Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Tá na hora da escola

O tempo é agora. É imprescindível que os gestores públicos se unam para assegurar a reabertura nos quatro cantos do País

Angela Dannemann* e Mariana Luz**, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 05h00

Promover a reabertura das escolas não tem relação alguma – nem pode ter – com afrouxar as medidas de proteção à vida. Apesar de evidências científicas indicarem que a reabertura das instituições de ensino não agrava a pandemia, já são 450 dias sem atividades presenciais para a maioria dos mais de 47 milhões de alunos da educação básica no Brasil. 

Pesquisas feitas antes e depois da reabertura de escolas em mais de 20 países – entre eles Estados Unidos, Inglaterra, África do Sul, Coreia e Peru – mostram que as medidas amplamente conhecidas de uso de máscara, distanciamento, limpeza e ventilação de salas e cuidados com a higiene, como o uso de álcool gel, são suficientes para evitar que as escolas sejam ambientes de proliferação de contágio. 

Em que pesem os significativos esforços dos profissionais da educação, que enviaram atividades para fazer em casa e apoiaram as famílias, estudo da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) aponta os múltiplos desafios enfrentados pelas redes de ensino na implementação da educação não presencial – o principal deles é a conectividade. 

Sabemos das distintas realidades brasileiras e por isso mesmo defendemos uma campanha que mitigue as limitações de conectividade das crianças e jovens, com retorno gradual e seguro às escolas a partir de 2 de agosto. Há dados que mostram como o fechamento dessas instituições é prejudicial em diversas dimensões, sendo a mais cruel delas o aprofundamento de desigualdades. 

Na Educação Infantil, etapa de estímulos e interações que favorecem o desenvolvimento pleno, estudos elaborados durante a pandemia mostram que as famílias têm dificuldades em garantir um ambiente que produza o mesmo estímulo positivo da escola nas crianças. Falta de tempo e até de repertório são os principais responsáveis por isso. O impacto sobre o desenvolvimento das crianças é dramático. 

Na percepção de mais de 70% dos professores ouvidos numa pesquisa realizada em cidades brasileiras pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), houve impacto negativo no desenvolvimento das expressões oral e corporal, no relacionamento interpessoal e até na nutrição das crianças durante o isolamento. 

Para mais de 60% das famílias de crianças na escola pública, a falta ou a baixa qualidade do acesso à internet é uma dificuldade na oferta de atividades remotas. No caso de crianças da escola privada, esse problema atinge apenas 17% das famílias, aponta o mesmo estudo. 

Outro levantamento, feito pela consultoria Kantar, com a faixa etária de 0 a 3 anos, mostra que, para 27% dos cuidadores, a criança apresentou algum tipo de regressão em seu comportamento durante o isolamento. A perda de vínculo provocada pelo isolamento e pela falta de infraestrutura adequada para manter ao menos contato remoto com a escola pode significar para boa parte das crianças mais pobres a interrupção definitiva da trajetória escolar. 

Segundo relatórios da OCDE, o Brasil é um dos campeões no ranking de evasão no mundo – o País possui um histórico de abandono escolar preocupante já de antes da pandemia: apenas 60% dos estudantes que concluem o nono ano chegam até o final do Ensino Médio. Agora, uma série de pesquisas do Datafolha realizadas com famílias aponta que 40% dos estudantes de 6 a 18 anos não estão evoluindo na aprendizagem, não estão motivados e admitem que podem abandonar os estudos. 

Além do que as crianças e adolescentes deixam de aprender e das oportunidades que deixam de ter, as escolas fechadas produzem um outro efeito nefasto: anulam uma camada de proteção social, física e psicológica essencial para a garantia dos direitos da infância e da adolescência. Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que a violência doméstica cresceu em todos os Estados do País. Em São Paulo, o aumento foi de 254% desde o início da pandemia. 

Sabemos que, quando esse tipo de violência aumenta, crescem os casos de violência e abuso sexual a crianças e adolescentes. A escola é o ambiente em que eles estão mais seguros para pedir ajuda ou para ter sua situação de vulnerabilidade reconhecida – mesmo quando não têm coragem de revelá-la. 

Os dados, os casos internacionais e o nosso contexto local gritam: as crianças e adolescentes precisam voltar à escola. A vacinação está avançando e – ainda bem – profissionais da educação têm sido priorizados. Dentre os 3.355 municípios que responderam à pesquisa da Undime, 95% já haviam iniciado a vacinação dos educadores. 

É responsabilidade de todos garantir que o retorno às aulas presenciais ocorra e é imprescindível que os gestores públicos das diferentes instâncias federativas se unam para assegurar que a reabertura seja possível nos quatro cantos do País, igualitariamente, com os protocolos de segurança sanitários necessários. O quanto antes isso acontecer, já poderá ser tarde. O tempo é agora. Tá na hora da escola! 

(*) ANGELA DANNEMANN É CEO DA FUNDAÇÃO ITAÚ SOCIAL 

(**) MARIANA LUZ É CEO DA FUNDAÇÃO MARIA CECILIA SOUTO VIDIGAL 

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