Gustavo Magalhães/MRE/Divulgação
Gustavo Magalhães/MRE/Divulgação

Subindo a escada do Itamaraty

Uma das carreiras mais concorridas do País, a diplomacia é dividida em 6 degraus. Saiba como um estudante do Instituto Rio Branco, em Brasília, pode chegar a embaixador em Washington ou na ONU

Cedê Silva, Especial para o Estadão.edu,

31 Janeiro 2012 | 01h17

Estão abertas até 12 de fevereiro as inscrições para um dos concursos públicos mais difíceis do País, o de diplomata. As 30 vagas (duas delas reservadas a portadores de deficiência) serão disputadíssimas. No ano passado, foram 276 candidatos por vaga - cinco vezes a procura pelo curso mais concorrido da Fuvest, o de Engenharia Civil em São Carlos. Em busca de representar um país em ascensão e do salário inicial de quase R$ 13 mil, brasileiros formados em diversas áreas estão de olho no Itamaraty.

 

As etapas da carreira estão definidas em lei. A hierarquia é rígida, como nas Forças Armadas. São seis degraus. Quem passa no concurso assume o cargo de terceiro-secretário, enquanto ainda faz o curso no Rio Branco. Depois de pelo menos 20 anos, pode chegar a ministro de primeira classe, verbalmente chamado de “embaixador” mesmo se não chefia uma missão no estrangeiro.

 

Apenas a primeira promoção, para segundo-secretário, é automática. “Ela ocorre semestralmente, de acordo com as vagas decorrentes de promoções nas classes superiores”, explica o embaixador Denis Pinto, subsecretário-geral do Serviço Exterior. A partir daí, as promoções se dão por mérito.

 

Existe um atalho. Os postos no exterior são classificados em quatro categorias, de A a D. Para o cálculo das promoções, o tempo nos postos C (em cidades como Pequim, Moscou e Nova Délhi, entre outras) conta em dobro, e nos postos D (como, por exemplo, Cartum e Islamabad), o triplo. Ainda assim, é preciso ficar pelo menos três anos em cada classe.

 

Mas para subir qualquer escada é preciso chegar ao primeiro degrau. Neste caso, vencer milhares de candidatos - número muito superior ao de diplomatas existentes - em provas de Direito, Economia, Geografia, História e tantas outras, distribuídas em quatro fases. A meritocracia já é exercida muito longe da Esplanada.

 

QUEM É QUEM

 

3.º secretário

 

O terceiro-secretário já é diplomata, mas é também aluno do Curso de Formação do Rio Branco, que dura dois anos. Outros cursos virão mais adiante.

 

2.º secretário

 

A primeira promoção, para o cargo de segundo-secretário, é a única automática, e leva, no mínimo, três anos. A partir daqui, é por mérito.

 

1.º secretário

 

O primeiro-secretário pode ser assessor do ministro ou do secretário-geral. É também a primeira classe na qual o diplomata pode chefiar alguma coisa: a assessoria que atende às consultas dos deputados e senadores e acompanha os tratados no Congresso.

 

Conselheiro

 

Para chegar a conselheiro são necessários, no mínimo, nove anos. O conselheiro pode chefiar uma divisão (como a de Direitos Humanos ou a das Nações Unidas), ou até um posto do grupo D.

 

Ministro de 2.ª classe

 

O ministro de segunda classe, chamado apenas de “ministro”, já pode assumir a chefia de um departamento (como o de Meio Ambiente, ou do Oriente Médio).

 

Embaixador

 

Dos 1.400 diplomatas em atividade, apenas 130 estão na classe mais alta da carreira. São chamados de “embaixadores”, mesmo em Brasília. Somente eles podem chegar a secretário-geral do Itamaraty. O mais jovem embaixador em tempos recentes é Gelson Fonseca Júnior - promovido em 1991, aos 44 anos.

 

PRIORIDADES DIPLOMÁTICAS

 

O diplomata que fica em Brasília ou serve nos postos A (em cidades como Berlim, Berna, Bruxelas, Buenos Aires, Haia, Lisboa ou Londres) ou B (Atenas, Budapeste, Oslo, Montevidéu, Praga, Santiago ou Tóquio, por exemplo) avança mais lentamente na carreira.

 

ACELERANDO A CARREIRA

 

Já quem se aventura pelos postos C (como Ancara, Assunção, Caracas, Havana, Pretória, Seul ou Varsóvia) ou D (Bagdá, Brazzaville, Cartum, Nairóbi, Porto Príncipe ou Teerã, entre outros) pode ser recompensado com promoções mais rápidas.

 

CURRÍCULO

 

Maria Luiza Viotti

Embaixadora do Brasil na ONU, 57 anos

 

Natural de Belo Horizonte, formou-se em Economia na Universidade de Brasília (UnB). Ingressou no serviço diplomático em 1975. Chegou a embaixadora em 2006 e chefia desde 2007 a missão do Brasil na ONU em Nova York, o que incluiu o mandato de 2010-2011 no Conselho de Segurança.

 

 

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Antonio Patriota

Ministro das Relações Exteriores, 57 anos

 

Graduado em Filosofia pela Universidade de Genebra, o carioca Antonio Patriota entrou no Instituto Rio Branco em 1978. Tornou-se ministro de 1.ª classe em 2003. Foi embaixador em Washington e secretário-geral do Itamaraty antes de ser nomeado chanceler do governo Dilma Rousseff.

 

 

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LINHA DO TEMPO

 

1808

Abertura dos portos

 

Com o bloqueio econômico que Napoleão impôs sobre a Europa, D. João VI assina em Salvador o tratado de abertura dos portos às nações amigas.

 

1864/1870

Guerra do Paraguai

 

Uma aliança composta por Brasil, Argentina e Uruguai combate as forças do ditador Solano López, no maior conflito já ocorrido na América do Sul.

 

1902/1912

Chefia do Barão do Rio Branco

 

Como ministro das Relações Exteriores, o Barão do Rio Branco consolidou as fronteiras do País, fechou um importante acordo com a Bolívia e quase foi candidato a presidente.

 

1945

Criação do Instituto Rio Branco

 

No mesmo ano em que termina a 2.ª Guerra e o Brasil torna-se um dos 51 membros fundadores da ONU, é criado o Instituto Rio Branco, responsável pela seleção e treinamento dos diplomatas brasileiros. Hoje, todas as embaixadas são chefiadas por funcionários de carreira.

 

2011 (fevereiro)

Brasil na ONU

 

Em fevereiro de 2011, o Brasil assumiu a presidência do Conselho de Segurança da ONU. Os dez membros rotativos desse órgão são eleitos pela Assembleia Geral e têm mandatos de dois anos. Brasil e Japão são os que foram eleitos mais vezes: dez cada um.

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