‘Sou contra imposição que debilite a autonomia universitária’, diz ex-reitor Jacques Marcovitch

Professor foi reitor da USP entre 1997 e 2001

Pablo Pereira,

23 Janeiro 2014 | 19h44

Nascido no Egito, em 1947, Jacques Marcovitch chegou ao Brasil aos 15 anos, acompanhando os pais, forçados a deixar o país por motivos políticos e religiosos. Entrou na USP em 1965. Foi reitor entre 1997 e 2 001.

O senhor poderia apontar qual foi o seu momento mais gratificante no cargo? E qual pior momento?

O momento gratificante ocorre quando iniciativas decisivas para a construção do futuro da Universidade conquistam o consenso da comunidade acadêmica e o endosso da sociedade. Foi o caso, entre outros, do Código de Ética da USP, da criação de cursos novos, do acesso público à pesquisa por meio da Biblioteca Digital de Teses da USP, do Fórum de Politicas Universitárias e do recebimento da Biblioteca Mindlin, hoje instalada no campus. O contraponto a este momento foi uma greve imotivada na Universidade, que tentou a prevalência da força sobre os valores acadêmicos, atropelando assim, temporariamente, a lógica de resultados. Em todos os momentos, o trabalho em equipe na direção da Universidade foi determinante.

Naquele período de administração da USP, o senhor teve os problemas com greves de professores, alunos e funcionários. O movimento de greve, de 2000, durou 52 dias. Em maio deste mesmo ano, um professor doutor iniciante em dedicação exclusiva recebia um salário de R$ 3257,00. Como foi fazer gestão universitária com salários naquele patamar? Esse quadro mudou na USP?

Cabe à gestão universitária priorizar o equilíbrio financeiro para evitar que crises cíclicas ocasionadas pela globalização da economia afetem desempenho da instituição. Com as contas em dia, foi possível elevar a remuneração de docentes e funcionários, contratar jovens talentos para novas áreas de conhecimento e constituir reservas contingenciadas. Com isso, tornou-se possível prosseguir na valorização continua do trabalho, com 20% de aumento real em quatro anos e, simultaneamente, assegurar a previsibilidade, precondição fundamental para a boa governança acadêmica.

A USP não adota cotas raciais para alunos. No país, no entanto, há gente que já foi contra cotas na universidade, mas hoje até aceita cotas como política de compensação. O senhor é contra ou favorável à adoção das cotas para alunos na USP? Por quê? Se favorável, quais?

Sou contra imposições que debilitem a autonomia universitária. A inclusão socioeconômica de egressos de escolas públicas e em especial de afrodescendentes tem sido, e continua sendo, uma das prioridades da USP. O ingresso numa universidade como a USP, seguido de apoio diferenciado durante o programa de formação, merecem ser articulados com a identificação de oportunidades no mercado de trabalho. Esta articulação , que depende de um ativo engajamento da sociedade, contribui para a construção de uma vida significativa para cada um desses futuros líderes.

A USP, depois de seu mandato, passou por uma política de expansão de vagas, principalmente com o professor Adolpho Melfi, seu sucessor. Ele elevou o número de vagas de cerca de 7 mil para quase dez mil. O que o senhor pensa dessa expansão na USP, da criação da USP Leste?

O Plano de Expansão, estruturado no âmbito do CRUESP e iniciado em 2000 teve por horizonte 2020. O plano permitiu a restauração, pelo sistema de ensino superior do Estado de São Paulo, do equilíbrio dinâmico existente quando da fundação da USP em 1934. Ou seja, um sistema que respondesse aos anseios da sociedade com novas frentes de pesquisa voltadas para a evolução da ciência, cursos novos em áreas estratégicas e uma expansão em áreas de excelência. Os entendimentos com o Governo do Estado de São Paulo neste sentido viabilizaram, a partir de 2001, recursos específicos para esta expansão e para a criação da USP Leste.

O senhor é favorável à expansão da Universidade de São Paulo para o interior e outros estados?

A USP está presente e continua sua expansão no interior do Estado de São Paulo, como é o caso da ESALQ, em Piracicaba. É importante registrar também que a USP se faz presente na Amazônia, com suas bases para pesquisadores.

O senhor proibiu o trote na Universidade? Por quê?

