FELIPE RAU/ESTADãO
FELIPE RAU/ESTADãO

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Enquanto a maioria dos colegas de classe do ensino médio estudava para ser médico ou advogado, Henrique de Pinho José se imaginava dentro de uma sala de aula, ensinando Biologia. A vontade era tamanha que surpreendia os amigos e até mesmo os professores. José é uma exceção, já que no Brasil cada vez menos jovens querem seguir a carreira docente. Hoje, apenas 2,4% dos alunos de 15 anos têm interesse na profissão. Há dez anos, o porcentual era de 7,5%.

+++ Metade dos docentes não indica carreira

Os dados são do relatório Políticas Eficientes para Professores, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na média, os países avaliados também tiveram queda na proporção de alunos de 15 anos interessados pela carreira. O porcentual passou de 6% dos adolescentes para 4,2%. Segundo o estudo, a baixa atratividade da carreira se deve ao pouco reconhecimento social e aos salários.

+++ Estônia: a melhor educação da Europa

Filho de pais que não tiveram a oportunidade de fazer faculdade, José conseguiu uma bolsa em uma escola particular no ensino médio e depois cursou Biologia e licenciatura. “Para famílias menos favorecidas, ser professor não é uma péssima ideia. Mas, na escola privada, os alunos são incentivados a irem para carreiras mais prestigiadas”, diz. Hoje, aos 25 anos, ele dá aula para crianças de 6 e 7 anos em uma escola municipal de Praia Grande, no litoral paulista. 

No Brasil, são alunos como José que querem ser professores. O relatório indica que quanto menor a escolaridade dos pais, maior é a proporção dos interessados na carreira. Os dados mostram que a profissão é a escolha de 3,4% dos jovens filhos de pais que só concluíram o ensino fundamental. Entre os filhos de pais que cursaram até o ensino superior, o porcentual cai para 1,8%. 

+++ Educação é a única solução para o Brasil

Desvalorização

Aluno do 3.º semestre de Letras do Instituto Singularidades, Maicon Ferreira, de 19 anos, lembra que foi desencorajado a seguir a carreira pelos professores da escola técnica onde fez o ensino médio integrado ao curso de Automação. "Muitos professores eram engenheiros e me aconselharam a escolher outra graduação. Eles diziam que quem dá aula ganha mal, é desvalorizado, passa por muito estresse. Mas eu sabia que era essa a carreira que queria seguir.” 

De família de baixa renda, Ferreira conta que em casa sempre conviveu com problemas financeiros. Foi um projeto de Literatura, desenvolvido por um professor de Português, que o ajudou a seguir estimulado na escola. “Tive uma infância difícil, minha família sempre viveu com uma renda mensal per capita de no máximo R$ 300. Esse professor e o projeto fizeram com que eu me encontrasse, ganhasse autoestima. Quero ser esse professor para oferecer a outros alunos o mesmo que recebi.”

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Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Todos os anos, a professora Elisângela Gusmão, de 44 anos, pergunta aos seus alunos dos anos finais do ensino fundamental (6.º ao 9.º ano) se gostariam de ser professores. Raramente alguém levanta a mão. Apesar de a visão das crianças sobre a profissão lhe causar tristeza, Elisângela compreende, afinal nem ela própria recomendaria a carreira – assim como metade dos docentes. Uma pesquisa do Todos pela Educação feita em maio mostra que 49% dos professores não indicariam a docência a um jovem. 

+ Só 2,4% dos jovens brasileiros querem ser professor

“Não me arrependo da escolha profissional, mas não gostaria que meus filhos fossem professores. É uma categoria muito desvalorizada pelo sistema e pela sociedade”, diz Elisângela, que há 15 anos dá aula de Educação Física em uma escola estadual na zona leste de São Paulo. A pesquisa identificou que entre as palavras mais usadas pelos professores para justificar a contraindicação da carreira estão reconhecimento, respeito e salário.

Segundo o relatório da OCDE, a valorização de quem entra em sala de aula para ensinar as crianças foi o caminho trilhado pelos países que hoje têm os melhores indicadores educacionais do mundo. Tornando a carreira mais atrativa, esses sistemas conseguiram levar os melhores alunos para a profissão e, consequentemente, formaram melhores professores. 

