Superando barreiras para prestar o Enem

Entre universitários brasileiros, 0,14% são portadores de deficiências. Na Fuvest, 220 prestam o exame, em média

Ana Bizzotto,

29 Setembro 2009 | 04h05

Quando o glaucoma de Leila Batista foi identificado, ela tinha 6 anos e já havia perdido a visão esquerda. Logo depois ficou totalmente cega. "Sentia muita dor nos olhos e passei boa parte da infância internada entre uma cirurgia e outra." Aos 39 anos, ela vai realizar o sonho de concluir o ensino médio e prestar o Enem.   Portador de deficiência motora nos braços, provocada por paralisia cerebral,Ivon Dias, de 33, vai prestar Enem e Fuvest. "Tive de reclamar do local de prova do Enem, era muito longe de casa. Mudaram para um mais próximo."   Leila e Ivon integram o grupo de 24,6 milhões de brasileiros portadores de deficiência, que representam 0,14% dos universitários do País. Essa participação pode crescer se passar no Senado projeto aprovado em abril pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que cria cota de 10% de vagas nas universidades públicas para portadores de deficiência.   Leis obrigam vestibulares a garantir que deficientes façam os exames. O Enem terá provas em braile e com letras ampliadas para deficientes visuais, que serão acompanhados por ledores caso necessário. Intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) vão ajudar deficientes auditivos e candidatos com dificuldades de locomoção terão salas de fácil acesso. Na Fuvest, Unesp e Unicamp, os procedimentos são semelhantes: os portadores de deficiência têm o direito de pedir uma hora a mais de prova, exames e locais adaptados às suas necessidades.   Dos 29.750 matriculados na USP no primeiro semestre, 157 se declararam deficientes. Em média, 220 deles se inscrevem por ano na Fuvest e cerca de 80 pessoas participam da preparação e aplicação do exame. No vestibular de janeiro da Unesp, 58 portadores de deficiência prestaram o exame. Na Unicamp, o número gira em torno de 50 por ano.   "Nossa parte é feita, o problema é depois que eles entram na faculdade. Nem sempre encontram condições ideais, pois os prédios são antigos", diz o coordenador do exame da Fuvest, Roberto Costa.   Lucas Maia, que é cego e concluirá o curso de Jornalismo da PUC-RJ este ano, acha que as cotas podem facilitar o acesso, mas não sabe se terão efeito no mercado de trabalho. "Mais produtivo que cota seria garantir que deficientes tenham capacitação para entrar na universidade. Mas isso não existe no Brasil."   "Só fui aceito em escolas regulares após a Constituição de 1988", lamenta Ivon, que se prepara no Cursinho do XI, do Centro Acadêmico do Direito USP. Leila estuda num supletivo oferecido pelo Cursinho da Poli e a UniSant’Anna, em parceria com a Federação Brasileira de Bancos. Além dos docentes, intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e ledores auxiliam os 135 alunos.   Leila registra o conteúdo das aulas com a reglete, prancheta com régua de alumínio usada para a escrita em braile. Seu colega Wellington Santana, que perdeu toda a visão aos 18 anos, utiliza o notebook para as anotações. "O ledor dita o que o professor escreve na lousa. A maior dificuldade é analisar gráficos", explica.   Para outra aluna do supletivo, Vilma dos Santos, de 29, que perdeu quase 100% da audição, o problema é a parte escrita de língua portuguesa. "O caso dela é o oposto do que ocorre com quem nasce surdo. Vilma foi alfabetizada em português e depois aprendeu a língua de sinais", diz o intérprete Edilson de Andrade.

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