Alex Silva/Estadão
Problemas da Educação no Brasil foram agravados durante a pandemia Alex Silva/Estadão

Proporção de jovens no Brasil que não estudam nem trabalham é o dobro da taxa de países ricos

No ano passado, 35,9% dos adultos de 18 a 24 anos no Brasil não frequentavam escola ou faculdade nem estavam empregados, a chamada geração ‘nem-nem’, mostra relatório da OCDE

Júlia Marques e Davi Medeiros, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 06h00

A taxa de jovens brasileiros que não estudam nem trabalham, a chamada "geração nem-nem", é o dobro da de países ricos. Em 2020, 35,9% dos adultos de 18 a 24 anos no Brasil não estavam nem na escola nem empregados, aponta um relatório da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado nesta quinta-feira, 16. O índice de desemprego de adultos entre 25 e 34 anos que não concluíram o ensino médio também cresceu acima da média no Brasil.

No relatório, a OCDE destaca que a pandemia tornou as condições econômicas difíceis em muitos países no ano passado - e a situação perdura neste ano. “Em tempos econômicos difíceis, a transição da escola para o trabalho, que é sempre complicada, torna-se realmente problemática”, aponta o relatório. Na média da OCDE, que inclui os países mais ricos, a taxa de jovens que não estudam nem trabalham é de 15,1%.

O índice brasileiro passou o de países como Turquia (32,2%) e Colômbia (34,5%). O Brasil já alcançava taxas acima da média de jovens "nem-nem" nos anos anteriores, mas o indicador subiu ainda mais na pandemia. Em 2018, era de 30,6%. Enquanto na média dos países da OCDE, menos da metade dos jovens de 18 a 24 anos não estudam, no Brasil, na Colômbia e em Israel, a porcentagem sobe para 65%.

De acordo com o relatório, só um terço (34%) dos jovens brasileiros de 18 a 24 anos frequentam escolas ou faculdades. Três em cada dez jovens nessa faixa etária estão empregados, apesar de não frequentarem a escola ou um curso superior, mas 13% não estão nem na escola nem empregados. Há ainda 23% que não estudam nem procuram emprego (inativos). Os dados fazem parte do relatório Education at a Glance 2021, que reúne informações sobre escolarização, trabalho e disparidades de gênero.

Durante a pandemia, o Brasil teve dificuldades em manter os jovens engajados nas aulas remotas e calcula-se que boa parte deles não deve voltar para a sala de aula quando os indicadores da covid-19 melhorarem. Entidades e governos locais apontam omissão do Ministério da Educação (MEC) em garantir internet para as aulas remotas e dar incentivo para que os alunos mais vulneráveis continuassem estudando.

A queda na renda das famílias levou essa população a buscar emprego, ao mesmo tempo em que o acesso ao ensino superior tornou-se mais difícil no Brasil. No ano passado, faculdades particulares registraram redução no número de alunos ingressantes e as universidades públicas tiveram dificuldades em garantir a permanência de jovens de baixa renda.

A edição de 2020 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principal porta de entrada para o ensino superior, foi realizada em janeiro deste ano, em meio à pandemia, e teve recorde de candidatos ausentes. Parte não compareceu por medo de contaminação pelo coronavírus, porque buscava trabalho ou não se sentia preparada para fazer a prova.

Jovens da geração "nem-nem" se dizem perspectivas. "É muito ruim ver minha família necessitada e não poder ajudar", diz Tatiane Lima, de 23 anos. Paulistana da zona leste, ela terminou o ensino médio em 2015 e, desde então, não conseguiu ingressar no mercado de trabalho formal. A última vez que conseguiu uma ocupação no setor informal foi no segundo semestre de 2020, entre a primeira e a segunda onda da pandemia.

Apaixonada por esportes, Tatiane já sonhou em ser jogadora de vôlei e, hoje, se interessa por Economia. Mas depois de seis anos sem estudar nem trabalhar, chega a ter dificuldade para responder quando a perguntam sobre seus sonhos profissionais. "Quando me perguntam qual profissão quero seguir, não tenho resposta, porque não me vejo no mercado de trabalho".

Sem emprego, ela também enfrenta dificuldade para estudar. "Tenho vontade de fazer contabilidade, mas minha condição financeira não permite pagar o curso", diz.

Desemprego aumentou entre adultos sem ensino médio

Se as condições para estudar não são favoráveis para os jovens brasileiros, encontrar emprego também não está fácil. “A pandemia de covid levantou preocupações sobre as perspectivas de emprego de jovens adultos, especialmente em níveis educacionais mais baixos”, apontou o relatório, ao detalhar a situação do Brasil.