O Brasil, no entanto, caminha na contramão desses países: quem procura a profissão são os jovens com menor rendimento escolar. No País, a média de quem quer ser professor é de 354 pontos em Matemática e 382 em Leitura, no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Do outro lado, os jovens que querem outras carreiras que exigem ensino superior têm média de 390 e 427 pontos, respectivamente. “Os baixos salários e o pequeno reconhecimento social podem deter estudantes academicamente talentosos, já que eles têm opções mais lucrativas e prestigiadas”, aponta o relatório da OCDE.

Ex-secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM, diz que o ingresso de alunos com menor rendimento nas licenciaturas não seria necessariamente ruim se houvesse uma boa formação inicial nas graduações para esses futuros professores. “São pessoas com outro repertório social e cultural, que podem fazer diferença no ensino, se conectar melhor com os alunos, pois entendem melhor a realidade do País. O problema é que temos uma formação inicial fraca e uma continuada deslocada das dificuldades vividas em sala de aula.” 

Para Nicoly Oliveira, de 16 anos, foi a proximidade com alguns professores que a fez decidir pela careira docente. “É impressionante como eles conseguem ensinar e estimular mais de 30 alunos dentro de uma sala, cada um vivendo os seus problemas. Eles fizeram a diferença na minha vida, e eu quero ter uma profissão em que sinta ser importante para as crianças”, conta a aluna da escola estadual Castro Alves, na zona norte da capital. 

Ela já decidiu que quer cursar Pedagogia para dar aula a crianças dos anos iniciais do ensino fundamental (do 1.º ao 5.º ano) em uma escola pública. “Sei que não vai ser fácil por diversas questões: a violência, a falta de estrutura, o baixo salário. Mas são problemas com os quais convivi a minha vida toda e quero enfrentá-los”, afirma. 

Filha de uma cabeleireira e um pedreiro que não tiveram a chance de concluir o ensino médio, Nicoly conta que os pais estão orgulhosos de sua escolha profissional e torcem pelo seu ingresso em uma faculdade. 

Segundo o relatório da OCDE, em países como o Brasil, a carreira docente pode ser percebida como “um caminho para a mobilidade social”. É o que mostram os dados do Censo da Educação Superior: apesar de apenas 2,4% dos alunos quererem ser professor, 20% das pessoas que acessam o ensino superior vão cursar alguma licenciatura.

“Os cursos de formação de professores são mais acessíveis, porque não são em período integral, são mais baratos que outras graduações e há uma grande oferta de vagas. Também têm uma garantia mais rápida de entrada no mercado de trabalho, ainda que pague pouco”, diz Caroline Tavares, gerente de projeto do Todos. 

Salário

A valorização docente também depende de boa remuneração. Dados mostram que o Brasil ainda caminha a passos lentos para chegar perto dos melhores exemplos educacionais. O professor da rede pública brasileira recebe, em média, cerca de R$ 38,9 mil por ano – um terço da média dos docentes de países membros da OCDE. 

Os salários também são mais baixos quando a comparação é feita no Brasil, com profissionais com a mesma escolaridade. Relatório do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) publicado este mês mostra que o salário de professores da educação básica é, em média, 25,2% mais baixo.

Um em cada cinco professores tem mais de 50 anos

O fato de a docência ser uma carreira pouco atrativa para os jovens brasileiros fez com que o quadro de professores envelhecesse no País. Hoje, um em cada cinco professores da educação básica tem mais de 50 anos. Além da preocupação com a reposição desses profissionais, que, em tese, se aposentarão nos próximos anos, especialistas destacam o distanciamento que professores mais velhos costumam ter em relação aos alunos. 

“O mundo mudou mais rapidamente nos últimos anos e, com isso, a necessidade dos alunos é outra. O sistema educacional não acompanhou essa mudança. Precisamos reconfigurar a escola, usar novas linguagens, novas metodologias de ensino. O professor jovem é essencial para essa mudança. Quem está há mais tempo na carreira tem muita experiência, mas também precisa mudar”, diz Miguel Thompson, diretor do Instituto Singularidades. Segundo o Censo Escolar de 2016, apenas 14% dos 2,1 milhões de professores que lecionavam naquele ano tinham menos de 29 anos.

