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Summer job no Brasil

Alunos das melhores universidades americanas vêm ao País em busca de estágio

Jacyara Pianes, Especial para o Estadão.edu,

30 Julho 2012 | 21h46

O bom desempenho da economia brasileira nos últimos anos, aliado à oportunidade de conhecer uma nova cultura, tem atraído estudantes de renomadas universidades americanas para um período de trabalho em empresas daqui. Eles aproveitam as férias de verão no hemisfério norte e vêm para summer jobs que duram, em média, de 40 a 60 dias. Quando vão embora, deixam portas abertas para uma futura oportunidade profissional.

 

Maria Brewer, americana de 27 anos, já escolheu o que fazer quando concluir seu MBA em Harvard: quer voltar ao Brasil, onde está desde o fim de maio, em um summer job. A estudante ficará até meados de agosto na 21 212, empresa carioca que acelera startups brasileiras com know how desenvolvido nos Estados Unidos. Ela acompanha a rotina de alguns clientes, analisando mercado e propondo pitchs - descrição do negócio em poucos minutos para apresentá-lo a investidores e parceiros.

 

Maria já conhece os mercados da China e da Índia, dos quatro anos em que trabalhou na General Electric (GE), antes de iniciar seu MBA. Foi quando descobriu os desafios e ambiguidades dos países emergentes. E gostou. No ano passado, já durante o curso de Harvard, fez um estágio na Índia. Morou por dois meses em Bangalore e trabalhou em uma startup da área de saúde. Voltou aos Estados Unidos, retomou o MBA e soube da 21 212 por meio de conhecidos. Candidatou-se a uma vaga de summer job de olho no bom momento para o empreendedorismo por aqui.

 

A americana diz que fará propaganda positiva do Brasil em Harvard. “Provavelmente vou dar algum feedback para a universidade e participar de painéis com alunos que estejam pensando em fazer estágios similares e contar como foi minha experiência", afirma Maria, um exemplo de que os próprios estudantes estão se mobilizando, sozinhos, para se inserir em um mercado promissor, sobretudo nas áreas de tecnologia e empreendedorismo.

 

Procura

 

Segundo Isabella de Arruda Botelho, gestora da Endeavor, nos últimos dois anos cresceu o interesse dos estudantes estrangeiros pelo Brasil. Ela diz que todas as principais instituições dos Estados Unidos, como Harvard, Columbia, Yale e MIT, já buscam este tipo de intercâmbio. Para as empresas, o custo de receber estes jovens não é alto, já que eles estão interessados na experiência, e não em salários. Geralmente, elas pagam as despesas da viagem e uma ajuda de custo.

 

“Os jovens estrangeiros olham o momento da economia lá fora e veem que o Brasil está em crescimento. É uma oportunidade para montarem suas próprias redes de interesses”, completa Isabella. A Endeavor, uma instituição global de apoio ao empreendedorismo, desenvolve o programa e-MBA desde 1998, no qual estudantes de MBA podem optar por projetos de summer job em um dos 12 países onde a organização atua. O Brasil está na lista desde 2001.

 

Das 56 empresas brasileiras que fazem parte da rede da Endeavor atualmente, 42 delas já receberam intercambistas. Para os dois postos abertos no País este ano, nas empresas Arizona e iCarros, 42 alunos estrangeiros se candidataram.

 

Bruno Schrappe, diretor de produção da Arizona, empresa sediada em São Paulo que oferece serviços e soluções integradas em comunicação, tem experiência em trazer intercambistas. Ao todo, já foram 12 estudantes desde o fim de 2007. Atualmente ele conta com o trabalho de um estudante indiano que faz MBA em Cornell, nos Estados Unidos, Uday Tumuluri. “A Arizona está fazendo um trabalho que em várias áreas é de vanguarda. Precisamos trazer conhecimento especializado, acadêmico, de pesquisa”, diz Bruno.

 

Já Fernando Ortemblad, superintendente de Operações da iCarros, está recebendo estagiários gringos em sua empresa pela primeira vez. Pretende repetir a experiência após observar o desempenho do americano Anthony Muljadi, de 26 anos, que ficará 10 semanas na companhia. Recém-graduado em seu MBA em Harvard, ele veio para São Paulo motivado pela economia acelerada, com muitas oportunidades de crescimento, e pela propaganda do estilo de vida, língua e belezas naturais do Brasil. Aqui, desenvolve projetos principalmente em marketing e vendas. “O conhecimento funcional e de indústria que eu adquiri neste estágio vai ajudar a minha futura carreira onde quer que eu trabalhe com consultoria, gerenciamento geral ou negócios internacionais”, diz o americano.

 

 

Além disso, Anthony também faz questão de fazer de sua experiência profissional um intercâmbio cultural, aproveitando para fazer amigos, apreciar a comida, viajar – já esteve no Rio e em Florianópolis -, e até se rendeu às novelas. “O Brasil é, definitivamente, um dos principais destinos para os talentos no mundo.”

 

Conforme destaca o doutor em Economia e conselheiro do Conselho Regional de Economia de São Paulo, Marco Antônio Sandoval de Vasconcelos, embora o momento não seja dos melhores, a tendência da economia brasileira é melhorar. “Apesar de estar estacionado, o Brasil ainda oferece perspectivas mais positivas que a Europa, excetuando um ou outro país."

 

Pedidos

 

Frederico Lacerda, sócio da 21 212 (empresa na qual trabalha Maria Brewer), diz que a companhia ficou conhecida no mercado americano em pouco tempo, o que ajudou a atrair estudantes estrangeiros para summer jobs. A aceleradora de startups começou a atuar no mercado em setembro do ano passado, trazendo táticas dos Estados Unidos que podem ser aplicadas em empreendimentos brasileiros. A companhia tem escritórios no Rio (código telefônico 21) e em Nova York (código 212).

 

Em abril a 21 212 recebeu o primeiro intercambista. Agora, está com Maria e Leroy Cole III, americano de 22 anos que acabou de se formar em Economia em Yale. Mais dois universitários devem vir ainda este ano, um de Duke e outro de Tucson, duas instituições também dos Estados Unidos. “Eles não chegam com tanta experiência profissional quanto o brasileiro, mas a bagagem acadêmica é muito forte”, diz Frederico.

 

Leroy Cole está empolgado com aquela que é, de fato, sua primeira imersão no mercado de trabalho. Ele está aqui desde o fim de abril acompanhando algumas empresas aceleradas pela 21 212 e deve ter uma experiência um pouco maior do que a maioria dos intercambistas, cerca de cinco meses.

 

Por já ter noções de português e ser interessado nas economias emergentes da América Latina, a oportunidade de estagiar na 21 212 entrou no radar de Leroy Cole. Foi então que, também por iniciativa própria, entrou em contato com a empresa. “Nos Estados Unidos existe uma grande tradição de empreendedorismo tecnológico e há muito que a gente pode oferecer para os empreendedores brasileiros. Acho que é uma ótima hora de estrangeiros virem trabalhar no Brasil.”

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