No Brasil, segundo a OCDE, a taxa de desemprego entre jovens adultos de 25 a 34 anos que não completaram a educação básica foi de 17,8% em 2020, 3 pontos porcentuais acima do que foi registrado no ano anterior. O crescimento do desemprego foi maior do que a média da OCDE, que registrou índice 15,1% em 2020 (um aumento de 2 pontos porcentuais em relação a 2019).

O relatório da OCDE destacou ainda que as condições de encontrar trabalho variam entre homens e mulheres. Embora as mulheres no Brasil tenham mais probabilidade de ter concluído o ensino superior, elas têm menos chances de serem empregadas, segundo o relatório.

Por meio de nota, o Ministério do Trabalho e Previdência informou que o governo atua para garantir oportunidades para jovens, vulneráveis e desempregados de longo prazo. "Isso porque, de acordo com estudos do Banco Mundial, OIT (Organização Internacional do Trabalho) e outras instituições o 'efeito cicatriz' deve ser combatido por meio de políticas públicas focalizadas nesses trabalhadores."

A pasta explica que este efeito é constatado quando jovens, que começam a procurar empregos durante crises econômicas, acabam por enfrentar piores trajetórias laborais, menores remunerações e menos oportunidades ao longo de toda a vida. O Ministério diz apostar em qualificação e contratação simplificada para trabalhadores.  

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Crianças brasileiras ficaram mais tempo sem escolas, diz estudo da OCDE

Em 2020, suspensão de atividades presenciais no País durou 178 dias; interrupção na aprendizagem pode ter impacto a longo prazo

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 06h00

O Brasil foi o país que mais tempo manteve fechados os colégios para as crianças mais novas durante a pandemia em 2020. É o que mostra um relatório da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado nesta quinta-feira, 16. Foram 178 dias sem aulas presenciais na pré-escola e anos iniciais do ensino fundamental no ano passado, o triplo de tempo na comparação com a média dos países mais ricos.

O estudo da OCDE aponta que entre janeiro de 2020 e maio de 2021, escolas foram fechadas para pelo menos uma parte dos alunos em todos os países que participaram da pesquisa. O fechamento dos colégios foi uma das medidas para tentar evitar a propagação da covid-19. No entanto, conforme mostra o relatório, os países que mantiveram colégios fechados em 2020 tenderam a reabrir as escolas para as crianças mais novas no ano seguinte.

“Em 2021, as pré-escolas eram muito menos propensas a fechar em quase todos os países da OCDE e países parceiros”, apontou o estudo. “Em cerca de metade dos países com dados, as pré-escolas foram fechadas por dez dias ou menos entre janeiro e maio de 2021, incluindo países como Costa Rica ou Irlanda, onde a taxa de fechamento de escolas ficou entre as mais altas em 2020.”

O relatório não traz dados sobre fechamento das escolas no Brasil em 2021, mas levantamentos já realizados com Estados brasileiros mostraram que, durante a segunda onda da covid-19, em abril deste ano, boa parte das escolas públicas voltou a suspender atividades presenciais e só retomou as aulas no segundo semestre de 2021.

Em 2020, na média dos países da OCDE, as escolas pré-primárias (pré-escola) ficaram completamente fechadas por 44 dias; já as de nível primário (anos inicias do fundamental), foram fechadas durante 58 dias. Segundo a OCDE, no relatório Education at a Glance 2021, as interrupções do aprendizado podem significar riscos para "o bem-estar econômico e social de pessoas de todas as idades”.

O relatório destaca que os primeiros anos de vida são cruciais para o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças, principalmente as mais vulneráveis e que criar estratégias eficazes de aprendizagem remota é especialmente difícil para crianças pequenas. "Sempre que possível, as escolas devem permanecer abertas, com medidas de saúde adequadas que minimizam os riscos para alunos, funcionários e o restante da população", aponta o estudo.

O levantamento também mostra que os países com os piores desempenhos no Pisa, avaliação internacional realizada em 2018, foram justamente os que mantiveram as escolas por mais tempo fechadas, a exemplo do Brasil. Ou seja, sistemas educacionais com baixa performance perderam mais oportunidades de aulas presenciais em 2020 do que os que já tinham alto desempenho. Tal situação deve aprofundar ainda mais o abismo educacional entre os estudantes. 

O relatório destaca ainda que os países tiveram de tomar decisões difíceis sobre a melhor forma de gerenciar seus recursos para garantir a aprendizagem. Antes da pandemia, em 2018, o gasto público total em escolas no Brasil atingiu 4% do Produto Interno Bruto (PIB), superior à média da OCDE, de 3,2%.

