VALERIA GONCALVEZ/ESTADAO
VALERIA GONCALVEZ/ESTADAO

Tarefa das férias: ser voluntário

Estudantes aproveitam a folga das aulas para se envolver em ações de ajuda ao próximo, organizadas por ONGs ou pelas próprias escolas

Verônica Fraidenraich e Ocimara Balmant, ESPECIAIS PARA O ESTADO

18 de junho de 2019 | 03h00

Se para muitos as férias escolares são um momento de descanso, há quem escolha esse momento para praticar ações de voluntariado. Várias escolas promovem atividades desse tipo em grupo e, mesmo quando não há nada previsto, os estudantes também buscam por conta própria iniciativas que promovam o bem ao próximo.

Para Daniel Moraes Assunção, fundador da rede de voluntários Atados, essas ações têm crescido no Brasil, embora ocorram em quantidade menor do que em outras partes do mundo. “Em compensação, são atividades mais inovadoras porque os problemas aqui são muito mais complexos, fazendo com que a gente crie diferentes frentes de atuação, nas mais diversas áreas”, diz.

Guilherme Borba, coordenador executivo da ONG Parceiros Voluntários, do Rio Grande do Sul, acredita que a juventude tem muito interesse em praticar o voluntariado. “Quando o jovem tem a oportunidade de fazer algo prático, o engajamento é alto porque hoje ele é muito movido pelo propósito, no contexto de participação social. Isso contribui para o envolvimento em ações voluntárias”, afirma Borba. Desde 2003, a ONG desenvolve o projeto Tribos nas Trilhas da Cidadania, que coordena voluntariado com jovens nas áreas de educação focadas em paz, meio ambiente e cultura em mais de 500 escolas no Rio Grande do Sul. 

Conheça histórias de jovens e escolas que estarão mobilizados nas próximas férias em ações de voluntariado pelo Brasil e no exterior. E inspire-se.

Artesanato e gincanas em área de baixo IDH

Julia Almeida dos Santos, de 15 anos, já sabe que para a viagem que fará ao Vale do Ribeira, em julho, não precisa levar outra coisa a não ser “roupa de trabalho”. Pelo segundo ano, ela passará uma semana com as crianças que vivem na região com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado de São Paulo. “O trabalho vai da hora em que você acorda até dormir, com pouco tempo para as refeições, que fazemos de marmita. Mas, se tem essa carga pesada fisicamente, tem a experiência transformadora que faz a gente voltar mais leve.”

O voluntariado faz parte do calendário do Colégio Santa Maria há 24 anos. Neste ano, enquanto um grupo do fim do fundamental estiver no Vale do Ribeira, uma leva de estudantes do médio irá à cidade de Telêmaco Borba, no Paraná. No Vale do Ribeira, serão cinco dias com crianças, fazendo de oficinas de artesanato a gincanas culturais. Em Telêmaco Borba, os estudantes irão fazer atividades com crianças, produzir um sarau em um hospital e atuar em uma unidade da Apae.

“Os alunos são motivados pela experiência e pela consciência que têm da necessidade de agir sobre a realidade. Nós, como educadores, procuramos também integrar os conhecimentos de história, sociologia e contexto socioambiental dessas regiões para que os alunos possam se ver como sujeitos sociais e políticos”, afirma Mayra Lourenço, professora de História e coordenadora do projeto de inserção social do ensino médio.

Para participar das viagens, o aluno tem de se envolver nas atividades do colégio em abrigos, asilos e hospitais. “Nesse tempo todo, percebo que alguns decidem participar porque gostam de fazer o bem, outros querem passear. Mas todos trabalham como doidos e voltam completamente mexidos”, diz José Antonio Cervigon, professor de ensino religioso que acompanha as atividades no Vale do Ribeira desde o início, em 1996. 

