Talvez o maior entre os franceses, Maügué é quase ignorado

Ele foi uma verdadeira revelação para os estudantes, bem mais do que Bastide e Braudel

Gilles Lapouge,

24 Janeiro 2014 | 03h00

Um grande sábio francês, o psicólogo Georges Dumas teve papel importante na criação da USP. Em 1908, ele veio ao Rio para um ciclo de conferências. Cerca de 30 anos depois, foi encarregado de indicar professores franceses que participariam da fundação da USP.

Dumas foi bem sucedido. Os professores recrutados por ele eram jovens desconhecidos. Seus nomes: Fernand Braudel, Claude Lévi-Strauss, Roger Bastide ou Pierre Monbeig. Mas 10 ou 20 anos mais tarde, tornaram-se figuras ilustres. E vamos reencontrá-los nas mais altas posições, na Academia Francesa e no Colégio de França (Collège de France). Lévi-Strauss é o maior etnólogo do seu tempo. Braudel é um dos pais da "Nova História" e da École des Annales.

Na nova USP as lições desses homens fascinam. O grande crítico brasileiro Antonio Cândido rememora: "Braudel era um grande ator. Antes de iniciar uma aula, costumava dizer: ‘hoje vou lhes descrever a morte de Maria Stuart. Observem. Eles irão chorar quando lhes disser tal frase’. Durante a aula a emoção crescia e, no momento previsto, todo mundo tirava o lenço do bolso". O grande etnólogo Claude Lévi-Strauss deixou lembranças as mais diversas. Ele não só escreveu obras capitais, mas também inventou um método, o "estruturalismo", que continua a fomentar a pesquisa antropológica mundial.

Por outro lado, seus cursos eram menos animados do que os de Braudel. Lévi-Strauss guardava uma certa distância. Sua mecânica intelectual era tão fabulosa que intimidava os auditórios. Dizia coisas bizarras. Referindo-se a São Paulo, afirmou: "Pena que São Paulo tenha passado do frescor para a decrepitude sem se deter na velhice".

O terceiro "grande" da equipe era o sociólogo Roger Bastide. Eu o conheci em 1951. Um homem gentil, astuto, inconstante. Falava um português medonho e, contudo, conhecia perfeitamente a língua falada no Brasil em todos os seus níveis. Poeta, mais do que teórico, ele penetrou em todos os antros onde se formava o pensamento religioso do País. Vagou sem destino. Perambulou.

Na equipe havia também um homem estranho. Ao passo que todos os seus colegas avançaram no caminho da celebridade, ele permaneceu quase ignorado e, no entanto, foi, talvez, o maior de todos. Quem ainda lembra de Jean Maugüé? E que obras escreveu? Nenhuma. Contudo, ele foi uma verdadeira revelação para os estudantes, bem mais do que Bastide e Braudel.

Eis o veredito do grande Antonio Cândido: "Jean Maugüé talvez tenha sido o maior professor que conheci em minha vida: um verdadeiro gênio didático. Invariavelmente, os 15 minutos iniciais da sua aula de filosofia eram consagrados a comentários sobre os jornais, sobre os filmes e os romances brasileiros que acabavam de ser lançados. Ele nos apontava o mundo real. Para o nosso grupo, o grande mestre era Jean Maügué".

Revelação fascinante de Antonio Cândido: o verdadeiro gênio da equipe não deixou nenhuma obra. Um homem que era apenas palavra, gesto e presença. Pertenceria ele a essa raça rara e preciosa cuja genialidade se exprime pela boca e a língua, pelo gesto, pela respiração ou o sorriso, e não pelo pergaminho, pela estante ou o livro impresso? Se for o caso, ele está em boa companhia, ao lado de colegas, entre os quais os mais conhecidos são Jesus Cristo, Sócrates ou Buda. Sem compará-lo a estes gigantes, nada nos impede de sonhar que estamos ouvindo aquelas extraordinárias palavras ressoando pelos anfiteatros da USP nos anos 1930, das quais nenhum escriba jamais extraiu sua essência e seus mistérios./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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