Ana Lucia dos Santos Gonçalves
Ana Lucia dos Santos Gonçalves

Temos de romper com o discurso de que cota é esmola, diz aluna negra do mestrado

Estudantes relatam desconfiança velada em ambiente acadêmico e medo de serem desqualificados por entrarem na universidade por ação afirmativa; políticas de permanência são necessárias para manter a inclusão

Victor Vieira, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 11h00

Ser aprovado em seleções concorridas, conduzir a pesquisa e entregar a dissertação são apenas uma parte do desafio de alunos negros na universidade. Muitos deles contam que também é preciso lidar com preconceito e desconfiança, ainda motivados pelo discurso de que ocupam uma vaga sem merecer. "A ação afirmativa é um direito, não um favor. Não entrei pela porta dos fundos da universidade", diz Paulina Gonçalves, de 51 anos, que ingressou por cota no mestrado em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2019. 

Com as cotas, pela primeira vez, em 2018, universidades públicas tiveram mais da metade (50,3%) de negros na graduação. Já em mestrados e doutorados, o desnível é maior. Segundo balanço de 2019 da Capes, órgão do Ministério da Educação (MEC) que cuida desses cursos, só 29% dos alunos de pós-graduação eram pretos ou pardos, considerando os estudantes com dados disponíveis. Segundo o IBGE, 55,4% da população brasileira é negra.

Com o objetivo de ter mais diversidade na pesquisa, ações afirmativas também avançam em mestrados e doutorados. Ao menos 31 das 69 universidades federais têm normas gerais de reserva de vagas para negros em seus programas de pós, entre elas a de São Paulo (Unifesp), a de Brasília (UnB) e a de Minas (UFMG).

Formada em Serviço Social, com experiência em pastorais sociais e com moradores de rua, Paulina voltou à sala de aula após 16 anos afastada da universidade. Segundo ela, a discriminação no ambiente acadêmico é mais velada. "Você percebe alguma tensão. Será que esse aluno não vai baixar o nível? É sutil."

E isso afeta a autoestima dos colegas, conta a estudante. "Tenho ouvido de alguns sobre certo receio de dizer que entraram por ação afirmativa. Temos de romper com esse discurso de que cota é esmola", defende. Na UFRGS, não há uma regra geral para reserva de vagas e a criação de uma regulamentação única está em debate na instituição. Dos 92 programas de pós, 18 têm algum tipo de ação afirmativa, conforme levantamento feito pela universidade em setembro.

Com uma trajetória acadêmica que começou pelas cotas na Universidade de Brasília (UnB) e foi até o Imperial College, de Londres, e Yale, nos Estados Unidos, o virologista Anderson Brito também reconhece o peso que tem o discurso de desqualificação dos cotistas. "Quando passei no vestibular, toda narrativa da falta de mérito roubou um pouco meu sentimento de vitória no início", lembra. "Por dois semestres, eu andava com meu boletim na mochila. Se alguém viesse questionar meu desempenho, eu teria aquilo como um escudo", afirma ele, de 35 anos, hoje no pós-doutorado e envolvido em pesquisas sobre a pandemia da covid-19. 

 

De curso preparatório a bolsas: ação afirmativa vai além da reserva de vagas

Reservar parte das vagas no edital do processo seletigo não é suficiente. Há o desafio de garantir o acesso de alunos mais pobres e, depois, que tenham condições de continuar estudando. Paulina, por exemplo, conseguiu a vaga no mestrado após cursar um preparatório para a pós-graduação oferecido pela própria universidade. "Antes, parecia coisa do outro mundo. O curso desmistifica, ao mesmo tempo em que nos dá informações", diz ela. 

Uma diferença em relação aos cotistas da graduação é que muitos estudantes, com o diploma universitário nas mãos, veem no mercado chance maior de renda do que na vida acadêmica, em que as bolsas de pesquisa pagam pouco e nem todos conseguem esse auxílio. Esses auxílios costumam ser distribuídas conforme o desempenho nos processos seletivos. Assim, alunos que mais precisam, do ponto de vista financeiro, podem ficar sem apoio. "A permanência depende de bolsa. E a bolsa depende de orçamento", diz Charles Morphy, coordenador do Colégio de Pró-reitores de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação das instituições federais de ensino. Segundo ele, com os cortes de verba nos últimos anos, diminui a capacidade de as universidades oferecerem auxílio. 

"Alguns programas de pós-graduação fazem uma priorização de bolsas para os cotistas também", diz Maria Márcia Bachion, pró-reitora adjunta de Pós-Graduação da Universidade Federal de Goiás (UFG), a primeira federal do País a adotar uma regra geral de cotas na pós-graduação, em 2015. "A bolsa é uma ajuda, mas quando a pessoa tem dificuldades financeiras, esse montante é muito insuficiente". Os auxílios da Capes para mestrado e doutorado são de R$ 1,5 mil e R$ 2,2 mil mensais, respectivamente. Os valores não são reajustados desde 2012. 

Procurada, a Capes, agência do Ministério da Educação (MEC) responsável pela pós-graduação, informou que as ações de apoio a estudantes de mestrado e doutorado são de responsabilidade direta das instituições. Entre outras medidas tomadas pelas universidades para a permanência, foi estender o direito ao restaurante universitário e à moradia estudantil aos alunos de mestrado e doutorado. 

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