Aluna do Colégio Móbile, na zona sul de São Paulo, Gabriela Peres, de 17 anos, diz que passou a pensar em ser professora ao perceber que seus colegas com dificuldade em Biologia conseguiam aprender com ela. “Sempre gostei muito de estudar e descobri que também é muito legal ensinar”, diz. Filha de médicos, ela conta que os pais a alertaram sobre a baixa remuneração e o estresse da profissão. “Apesar de todos os pontos negativos, vejo meus professores em sala de aula e penso que quero ser como eles.”

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Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 03h00

Em visita recente a uma escola pública da capital, uma estudante de Pedagogia me contou – sem qualquer receio pelo fato de eu ser jornalista – que pretendia burlar os sistemas de estágio obrigatório. Quem quer ser professor no Brasil precisa completar mínimas 300 horas de aulas supervisionadas. A moça já estava tendo sua experiência profissional no ensino fundamental, era assistente de uma professora de 2.º ano. E me garantiu: “A diretora aqui é legal e vai assinar na minha ficha que fiz estágio também na educação infantil”. 

Responsáveis pelas faculdades de Pedagogia sabem que isso acontece aos montes, mas é difícil fiscalizar ou punir. Mesmo quando a carga horária é cumprida, em geral, não há supervisão adequada para que os alunos aprendam durante o estágio. Eles passam o tempo só ajudando professores – muitas vezes, mal formados também – e os imitam depois. Assim como médicos e engenheiros precisam ter experiência prática antes de abrir pacientes ou construir prédios, professores não podem ser jogados nas salas de aula para “aprender fazendo”. 

Estudo divulgado este mês pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que o estágio bem feito está presente nos melhores sistemas educacionais do mundo, como o da Estônia e de Cingapura. O relatório enfatiza a importância de uma “prática clínica obrigatória e longa” antes de começar a lecionar. A eficiência do estágio está ligada à supervisão de profissionais experientes, ao feedback e à avaliação.

No nosso vizinho Chile, recentemente, as leis foram mudadas para que o foco da formação se tornasse a prática. Hoje, as próprias universidades organizam e acompanham o estágio, cujo modelo é inspirado na residência médica. No fim do curso, os treinamentos ocorrem quatro dias por semana. 

O Brasil tenta mudar, mesmo que de forma tímida, as diretrizes para cursos de formação do professor. Mas a entrada em vigor das novas regras, que seria em 2017, tem sido adiada a pedido do Ministério da Educação. O novo prazo se encerra no começo de julho. A ideia é de que os cursos ensinem a ensinar. A principal crítica aos currículos atuais é a de que são muito teóricos. A carga horária do estágio, no entanto, aumentaria só em cem horas. 

O estudo também destaca que uma das maneiras de melhorar um sistema de ensino é ter professores bem formados e experientes nas escolas com alunos pobres e com dificuldade de aprendizagem. Dois exemplos são o Japão e a Coreia do Sul, que obrigam os docentes a mudar de escola de tempos em tempos, decidem onde eles vão atuar e pagam mais para os que ensinam crianças que têm dificuldades.

No Brasil, escolas com alunos de baixa renda (públicas ou privadas) têm professores menos qualificados e menos treinados para dar aulas, segundo o estudo. Há também mais docentes formados em Ciência, por exemplo, dando aulas de Ciência para alunos das classes altas. Para os mais pobres, são profissionais de qualquer disciplina fazendo esse papel.

Pouco tempo depois da visita à escola pública, estive em uma reunião de pais da escola do meu filho. Uma instituição particular, em um bairro de classe alta da capital. A professora, formada na Universidade de São Paulo (USP) e com três especializações, discutiu a autonomia dos alunos de 6 anos. Passou horas explicando seu trabalho para estimular o pensamento crítico, a empatia e o autoconhecimento das crianças, habilidades essenciais na formação hoje. Lembrei-me da estudante de Pedagogia, que nem o estágio faria direito. Em um ano estaria formada e dando aulas, provavelmente na rede pública. E, assim, o Brasil segue reproduzindo a desigualdade educacional a cada geração. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ‘ESTADO’ E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE  JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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