O trote foi proibido para substituir o empurrão pelo abraço fraterno e a estupidez pela realização de missões solidárias. Os ingressantes, com o apoio de seus professores, formam uma extraordinária força-tarefa para um grande mutirão cívico a cada ano. Entre a doação de sangue e a distribuição de alimentos, muitas outras atividades voluntárias de cidadania passaram a ser imaginadas e empreendidas. Houve um “basta” à violência que constrangia, desrespeitava e intimidava. Abriu-se espaço para a ação solidária, que integra e desperta relações duradouras.

O senhor criou um incentivo interno à pesquisa, o Programa de Contrapartida, que beneficiava o professor pesquisador. Funcionou à época? Como o senhor vê hoje a situação do pesquisador brasileiro?

O incentivo interno à pesquisa, o programa de contrapartidas, oferece meios para viabilizar a obtenção de recursos extra-orçamentários junto a entidades de apoio à pesquisa ou junto ao setor empresarial. Trata-se de adiantar recursos para elaborar e submeter propostas de pesquisa ou de conceder recursos complementares aos fundos externos obtidos para incentivar o pioneirismo acadêmico. As iniciativas inovadoras decorrentes deste programa recomendam sua adoção nas instituições de ensino e pesquisa.

Alguns setores da educação ainda hoje criticam a política de acesso à USP, dizem que a universidade é elitista, que ainda forma somente os filhos da classe abastada. O que o senhor pensa a respeito?

O aluno da USP é proveniente na sua maioria de famílias dispostas a enfrentar a competição do vestibular que recebe 150 mil candidatos para dez mil vagas. Com uma concorrência de 15 candidatos por vaga em média, filhos de famílias de renda superior tendem a escolher escolas privadas ou a estudar no exterior. Além disso, os alunos provenientes do ensino médio público são estimulados a ingressar na USP por meio de iniciativas como o programa de inclusão social e o programa de avaliação seriada. Iniciativas que conciliam competição e integração social.

Reitores canadenses, norte-americanos e de outras instituições investem nos últimos anos na captação de alunos no país. Como o sr. vê isso? Qual é a principal barreira para o aluno brasileiro no exterior?

As universidades estrangeiras buscam no Brasil jovens cujas famílias podem pagar as altas anuidades praticadas que devem ser complementadas com as despesas de viagem e moradia. Para os que obtêm uma das bolsas de estudo, a principal barreira é o custo da sua manutenção no exterior e a escolha de um programa que desperte seu espírito empreendedor quando do seu retorno ao Brasil.

A Universidade é para graduar profissionais, preparar jovens para o mercado de trabalho, ou deve privilegiar, na juventude, a formação de massa crítica?

A universidade de pesquisa de classe mundial é uma instituição-chave para uma sociedade se tornar mais próspera e mais justa. Nenhuma outra instância pode contribuir de forma tão direta para o avanço científico- tecnológico, a emergência de bons quadros profissionais e a formação de novas mentalidades. Neste quadro, são papéis do ensino superior contribuir para o avanço do conhecimento, ampliar o acesso, valorizar o mérito, reduzir a evasão, desenvolver competências, formar líderes, preservar a memória e construir um legado para as gerações vindouras.

Como o senhor vê o sistema das universidades públicas e privadas atualmente no país? Qual a função da universidade pública nesta conjuntura brasileira?

No Brasil, o número de matriculados no ensino superior passou de 1,5 milhão em 1988 para 7 milhões em 2012 na sua maioria concentrados nas regiões Sul e Sudeste, sendo 73% de matriculados em escolas privadas. Apesar deste respeitável aumento, menos de 15% da população entre 18 e 24 anos de idade está matriculada em cursos pós-secundários. Num quadro global de profundas transformações e diante da extensão territorial brasileira, cabe à universidade pública se tornar mais eficaz no uso de recursos, se inserir nas redes internacionais e responder às especificidades regionais. Estas especificidades demandam competências diferenciadas para responder às expectativas locais. À guisa de exemplo, enquanto municípios do Sul e Sudeste que abrigam polos de ensino superior e inovação integram a lista dos 100 municípios com IDH comparável aos países mais desenvolvidos, nas regiões Norte e Nordeste mais de 30 municípios permanecem abaixo dos níveis do IDH nacional de vinte anos atrás, comparável aos países menos desenvolvidos do planeta.

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