Segundo o estudo, cerca de dois terços dos países da OCDE e nações parceiras relataram aumento no financiamento das escolas para ajudar a enfrentar a crise sanitária em 2020. “Em comparação com o ano anterior, o Brasil não relatou nenhuma mudança no orçamento de educação para o ensino fundamental em 2020 e 2021”, destacou o relatório. O País investiu em 2018 um total de 3.256 dólares por estudante - na média da OCDE, o investimento é de 10 mil dólares.

“Igualdade de oportunidades é um ingrediente chave para uma sociedade democrática forte e coesa. Diferentemente de políticas que podem combater as consequências, a educação pode atacar as raízes da desigualdade de oportunidades", disse nesta quinta-feira, 16, o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann. "Reforçar investimentos em uma educação melhor e mais relevante será fundamental para ajudar os países a oferecer prosperidade social e econômica de longo prazo", completou ele, durante o lançamento do relatório em Paris.

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Piso salarial de professores brasileiros é o mais baixo da OCDE, aponta estudo

Remunerações dos docentes ficam abaixo da média e atrás de outras nações latino-americanas, como Chile e México

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 06h00
Atualizado 16 de setembro de 2021 | 21h10

O piso salarial dos professores brasileiros nos anos finais do ensino fundamental é o mais baixo entre 40 países avaliados em um estudo da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado nesta quinta-feira, 16. Os rendimentos dos docentes brasileiros no início da carreira são menores do que os de professores em países como México, Colômbia e Chile.

De acordo com o relatório Education at a Glance 2021, os professores brasileiros têm salário inicial de 13,9 mil dólares anuais. Na Alemanha, por exemplo, o valor passa de 70 mil dólares. E é maior do que 20 mil dólares em países como Grécia, Colômbia e Chile. A conversão para comparação dos salários é feita usando a escala de paridade do poder de compra, que reflete o custo de vida nos países.

Em relação ao salário real, que inclui pagamentos adicionais, o valor médio recebido pelos brasileiros também está aquém da maioria dos países avaliados no relatório - só ultrapassa o que recebem os professores na Hungria e na Eslováquia. Os salários dependem de fatores como idade, nível de experiência e qualificação profissional.

No Brasil, segundo a OCDE, os salários reais médios dos professores são de 25.030 dólares anuais no nível pré-primário (que corresponde à educação infantil) e 25.366 dólares no nível primário (anos iniciais do ensino fundamental). Na média dos países da OCDE, os valores para as mesmas etapas são 40.707 dólares e 45.687 dólares, respectivamente.

 “Igualdade de oportunidades é um ingrediente chave para uma sociedade democrática forte e coesa. Diferentemente de políticas que podem combater as consequências, a educação pode atacar as raízes da desigualdade de oportunidades", disse nesta quinta-feira, 16, o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann. "Reforçar investimentos em uma educação melhor e mais relevante será fundamental para ajudar os países a oferecer prosperidade social e econômica de longo prazo", completou ele, durante o lançamento do relatório em Paris. 

Para a OCDE, o ambiente escolar influencia na decisão dos professores brasileiros de entrar e permanecer na profissão. “O tamanho das turmas diminuiu nos últimos anos no Brasil, mas os salários dos professores permanecem abaixo da média”, aponta o relatório.

Em relação ao tamanho das turmas, o estudo indica que o número de alunos nas salas tem caído de 2013 a 2019, passando de 23 para 20 estudantes nos anos iniciais do ensino fundamental - abaixo da média da OCDE (21).  Nos anos finais do fundamental, também houve queda, de 28 para 26, mas o número de alunos ainda é superior à média dos outros países (23).

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira que "o excesso de professores atrapalha". Segundo ele, o Estado foi inchado após um concurso feito pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) para a contratação de 100 mil docentes. "Não vou entrar em detalhes, mas o Estado foi muito inchado. Não estou dizendo que não precisa de professor, mas o excesso atrapalha", disse o presidente a apoiadores ao retornar ao Palácio da Alvorada, em Brasília.

 Na conversa sobre educação pública, Bolsonaro afirmou que não existem mais "livros que os pais não gostariam que os filhos tomassem conhecimento na escola e não é pouca coisa, não". Em seguida, antes de criticar seleção e o excesso de educadores, o presidente ouviu de um deles: "Tem muito comunismo na escola, tem muito comunista lá dentro". / COLABOROU GUSTAVO PORTO

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