Epitacio Pessoa/Estadão
Epitacio Pessoa/Estadão

SP vai ampliar carga horária no ensino médio com aulas remotas

Plataforma de atividades online na pandemia será usada para disciplinas eletivas de alunos do 2º ano em 2022; mudança faz parte da reforma do ensino médio

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2021 | 12h52
Atualizado 21 de julho de 2021 | 13h35

Estudantes do 2.º ano do ensino médio em escolas estaduais paulistas terão, a partir do ano que vem, parte da carga horária com aulas online. As atividades remotas serão para orientação de estudos e disciplinas eletivas, escolhidas pelos alunos. As mudanças fazem parte da reforma do ensino médio, que prevê ampliação do número de aulas e currículo mais flexível.

No novo ensino médio, os estudantes devem ter 3 mil horas de aulas - antes, eram 2,4 mil. Além das matérias de formação básica, como Português e Matemática, eles se aprofundam em conteúdos com os quais têm mais afinidade. A reforma da etapa vale para todas as escolas brasileiras, públicas e particulares. Cada escola da rede privada define como ampliará a carga horária. Na rede estadual paulista, as mudanças começam neste ano com alunos do 1.º ano e vão alcançar os alunos do 2.º ano em 2022 e os do 3.º em 2023. 

A partir do ano que vem, os alunos do 2.º ano do ensino médio diurno terão uma aula a mais por dia: serão duas aulas eletivas e três de orientação de estudos na semana. Essas aulas poderão ser ofertadas pelo Centro de Mídias, plataforma criada pelo governo paulista para atividades remotas durante a pandemia. No 3º ano do ensino médio, a aula extra por dia será ofertada em 2023. As mudanças foram anunciadas nesta terça-feira, 20, pelo secretário estadual da Educação, Rossieli Soares. "Aqui nasce o ensino híbrido", falou. 

Na coletiva para anunciar a mudança, o secretário afirmou que cada escola poderá definir o formato das aulas adicionais - se será remoto ou presencial. Um documento da Secretaria Estadual da Educação voltado para os professores, no entanto, deixa claro que no ensino médio diurno as cinco aulas adicionais por semana serão remotas.

Segundo Gustavo Blanco, coordenador de ensino médio da Secretaria Estadual da Educação (Seduc), o modelo inicialmente pactuado com as escolas era de oferecer essas aulas adicionais pelo Centro de Mídias - algumas unidades, no entanto, manifestaram interesse de ofertar as disciplinas eletivas de modo presencial. 

Para que os alunos tenham acesso às aulas remotas, Rossieli afirmou que a Seduc está investindo em recursos tecnológicos. Na pandemia, quando todas as aulas foram online, estudantes da rede estadual tiveram dificuldades de acompanhar os estudos e milhares sequer acessaram o Centro de Mídias. “Estamos em processo de licitação com equipamentos, providenciando equipamentos tanto para ficar na escola quanto para apoiar os alunos que mais precisam”, afirmou o secretrário.

Com as mudanças, os alunos do ensino médio diurno passam a ter oito aulas diárias, de 45 minutos cada - e não mais sete. "Vamos passar a ter um tempo de aula a mais para todos os estudantes do diurno, com aulas pelo Centro de Mídias. Vamos ter a atribuição do professor para todas essas aulas, contratar mais professores, aumentar o número de aulas e eles poderão trabalhar de forma híbrida", disse Rossieli.

Os alunos do ensino médio diurno, que já cumpriam 1.050 horas anuais, passarão a ter 1,2 mil horas de aulas por ano, atendendo, dessa forma, à ampliação de carga horária prevista na legislação.  

Já para os estudantes do ensino médio noturno, serão oito aulas a mais por semana para que sejam cumpridas as 3 mil horas previstas para a etapa. Essas novas aulas podem ser todas remotas, por meio do Centro de Mídias. Ou parte delas pode ser presencial. Cada escola vai decidir o modelo mais adequado. Na modalidade remota, os estudantes podem assistir às aulas ao vivo ou às gravações.  

As aulas extras do ensino médio noturno serão relacionadas ao percurso escolhido pelo estudante. Caso todas as aulas adicionais sejam oferecidas a distância, os estudantes do ensino médio noturno terão 240 horas online por ano, de um total de mil. A legislação brasileira permite que até 30% da carga horária do ensino médio noturno seja a distância. Para o diurno, o porcentual é de 20%.  

Segundo Blanco, foi preciso pensar em uma alternativa para alunos do noturno que atendesse tanto à exigência da legislação quanto às necessidades dos estudantes - boa parte dos alunos trabalha pela manhã e teria dificuldade de acompanhar aulas presenciais durante o dia. Hoje, na rede estadual paulista, cerca de 25% dos alunos do ensino médio têm aulas à noite. 

Pesquisa de interesse

Além da ampliação do número de aulas, o novo ensino médio prevê que os estudantes escolham qual foco querem dar nos estudos: eles podem se aprofundar em áreas como Linguagens, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Matemática (os chamados itinerários formativos). Também podem escolher percursos ligados à formação técnica e qualificação profissional. 

O governo fez uma pesquisa com 376 mil estudantes do 1.º ano do ensino médio para entender quais as áreas de preferência. A maior parte deles (56%) manifestou interesse em se aprofundar em Linguagens e 44% indicaram intenção de estudar mais temas relacionados às Ciências Humanas. 34% indicaram preferência por Matemática e 30% por Ciências da Natureza. Os alunos podiam indicar mais de uma área.

Os estudantes também manifestaram interesse pelas formações técnicas ou de qualificação profissional - o número de alunos que indicaram preferência por essas duas modalidades, no entanto, não foi informado pela Secretaria de Educação. 

Segundo Rossieli, todas as escolas terão obrigatoriamente de ofertar as quatro áreas do conhecimento (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas) e pelo menos dois itinerários formativos (que podem combinar, por exemplo, Linguagens e Ciências Humanas). Hoje, porém, há 880 escolas estaduais que só têm uma turma de ensino médio e teriam dificuldade em oferecer a opção aos alunos. Para essas, o governo estadual prevê a duplicação da oferta de turmas.

Nem todas as escolas vão ofertar os percursos ligados à formação técnica ou qualificação profissional. A Seduc prevê atender de 20% a 30% dos estudantes nessas modalidades. 

Para dar conta da ampliação de carga horária, o governo anunciou ainda a contratação de 10 mil professores e a destinação de R$ 150 milhões, por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), para que as unidades com ensino médio façam reformas, de modo a atender os interesses dos estudantes. Com o recurso, a escola pode, por exemplo, comprar câmeras para estudo de Linguagem ou equipar laboratórios para aprofundamento nos temas de Ciências da Natureza.

A reforma do ensino médio foi aprovada em 2017 pelo governo Michel Temer. A mudança é uma tentativa de resposta a uma escola tida como desinteressante pelos jovens e, portanto, com altos índices de evasão. As redes de ensino têm até o ano de 2024 para implementar as mudanças em todos as séries do ensino médio. Em 2024, a previsão é de que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principal porta de entrada para o ensino superior, também esteja adaptado às mudanças curriculares. 

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