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Tapar o nariz e pular?

Esse vai e vem de ideias demonstra que a educação talvez não seja uma prioridade

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2018 | 05h00

Se as pesquisas de intenções de voto se confirmarem, o Brasil deve eleger hoje Jair Bolsonaro (PSL) como presidente da República, sem que a sociedade saiba ao certo quais são seus planos para a educação. É verdade que o tema apareceu bastante, talvez como nunca em outras eleições. Mas, mesmo sendo uma área crucial para o desenvolvimento do País, as discussões foram muito mais sobre crenças do que sobre propostas.

A incerteza começou no plano de governo apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O texto tem erros conceituais, como chamar o ensino fundamental de básico, e frases soltas que dão apenas uma ideia da direção que deve ser seguida. “Um dos maiores males atuais é a forte doutrinação”, diz, dentro de um quadrado pintado de vermelho. 

Não há uma indicação de como essa tal doutrinação seria combatida. Novos livros didáticos, formação de professores, mordaça? Muito se fala da aprovação do projeto Escola sem Partido, que está no Congresso e quer impedir discussões sobre política, sexualidade ou gênero. Mas Bolsonaro não menciona o projeto em seu documento e deixou de falar dele publicamente. 

O que ele tem dito é que pretende “expurgar” o educador Paulo Freire. Mas não se sabe exatamente qual a crítica que Bolsonaro faz a um dos autores brasileiros mais lidos em universidades estrangeiras e que defendia uma educação com foco na visão crítica dos alunos. Ele foi perseguido durante a ditadura por ser contra uma escola com conteúdos prontos para serem “depositados” nos estudantes. As ideias de Freire podem estar na cabeça dos professores, mas não fazem parte das diretrizes para currículos no País. Não sei como se daria a “expurgação”. 

O candidato e seu vice, o general Hamilton Mourão, também defendem a volta da disciplina de Educação Moral e Cívica, instituída durante a ditadura e que acabou em 1993. Mais uma vez, há dúvidas: o que seria ensinado nessa nova velha matéria? 

Uma das primeiras ideias tornadas públicas – e que agora deixou de ser mencionada – foi a construção de um colégio militar em cada capital. Reportagem do Estado mostrou que o custo/aluno para o País é três vezes maior do que investir em escolas públicas. 

Também veio à tona a polêmica sobre oferecer educação a distância para o ensino fundamental (1.º a 9.º ano), algo criticado por especialistas por causa do enorme benefício à criança da convivência em espaço educacional. Um de seus colaboradores é especialista no assunto, o ex-funcionário da Fundação Getulio Vargas Stavros Xanthopoylos. Mas nem ele nem Bolsonaro bateram o pé para a ideia vingar.

Outra bomba foi jogada pelo general Aléssio Ribeiro Souto, que afirmou ao Estado que seria necessária uma nova bibliografia para as escolas que contasse “a verdade” sobre a ditadura. Na campanha, porém, poucos acreditam que ele seria voz forte da educação. 

Uma das poucas ideias elogiadas foi a de ampliação de creches em todo o País, com foco nas famílias mais pobres, revelada também pelo Estado. Mas, apesar de Bolsonaro se dizer contra ideologia e direcionamento em escolas, propõe que igrejas e paróquias assumam creches, algo proibido por lei. Na semana passada, ainda surgiu um projeto de cobrar mensalidades em universidades federais, o que demandaria mudança na Constituição. Em entrevista a uma rádio, Bolsonaro disse que se tratava de fake news. 

Esse vai e vem de ideias – e ainda vagas e questionáveis – demonstra que a educação talvez não seja uma prioridade. E a sociedade brasileira, tão castigada pela péssima qualidade do ensino, vai tapar o nariz e pular no mar de incertezas. Só torcendo para que as águas sejam mais calmas e menos geladas do que parecem. 

* É REPÓRTER ESPECIAL DO ‘ESTADO’ E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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