Moradia em áreas de extrema pobreza

Construir casas em uma área pobre do Rio de Janeiro. Essa é a programação das próximas férias de Gustavo Clemente Marques, de 17 anos, e de outros 18 alunos do Colégio Cruzeiro, na capital fluminense. O grupo vai passar um fim de semana acomodado em uma escola pública próxima da construção, em contato direto com famílias beneficiadas. Durante a obra, eles literalmente põem a mão na massa, de cavar o terreno a pregar as tábuas das paredes. As casas são pré-moldadas e custam R$ 8 mil, valor que deve ser arrecadado pelos alunos. Dessa vez, a turma conseguiu verba suficiente para erguer duas moradias.

“Foi uma das melhores experiências da minha vida, porque a gente passa quase três dias com os moradores que vão ganhar a casa e se toca muito com as histórias. É outra realidade, completamente diferente da minha”, diz Gustavo, aluno do 3.º ano do médio, que participa pela segunda vez da iniciativa, parceria da escola com a organização internacional Teto, que constrói moradias emergenciais em locais de extrema pobreza.

Julia Mendes Louzada de Souza, de 16 anos, aluna do 2.º ano, participou da ação em abril e também voltou tocada. “O vínculo que a gente cria com a família que vai receber a casa é muito legal porque ela fica o tempo todo com a gente, trabalhando junto e vendo a casa ser construída”, conta. Para Luciane Hentschke, coordenadora de ação social do colégio, a experiência é muito válida. “Ao ver de perto a pobreza das comunidades, os alunos voltam transformados e reavaliando suas vidas, principalmente, o conforto que têm em casa. A água do chuveiro, por exemplo, que nesses lugares a que vão é um bem escasso.”

Livros e revistas para os moradores

O calendário da Escola Estadual Reinaldo Cherubini, em Nova Prata, no Rio Grande Sul, prevê só uma semana de descanso em julho. Mas as ações sociais da escola não param, e os estudantes acham bom. Miguel Camargo Lunardi, de 12 anos, e Ashley Marcelly Barbosa de Oliveira, de 16 anos, estão entre os que farão rondas nos pontos de leitura espalhados pela cidade para checar se é preciso repor livros, revistas, jornais e gibis à disposição da população. “Não importa se estou de férias, eu me sinto muito bem, gosto de ver que as pessoas querem ler mais”, diz Miguel, aluno do 7.º ano do fundamental.

As publicações ficam em revisteiros em pontos de ônibus e em minibibliotecas na praça principal. Há ainda gelotecas (geladeiras decoradas para guardar o material de leitura) e malotecas (malas adaptadas com a mesma finalidade), deixadas pela cidade, de modo fixo ou não. Ashley conta que os habitantes já conhecem o projeto e fazem doações. “Se faltam livros, fazemos alguma campanha para conseguir mais”, afirma.

A diretora da escola, Veridiana Valar Ciotta, lembra que quando o projeto começou, em 2007, com a ONG Parceiros Voluntários, livros e revistas desapareciam muito. “Acho que a população se habituou, de tanto a gente repor. O material ainda desaparece, mas é bem menos. Foi uma surpresa, as pessoas passaram a respeitar o trabalho dos alunos.” A diretora ressalta que o projeto faz parte das ações de incentivo à leitura e promoção da cultura dentro e fora da escola, que têm ajudado muito os estudantes em relação ao comportamento e à disciplina em sala de aula. “Os alunos se tornam mais responsáveis, mais assíduos.”

Leitura e escrita no sertão e no mangue

Clara Freitas Passo, de 16 anos, escolheu, por conta própria, o sertão pernambucano para praticar o voluntariado. Ela vai para a zona rural de Manari, cidade a 360 quilômetros do Recife, que já foi considerada a mais pobre do País e teve o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) nacional em 2009. Lá, Clara fará atividades de leitura e escrita com crianças e jovens entre 4 e 16 anos, numa ação promovida pela Volunteer Vacations, uma agência especializada em férias voluntárias. 

