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'Tenha um plano de vida para os próximos 5 anos'

Engenheiro está realizando o sonho de fazer pesquisa de ponta no Brasil com o laboratório aberto pela IBM em São Paulo

Sergio Pompeu, Estadão.edu

29 Março 2011 | 18h08

Engenheiro com mestrado em Ciências da Computação pela USP, Sergio Borger, de 45 anos, ficou pouco mais de dez anos nos Estados Unidos, trabalhando na IBM. Está realizando o sonho de fazer pesquisa de ponta no Brasil com o laboratório aberto pela multinacional em São Paulo. Seu conselho para jovens pesquisadores é ter um plano de vida que contemple os próximos cinco e dez anos. “É muito importante você pensar e planejar, não deixar o ambiente te levar.”

 

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Veja abaixo trechos da entrevista:

 

Situação do laboratório

 

Temos novidades, o laboratório está um bocado mais estruturado, já temos alguns pesquisadores começando alguns projetos com nosso time dos EUA, estamos começando a pegar a tecnologia em várias áreas e a trazer para o Brasil. Entre elas estamos trazendo tecnologia de cloud computing (computação em nuvem), estamos trazendo tecnologia na área de modelamento de sistemas naturais. Um exemplo específico é a área de modelamento atmosférico e a de modelamento de bacia de águas, que estão sendo utilizados em um projeto com a prefeitura do Rio. Vamos apontar o local onde vai chover e onde vai alagar, para que os órgãos da prefeitura possam tomar a ação mais rápida e preventiva. Em modelamento de bacia a gente sempre teve muito foco, por causa da área de petróleo. Mas água também era uma coisa que a gente sabia que iria fazer, porque é um recurso extremamente importante. As duas coisas estão ligadas à sustentabilidade, explorar as bacias de óleo e usá-las de forma sustentável e explorar as bacias de água também de forma sustentável. O interesse da IBM é na parte computacional disso, então a gente tem toda uma área de pesquisa ligada a modelamento e a simulação desses sistemas naturais. A gente coleta e usa mapas existentes. Essa informação faz parte de um modelo matemático que a gente desenvolveu no computador para criar as imagens. No fim a gente acaba criando uma imagem computacional tridimensional. Você consegue ver onde a água cai, onde ela vai se acumular, baseado na simulação.

 

Tecnologia para grandes eventos

 

Pretendemos fazer experimentos em estádios e em outras localidades para poder ver como agente pode prover melhor qualidade de serviços e assim por diante nessa área de sistemas humanos. Vamos usar uma tecnologia inovadora, do ponto de vista de informação, prover para o usuário final desses eventos uma experiência mais legal. Segurança é uma das dimensões, não a única. Pensando só no estádio, por exemplo, a experiência que você vai ter está ligada a um monte de fatores. Como você chegou, como você comeu seu cachorro quente com batatinha frita, se você conseguiu fazer isso ou não, como você é recebido, a vistoria de segurança, a impressão que você tem de estar seguro naquele local. E quais são os recursos tecnológicos para a gente estar brincando. Por enquanto, estamos só no conceito de ideias, ainda estamos evoluindo isso para uma tecnologia que a gente possa testar. Por exemplo, eu poderia ter um dispositivo móvel, um celular, e poderia estar recebendo informações sobre o evento que está acontecendo num estádio ou no outro. Poderia ter coisas desse tipo acontecendo simultaneamente. Agora, na parte de video analytics, a IBM tem um monte de tecnologia, de olhar vídeo e melhorar a possibilidade de identificar pessoas. Seu ingresso pode ser a informação biométrica do seu rosto, por exemplo: pessoal e intransferível. A gente quer fazer uma coisa que se transforme em legado para a sociedade ao longo do tempo, não uma coisa que a gente faz no estádio e ponto, acabou. Posso usar essa tecnologia no shopping, numa loja, na portaria de um prédio, na entrada e saída de estacionamentos. Queremos que seja uma coisa que perdure para a sociedade. Vou te dar outro exemplo, na área de acessibilidade. Muitas vezes a gente olha para acessibilidade só pensando no cadeirante. Então precisa ter rampa especial, precisa ter lugar especial. Mas acessibilidade também é para quem não consegue enxergar a distância, que vai ver o jogo de futebol numa tela onde as letras são muito pequenas, é para aquele que não consegue ouvir direito. Tem várias coisas ligadas à acessibilidade em que agente poderia utilizar a tecnologia para melhorar a vida e a qualidade dessas pessoas que vão participar de um evento.

