu falo de edição e design, no fundo o que eu estou querendo dizer é: quais são as ferramentas à disposição para a gente chegar no nosso leitor (ou ouvinte ou telespectador) com uma mensagem clara, que faça sentido? Isso de um lado é edição de texto – vou convidar um grande nome para fazer palestra sobre edição de texto, mas não vou ficar muito tempo nisso, porque imagino que as pessoas já chegam a esse curso com alguma experiência. Mas é edição lato sensu no sentido de organizar. Para mim, editar qualquer coisa é você organizar as coisas para transmitir uma mensagem clara para o usuário. Então vou expandir esta noção para as cinco mídias existentes, que são televisão, revista, jornal, rádio e internet. Estou fazendo, dentro da minha cadeira, um formato de chamar especialistas nessas cinco mídias para falar um pouco das especificidades de edição e design nas suas respectivas mídias. É fascinante, porque eu estou começando a entender que, apesar de o nome remeter mais para a mídia impressa, isso existe também nas outras mídias eletrônicas.

 

O que o senhor acha da edição em internet?

O que eu procuro em mídia impressa para edição e design é muito parecido com o que a gente procura na internet. Clareza tem que ter. Legibilidade tem que ter. Chamar a atenção do leitor. Enfim, é muito parecido. A minha impressão, voltando à sua pergunta, é: eu trabalhei a vida inteira com coisa parada, texto, foto e ilustração. Quando você acrescenta à coisa parada o movimento e o som, fica muito mais divertido e muito mais eficiente passar uma mensagem. Eu não estou desfazendo da mídia impressa. Estou dizendo que encontrei nas outras esses elementos que não tem na mídia impressa, que acabam resultando em clareza de informação da mesma maneira.

 

O curso tem essa concepção, é voltado para o profissional em meio de carreira, para desenvolver lideranças. Quais competências são necessárias hoje para o jornalista se preparar para a ascensão numa empresa?

Acho que o que responde à sua pergunta é o conjunto das disciplinas escolhidas para o curso. Você tem, teoricamente, uma pessoa que já tem experiência de dez anos e está querendo ser um dirigente jornalístico. Ele tem que ter capacitações administrativas que normalmente não tem. Ele vai ter de saber cuidar de gente, motivação, recursos humanos. E hoje não sabe. Ele vai ter que ter uma visão econômica do mundo que é difícil, porque no dia a dia não se tem, a não ser que você seja uma pessoa muito esforçada e vá buscar isso por você mesmo. Idem na área jurídica. A gente vê que cada vez mais enfrenta problemas jurídicos. E um dirigente jornalístico tem que ter uma visão de problema jurídico que eu acho que hoje não tem. Enfim, acho que o curso abre a cabeça para essas coisas numa fase mais adiantada. Se eu sou o dirigente jornalístico de uma cadeia de rádio, eu tenho que ter noções de administração, de Direito, economia que o dia a dia do profissional que não chegou a esse nível não tem. Então o objetivo do curso é abrir a cabeça para o profissional ter um horizonte maior de preocupação.

 

O senhor foi redator de Internacional aqui no Estado e depois foi para a Abril, onde teve uma ascensão rápida. Que dificuldades enfrentou por não ter competências que se tornaram necessárias? O sr. teve de achar o seu próprio caminho?

Em 1974 eu fui fazer um curso de Administração de Negócios, de seis meses, no IMD, na Suíça. Descobri lá um mundo que eu não conhecia. E como era um curso de Administração, então passava por todas essas coisas. Como é que um chefe motiva seus funcionários? Preocupação que era zero – aliás, eu acho que ainda é muito pequena hoje, mas isso é outra conversa. Não vejo o poder de motivação como uma qualidade dos dirigentes jornalísticos que estão aí hoje. O que muda é isso: tratamento de gente, motivação de gente, lidar com gente. Era uma coisa que ou você tinha ou não tinha. E você percebe, ao fazer um curso, que tem coisas para aprender. Além disso, quando você começa a subir na carreira, aparecem coisas como planejamento operacional, reunião de missão, reuniões de controle, são coisas que você, jornalista em função jornalística pura, não fazia ideia. Aspectos financeiros das operações, que a gente não sabia, a gente lidava com aspectos econômicos. Então tinha um resultado econômico que não era verdade, o que interessava era o financeiro. Leva tempo para você diferenciar uma coisa da outra e usar as duas, porque as duas são necessárias. É um mundo muito diferente. A mudança foi deixar de ver uma função específica, saber que tinha outras funções para o bom desempenho que não estavam ali presentes. E, a não ser que você vá estudar, é muito difícil desempenhar essa função. A não ser você seja um gênio nato para esse tipo de coisa.

 

Num grupo como a Abril, que tipo de variáveis um jornalista com um cargo executivo tem de acompanhar com frequência?

Não sou mais executivo, graças a Deus já passei por isso. Mas você tem de acompanhar preço de papel, é fundamental no nosso negócio, como em jornal. Faz parte de uma teoria de controle, que cada empresa tem do seu jeito, mas acaba sendo igual para todo mundo, que é olho no caixa. Não tem diretor de redação que não se preocupe com isso.

 

Que outras variáveis é preciso acompanhar que estão fora das competências básicas do jornalista? Processos movidos contra a empresa, por exemplo?