No total, a viagem ao Nordeste dura uma semana e também inclui uma passagem pela Ilha de Deus, vila de pescadores situada em uma das maiores áreas de mangue na zona urbana recifense. Na vila, ela e outros jovens vão trabalhar a questão da educação e do empoderamento feminino com as moradoras artesãs moradoras da região. Com isso, o objetivo é que os voluntários ajudem na formação das pessoas da comunidade, que vivem em constante risco social e de vulnerabilidade. 

“O Brasil está em uma situação muito ruim, e as pessoas se preocupam em doar bens materiais, mas acho mais importante doar tempo. Como não tenho tempo durante o ano letivo, escolhi fazer isso nas férias”, explica Clara, que pela primeira vez fará uma viagem desse tipo. Ela diz esperar, dessa forma, poder contribuir para uma menor desigualdade na educação do País. “Sei que tenho uma condição financeira privilegiada, por isso, acho importante passar meu conhecimento aos outros para que um dia, quem sabe, todos possam ter acesso às mesmas chances que eu tive”, reflete a estudante do 2.º ano do Colégio Vértice, em São Paulo.

Fundamentos com assistência social

Atuar em trabalhos voluntários faz parte da rotina de Thiago Gentile Monaco, de 17 anos, incluindo as pausas do meio de ano. Todos os sábados, ele visita o grupo de assistência social Bom Caminho para colaborar no atendimento a crianças e jovens carentes da região da Raposo Tavares, na zona oeste de São Paulo. “Eu trabalho na área de educação moral, conversando com as crianças, por exemplo, sobre a importância de respeitar e não fazer com os outros o que não queremos que façam conosco”, explica. No segundo semestre, Thiago também ajuda a entidade na arrecadação de alimentos para montar cestas básicas e produtos de higiene pessoal, doados no Natal às famílias atendidas pelo grupo assistencial.

No ano passado, quando cursava o 3.º ano do médio no Colégio Albert Sabin, ajudou a promover uma tarde esportiva com crianças e adolescentes do Bom Caminho. “Eu percebia que eles não tinham muito envolvimento com esporte, o máximo que conheciam era futebol, então decidimos organizar esse evento como parte do projeto Impacta Sabin, em comemoração aos 25 anos da escola”, lembra o estudante, que iniciou neste ano a graduação de Matemática na Universidade de São Paulo (USP). Para o evento, Thiago procurou uma quadra para alugar e se dividiu com os outros cinco amigos no ensinamento de regras e fundamentos de esportes com voleibol, tênis, basquete, futebol e handebol. Após uma tarde de muitos jogos, todos saíram vencedores. “Foi uma coisa muito gratificante para a gente e para eles, que a princípio pareciam ter um pouco de vergonha, mas no fim já estavam brincando e sorrindo”, diz.

De inglês a brincadeiras

Artur Estrela da Silva (na foto, de óculos), de 16 anos, já tem programação para o recesso escolar. Ele seguirá com as visitas à Creche Amparo da Imaculada Conceição, que atende 150 crianças de 1 a 6 anos em Porto Alegre. Brincadeiras, contação de histórias e oficina de inglês são algumas das suas tarefas lá. “Comecei a visitar a instituição há três anos e criei um vínculo com as crianças”, conta o aluno do 2.º ano do médio do Colégio Leonardo da Vinci, na capital gaúcha. Artur também vai ao Educandário São João Batista, entidade filantrópica que atende crianças e adolescentes com deficiências físicas múltiplas. Lá, estudantes auxiliam os professores nas atividades didáticas. “Vemos crianças com necessidades que nunca imaginamos existir e auxiliamos dentro do que podemos. Isso nos ajuda a entender a sociedade brasileira.”