 

Alcance social da pesquisa

 

Uma coisa na área de sistemas humanos em que queremos trabalhar é pensar como a gente pode ajudar comunidades específicas ao redor do país para irem para o próximo patamar tecnológico delas. Você pega uma comunidade agrícola em Goiás. Como eu posso ajudar essa comunidade a utilizar recursos tecnológicos para melhorar sua capacidade de produção, para melhorar a efetividade do seu plantio, para reduzir o risco na safra, melhorar o balanço econômico da região. A gente tem capacidade de embarcar essa tecnologia para fazer bem para a população e para a sociedade como um todo. Esse tipo de coisa é fundamental. O pesquisador tem prazer em ver que criou alguma coisa que fez diferença. Estou entrevistando para contratar para o laboratório um monte de doutores e mestres que acabaram de terminar o mestrado e o doutorado. E uma das coisas que eu sempre procuro numa entrevista é saber qual é a vontade que essa pessoa tem de deixar alguma coisa para a sociedade. Não é o emprego só, é a paixão. Toda vez que aparece um candidato que vira e me fala que gostaria de fazer alguma coisa que gerasse impacto para a sociedade, eu pergunto o que eles gostaria de fazer. E aí agente começa a ver as ideias das pessoas para melhorar o país em vários ângulos. Tecnologia não é fim, é o meio. Imagina se na comunidade rural eu conseguir colocar mais cinco ou seis tecnologias de acessibilidade cognitiva, para ajudar os moradores. Ou tecnologias de manutenção preventiva, de modelamento atmosférico, ou para melhorar a safra. Imagina se eu conseguir fornecer, nessa interação, soluções de educação, etc. Em qual taxa vou conseguir ajudar essa comunidade a crescer?

 

Seleção para o laboratório e o perfil dos pesquisadores brasileiros

 

Aqui tem gente muito capacitada. Acho que tem muito talento e criatividade saindo das universidades, gente com um potencial muito grande. Uma parte deles tem uma tendência a querer trabalhar na parte acadêmica e isso vai ser bom, porque de certa forma vai contribuir para estar sempre melhorando o quadro de educadores e jovens pesquisadores para a frente. É uma evolução natural das coisas, dei aula bastante tempo, sempre quis que os meus alunos fossem melhores, sempre brincava com eles dizendo que ia ficar satisfeito no dia que eles fossem muito melhores do que eu. Por outro lado meu colega de IBM Claudio Pinhanez tem um ponto muito interessante, que é o de que a gente precisa mais e mais ter esse tipo de profissional que é um driver de inovação, puxa a inovação por si só. Dentro das empresas e dentro das indústrias. A gente precisa ter esse tipo de inovação, não pode ficar na mesmice de sempre.

 

Carreira

 

Fiz Engenharia na Faap e mestrado em Ciência da Computação na USP. Há vinte e poucos anos eu tive uma opção e eu fiz uma escolha. Estava na universidade e na IBM, fazendo estágio. Viraram para mim na IBM e disseram: “Olha, a gente gosta muito do que você está fazendo, estamos abrindo um time que vai criar a nova geração de sistemas de rede de comunicação e gerenciamento. Quer fazer parte desse time?” Era aquela oportunidade de vida de você fazer alguma coisa muito avançada, diferente. Fui para os Estados Unidos. Passei um tempo lá, voltei para o Brasil, depois voltei para os Estados Unidos. Foi um período em que eu me solidifiquei como inovador dentro da indústria.