Isto faz parte do que a gente chama aqui de carreira jornalística. Você pega o jornalista e transforma num administrador.

 

Tem um núcleo que produz esses dados?

Exatamente. Tem todo um departamento que te provê informações para tomar decisões. Isso faz parte da estrutura organizativa. O chefe de uma área jornalística não pode nem planejar se não tiver ideia dos custos envolvidos.

 

Quando se fala de formação em Jornalista, tem a pergunta subjacente, a pergunta de US$ 1 bilhão: Qual o futuro do Jornalismo? Sei que é uma discussão complexa, mas acho que é pertinente no contexto da entrevista. Também gostaria de saber se essa discussão mudou radicalmente de perspectiva com a chegada dos tablets.

Uau. Essa é a pergunta de US$ 2 bilhões. Vou dividir a resposta em duas partes. Primeiro, uma das minhas preocupações é que a discussão sobre o futuro prejudique o presente. Nós todos, jornais, revistas, televisões e rádios, estamos fazendo dinheiro com o que a gente faz hoje. E é esta atividade que vai gerar dinheiro para a gente poder investir no futuro. Então, a primeira consideração minha é: tem de olhar o futuro, mas não pode se deixar seduzir pelo futuro e não pensar no presente. Se você der uma volta aqui pelo prédio da Abril, não tem revista que não queira estar no iPad. O último número que eu tenho é de que tem 40 mi iPads no Brasil. Ou seja, nada. Mas a sedução é tão grande que o sonho das pessoas é ter revista no iPad. Então eu me preocupo muito com isso. Segunda parte: eu acompanho esse assunto de perto, porque viajava muito, é uma escola que o Roberto (Civita) implantou, ele também viajava muito, a gente fez isso durante muito tempo. Quinze anos atrás, eu vi numa conferência nos Estados Unidos o protótipo do primeiro tablet. E você não acredita o que era. Uma geringonça, que você carregava debaixo do braço até uma banca eletrônica, enfiava dentro de um buraco e apertava o botão das revistas que você queria baixar. Você punha umas moedinhas e ia para casa com as revistas que você baixava. A dificuldade é que ninguém imaginou que o futuro seria wireless, que não ia precisar da banca eletrônica, você não tinha que levar aquilo num buraco e botar moeda. Agora, o tablet já estava lá. Então a gente já sabia, esse círculo de revisteiros que eu frequentava, achava, mais do que sabia, que o futuro da revista, falando especificamente de revista, seria o tablet.

 

Vocês já sabiam?

A gente intuía que seria o tablet. Quando o Steve Jobs mostrou no início do ano... o tablet não tem um ano e já tem essa discussão toda em cima dele...

 

Mas a história do tablet não é de definir um suporte e ter remuneração? Isso não estava faltando? Porque antes tinha a história do papel digital...

O papel digital eu vi no MIT. Eu fui ao MIT e me mostraram o papel digital e não entendi para o que servia. Mas, voltando ao tablet, claro que eu tenho um e estou vendo revista nova toda hora no iPad. Eu acho o iPad uma maravilha. Mas nada indica que o iPad não seja também o jornal do futuro. Aliás eu tenho Estado, Folha, New York Times, tudo no iPad também.

 

Sim, a discussão sobre o iPad também diz respeito aos jornais.

Não, a tudo. Porque no iPad eu também posso ver programa de televisão. Posso ver cinema. Então, lá atrás também se falava que um dia as mídias estariam à disposição do usuário onde quer que eles estivesse. Acho que a gente não pode abandonar a discussão do presente. E eu acho que a gente tem que ficar estudando o iPad, porque acho que o futuro está nele.

 

Li na internet uma entrevista sua de anos atrás, que fazia uma avaliação sobre o estouro da bolha da web nos anos 90. Há ecos da cautela de quem acompanhou o que aconteceu naquele período quando o sr. diz para olhar o iPad, mas lembrar que o dinheiro vem do que a gente faz hoje?

Hoje, em retrospecto, acho que foi uma bolha, sim, mas a bolha foi causada mais por motivos financeiros. Começaram a aparecer bancos de investimento com dinheiro para aplicar na internet. Então, aqui na Abril, nós perdemos um monte de gente interessante, que foram embora na ilusão de que trabalhariam numa coisa que seria extremamente valorizada e vendida por dez vezes o market cap. Não deu certo, não tinha o que fazer. Enquanto isso, em paralelo, o que os veículos de comunicação estavam fazendo – e é interessante que estão fazendo de novo, mas de uma maneira mais tranquila – era que todo mundo punha o conteúdo impresso no computador. As revistas e jornais punham suas páginas no computador. E não era isso. O iPad é uma revista, é um jornal. Ando com ele para baixo e para cima. Tinha aquela brincadeira: "Ah, ninguém leva computador para o banheiro" (risos). O iPad dá para levar! De novo, as revistas que estão indo para o iPad com sucesso, estão pondo a revista lá. Está substituindo o papel. Tem gente que diz: "Eu não preciso mais de revista em papel, eu leio tudo no iPad." Pode ser que um dia seja assim. Só que, até o iPad cobrir todo o nosso mercado impresso, vai levar muito tempo.

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