Antônio Both Schenatto, de 16 anos, também está animado com a ideia de ser voluntário nas férias. “A gente passa a conviver com crianças que sofreram algum tipo de abuso em casa ou com necessidades especiais. São questões bem tristes, mas que nos permitem entrar em contato com diferentes situações sociais”, analisa o aluno do 1.º ano do médio.

Todas as ações de voluntariado fazem parte do projeto Leo Alfa Cidadania, que envolve 265 estudantes do 8.º ano do ensino fundamental ao 2.º ano do médio do colégio, que participam de atividades em até sete instituições. “Os alunos vivem histórias reais que os transformam e os fazem crescer”, afirma Carlos Alberto Barcellos, coordenador do trabalho, em parceria com a ONG Parceiros Voluntários.

Suporte em casos de câncer

Cidade do Cabo, na África do Sul, é para onde vai a carioca Lia Fernandes, de 18 anos, com uma amiga, nas férias de julho. Serão duas semanas de intercâmbio, com aulas de inglês pela manhã e ações de voluntariado à tarde. Lia e a amiga ajudarão crianças com câncer ou outras doenças graves atendidas no hospital da Cruz Vermelha Memorial da Criança - em inglês, The Red Cross War Memorial Children’s Hospital. “Ajudar os outros faz a gente crescer, sair da bolha social na qual vivemos”, afirma a jovem, que já vivenciou ações de voluntariado no Brasil.

Durante o 9.º ano do ensino fundamental, Lia visitou mensalmente um orfanato no Rio. A iniciativa era feita com algumas amigas do colégio Ao Cubo, onde estudou até o ano passado. “Os professores na escola sempre nos incentivaram a participar de ações sociais como forma de ajudar os outros”, recorda a estudante. 

Antes de fechar o contrato da viagem, Lia conta que foi questionada pela agência se estava preparada para frequentar um hospital com crianças doentes. “Eu respondi que sim. Acredito que essa viagem vai me fazer crescer demais”, afirma a jovem que fará o intercâmbio por meio da escola de idiomas Good Hopes Studies. 

Durante seu período na África do Sul, a acomodação dos voluntários será em quarto e banheiro compartilhados. “Minha mãe me apoiou e achou bom o fato de que, como estarei sozinha, terei de me virar com a compra de comida, a cozinha e a limpeza do quarto, tendo de assumir responsabilidades maiores, que eu não tinha antes”, diz a estudante. 

Ajuda em obras de baixa renda

Aos 14 anos, João Vitor de Souza Dias está ansioso para a viagem que fará em julho ao Vale do Silício, no Estado americano da Califórnia. Não só porque conhecerá essa região emblemática que abriga as sedes das maiores empresas de tecnologia do mundo, mas também porque ali poderá viver uma experiência diferente de ação social. Aluno da Escola Aubrick, ele já participa das atividades que o colégio promove em creches e asilos na capital paulista, mas desta vez será uma experiência prolongada, em outra língua e outro escopo.

A turma de 24 alunos, com idades que variam entre 11 e 14 anos, vai, entre outras ações previstas, trabalhar com uma associação que ajuda pessoas de baixa renda a reformar as próprias residências. “O que tenho aprendido é que ser voluntário não é só praticar uma ação social, mas acima de tudo é ter empatia. Você ajuda o outro e reflete que, se estivesse na mesma situação que ele, gostaria que outra pessoa estivesse ali para me ajudar”, compara. A ida à região do Vale do Silício, conta João Vitor, faz parte do projeto orientação vocacional da escola que, neste ano, tem foco no trabalho voluntário. “Isso nos preparou para essa experiência, que é um desafio porque o projeto é amplo e exige um comprometimento ainda maior”, afirma o aluno.

A coordenadora-geral da Aubrick, Teca Antunes, explica que esta é a primeira vez que a escola de São Paulo vai fazer uma viagem com essa abordagem. “Foi uma decisão muito atraente e aprovada pelas famílias porque une a ação social ao desenvolvimento de línguas, de autonomia”, resume Teca.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.