 

Conselhos aos jovens pesquisadores

 

Um aluno da graduação, ele deve fazer mestrado ou doutorado? A minha resposta é sim, ele deve. Se ele tiver condições de ter mais educação, mais treinamento, e ele tiver interesse, deve, sim. Tem gente que não tem interesse, cada pessoa é diferente. Ele deve fazer isso lá fora? Olha, ter uma experiência em outro país é sempre muito enriquecedor, e ela não precisa ser necessariamente um mestrado ou um doutorado, pode ser um outro tipo de experiência. Pode ser uma experiência de aprendizado de inglês, ou pode ser uma experiência de trabalho. Ela vai ser enriquecedora de um jeito ou de outro. Então, sim, sugiro que tenha uma experiência internacional. Língua é importante em qualquer um dos casos, indo pra fora ou não. O Brasil vai crescer globalmente e você precisa saber se comunicar, então inglês é mandatório, espanhol é quase mandatório. As universidades brasileiras têm em geral um nível de pós-graduação muito adequado. Algumas são mais focadas no mercado de trabalho. Então vão ter mestrados e, eventualmente, doutorados mais focados no profissional que vai trabalhar na indústria do que em um que vai para a área acadêmica. E tem outras universidades mais focadas em treinar a próxima geração de acadêmicos. Você vai para os Estados Unidos, a Europa, ou qualquer outro lugar e você vai ter universidades ou institutos que vão te formar de maneira diferente. A minha sugestão para um aluno, e quando eu dava aula eu sempre sugeria isso, é: “Tenha um plano de vida para os próximos cinco e dez anos.” Tente traçar, mas não traçar na cabeça. Escreva o que você quer fazer e escreva como você vai fazer para chegar lá. Porque aí você tem um plano a seguir. Visite essa página de papel uma vez a cada seis meses, e aí reescreva. É aquele processo mental de saber de onde você vai sair e para onde quer chegar. Você quer trabalhar na indústria? O que você vai ser? Diretor-presidente? Como você vai chegar lá? Eu quero ser reconhecido tecnicamente nessa área porque eu fiz alguma coisa muito legal. Como você vai chegar lá? É muito importante você pensar e planejar, não deixar o ambiente te levar. Você tem que ter um plano: “Quero fazer isso.”

 

Muitas vezes a vida e as pessoas vão abrir e fechar portas para você, e aí você vai ter que tomar decisões. Se eu tivesse, há 20 anos, decidido fazer engenharia civil, ou qualquer outra coisa, hoje estaria em outro ramo. Decidi fazer eletrônica, telecomunicações, decidi fazer computação, mexer com física, química e isso me direcionou para uma série de coisas. E eu continuo fazendo minha projeção para cinco e dez anos.

 

Volta ao Brasil

 

Até o ano passado, uma das coisas que eu queria muito fazer – um plano de longo prazo – era pesquisa aplicada à sociedade no Brasil. Estava morando nos Estados Unidos havia 11 anos, e tinha muita vontade, dentro do meu plano familiar, que meus filhos pudessem viver no Brasil, por um tempo pelo menos. Que eles pudessem ter as opções de futuro, eu queria abrir o leque da minha família de opções de vida. Com o anúncio do laboratório meus projetos de futuro se tornaram muito mais presentes. Antecipou tudo. Deixou de ser aquele plano de longo prazo. Então agora estou tendo que rever todos os meus planos pessoais e, de novo: está na minha mão, estou aqui trabalhando no laboratório, o que eu sempre quis fazer. Se eu for olhar para a frente, gostaria de ver daqui a cinco anos que o laboratório teve impacto em pelo menos meia dúzia de áreas significativas. Eu gostaria de estar dizendo para você daqui a cinco anos que eu participei de projetos que tiveram resultados nacionais, de melhoria de qualidade de vida em comunidades, que a gente conseguiu trabalhar em situações nas quais houve emergências e minimizou os impactos para a sociedade. Gostaria de ver a Copa do Mundo como espectador e saber que tem um monte de coisas em volta das quais eu participei.

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