Sobreviventes vão precisar de tempo para assimilar, dizem psicólogos

Para especialistas, crianças que testemunharam o assassinato dos colegas podem ter sintomas de estresse e depressão

Agência Brasil

07 Abril 2011 | 18h57

As crianças que testemunharam nesta quinta-feira o assassinato de colegas por um ex-aluno em uma escola municipal do Rio de Janeiro vão precisar de tempo e ajuda psicológica para retomar o cotidiano.

 

O período de luto e de readaptação pode variar entre as crianças e depende das condições psicológicas e psiquiátricas e dos parentes de cada uma, segundo especialistas.

 

O psiquiatra e professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Antonio Carvalho de Ávila Jacintho disse que é preciso respeitar o luto para que as crianças e os adultos que presenciaram a tragédia possam tentar assimilar o ocorrido.

 

“A escola precisa ficar fechada para que esses jovens possam elaborar o que aconteceu. Sempre que passamos por uma tragédia, principalmente as coletivas, isso desperta uma comoção maior, é necessário um tempo para tentar elaborar e, na medida do possível, entender quais as motivações para o fato”.

 

Após o trauma é possível que as crianças apresentem sintomas de estresse e depressão, de acordo com o médico, mas nem todas reagirão da mesma forma nem é possível prever o tempo que cada uma levará para a retomar a vida normal.

 

“As respostas de cada criança são muito particulares. Uma criança que tem funcionamento mental mais próximo da normalidade e estrutura familiar mais presente, terá prognóstico de reação melhor frente a essa situação traumática. Uma criança que tenha fragilidade, fobia, algum tipo de transtorno, pode ter maior dificuldade em elaborar esse processo. Mas para ambas é preciso um tempo para elaborar o que aconteceu”, compara o médico.

 

“As pessoas reagem de maneiras diferentes. Algumas paralisam, algumas são mais sensíveis. Mas pouco a pouco vão voltar ao que a gente chama de normalidade, de cotidiano normal”, acrescenta a professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade São Paulo (USP), Ivonise Fernandes da Mota.

 

Além do atendimento psicólogo e psiquiátrico paras as crianças, os adultos envolvidos na tragédia também precisarão de suporte para superar o trauma, segundo Jacintho. “A escola também vai precisar de receber algum tipo de ajuda para que possa enfrentar essa situação retomar a normalidade. Os professores, diretores, pessoas no comando vão ter que ter assistência para poderem elaborar, lidar com essa situação”.

 

O episódio, na avaliação do especialista da Unicamp, deve estimular o debate da sociedade sobre valores, principalmente entre os jovens. “Vivemos uma cultura onde a violência tem sido bastante valorizada, há identificação com figuras muito violentas. Entre os jovens, ser violento é um símbolo de força, de poder, de virilidade, de potência”.

 

Para Ivonise Mota, a tragédia, por mais traumática que seja, não pode ser esquecida. “Esquecer pode ser um alívio, mas, nessa situação, é necessário que a memória seja preservada e que a gente possa refletir com bastante seriedade. Estamos sujeitos a muitas violências, de várias ordens. Precisamos parar e refletir sobre o que isso significa em um nível mais amplo, de comunidade, de sociedade”.

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