Marcela Araujo
Marcela Araujo

Sigla EAD já não assusta mercado

Para se aperfeiçoar ou mudar de carreira por meio da formação online, o importante é escolher uma instituição de boa reputação

Luciana Alvarez, Especial para O Estado

27 Agosto 2017 | 03h00

Da Engenharia à Gastronomia, chegando ao MBA, cursos a distância oferecem vantagens para quem tem dificuldade de deslocamento ou precisa de flexibilidade de horário. No mercado de trabalho, a maior parte do preconceito já foi vencido, e a sigla EAD não assusta mais. A experiência de alunos e a opinião de especialistas apontam que, para subir ou mudar de carreira por meio da formação a distância, o importante é escolher uma instituição de boa reputação e se dedicar aos estudos. 

Em um primeiro momento, o executivo Danielo Gonçalves de Souza queria fazer um MBA presencial. Mas ficou desempregado e teve de repensar suas opções. “Queria ter a possibilidade de me mudar para qualquer lugar caso encontrasse uma boa vaga. Além da flexibilidade, coloquei na ponta do lápis o quanto gastaria com combustível e estacionamento.” Antes de se decidir, contudo, pesquisou a fundo como eram os cursos. “Tem instituição que só dá uma apostila em PDF e aplica prova. O curso fica muito fraco.”

A busca por qualidade, como fez Souza, deve ser uma preocupação para quem procura um curso a distância. Mas deveria ser uma preocupação para quem quer estudar independentemente da modalidade. “Em todos os ramos temos os oportunistas. Nem todo curso presencial é ótimo, nem todo EAD é ótimo. O aluno tem de saber o que está sendo oferecido”, afirma Beatriz Marthos, secretária executiva da Associação Brasileira de Ensino a Distância (Abed). 

Souza escolheu o MBA em Finanças EAD da Fundação Getulio Vargas. Gostou tanto que pensa em fazer uma graduação em Contabilidade a distância. “Na sala de aula, às vezes o professor tem de improvisar. No ambiente online, cada resposta a um dúvida já vem com uma carga maior de conhecimento, indicações de fontes, sugestão de leituras.” Ele ainda está em busca de um emprego, mas garante que o MBA só ajudou. “Nas entrevistas, ninguém nunca me perguntou se foi EAD. E, quando digo que foi, acham normal.”

A proliferação de pós a distância tem sido uma das razões para o fim do preconceito contra a modalidade, mesmo em outros níveis de ensino, acredita Ricardo Holz, presidente da Associação Brasileira de Estudantes a Distância. “Esse universo da pós ajudou, porque os executivos estão fazendo suas especializações em EAD e não se assustam mais.”

Foi isso o que ocorreu com a engenheira civil Jamile Nogueira. Antes de se matricular no MBA online do Ibemec, teve de superar seus preconceitos. “Eu precisava da flexibilidade, mas confesso que tinha um pouco de medo. Achava que não haveria contato com colegas e professores, que isso prejudicaria o curso.” Mas, ao conversar com ex-alunos da modalidade, ela se convenceu de que teria uma boa formação. E não se arrepende. Com o MBA ela se capacitou para assumir os negócios da família. Agora como empresária, assegura que não tem mais preconceitos. “Com certeza contrataria alguém que se formou em EAD. O mais importante é ser uma instituição boa.” 

Flexível. Após 20 anos trabalhando como publicitário, Marcos Otiay decidiu mudar de área. Para entrar no mundo da gastronomia enfrentou de novo uma graduação. “Já estava com 41 anos e não teria mais paciência para ir todo dia para a faculdade. E vi que eram os mesmos professores, as mesmas matérias.” Decidiu fazer Gastronomia Online, pela Universidade Anhembi Morumbi, onde acabou de se formar. 

Mas o EAD tem diferenças, reconhece. Em seu caso, acha que o curso foi mais desafiador. “Você tem de aprender a se virar sozinho. Se não deu certo, faz de novo, em vez de esperar uma resposta do professor.” Como a gastronomia é um curso muito prático, conta que muitas pessoas ainda se espantam ao saber que estudou a distância, mas nada que o tenha impedido de conseguir boas oportunidades. Durante a faculdade, fez um estágio no renomado restaurante Esquina Mocotó. “Em todos os lugares que passei sempre fui muito elogiado por não desperdiçar alimentos.”

A ideia de que o EAD é um curso de segunda categoria está diminuindo entre empregadores e os próprios estudantes. “Poucos acham que é um curso fácil. Na pesquisa que fazemos com o perfil do nosso aluno, só 10% dizem acreditar ser mais tranquilo que o presencial”, conta Maria Alice Carraturi, presidente da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). Na pesquisa, 60% dizem que não fariam o curso se não fosse em EAD.

Aluno de Engenharia da Computação pela Univesp, Allan Tori está na sua terceira graduação - já terminou Design e Jogos Digitais - e sente que a única perda do modelo a distância em relação ao presencial é o ambiente universitário. “Mas hoje não me faz falta. Meu foco é a Engenharia, em aprender, me aprofundar”, afirma ele, que trabalha com simuladores de realidade virtual.

Ainda polêmico. Mas há uma área em que estudo online ainda motiva discussão: Saúde. O avanço do EAD em carreiras como Educação Física, Nutrição, Fisioterapia, Fonoaudiologia e Enfermagem vem sendo acompanhado com desconfiança pelas entidades de classe.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), por exemplo, é contra. “A formação do enfermeiro exige, além de conhecimento científico, muita atividade técnica, contato relacional com os pacientes, familiares e equipe de enfermagem e multiprofissional”, diz Dorisdaia de Humerez, coordenadora da câmara de educação do Cofen. Ela conta que os conselhos regionais de todo o País visitaram polos cadastrados no MEC e, de forma geral, a infraestrutura era insuficiente. 

Em 2016, o Conselho Federal de Nutrição também divulgou ser contrário ao EAD na graduação e agora participa de uma campanha para “banir da área de Saúde os cursos com matriz curricular 100% a distância”. O Conselho Federal de Fonoaudiologia tem posição semelhante. “As especificidades da formação superior em Fonoaudiologia, pelo seu caráter eminentemente prático, inviabilizam a realização da formação acadêmica, na sua totalidade, no formato da educação a distância.” 

Para os representantes das faculdades, contudo, a resistência se deve à falta de conhecimento sobre o modelo. “Respeitamos o que está nas diretrizes curriculares dos cursos (documento legal do MEC). Se certa atividade tem de ser presencial, será presencial. Nenhum curso de Saúde será 100% a distância. O aluno tem prática, tem laboratório. Só vai ser mediada pela tecnologia a parte teórica”, afirma Evandro Ribeiro, coordenador de EAD do Centro Universitário Claretiano. 

Em média, as graduações na área da Saúde têm entre 50% e 60% de atividades presenciais. “O aluno de Enfermagem vai conhecer as regras de higienização em um procedimento pré-cirúrgico a distância. Mas depois vai treinar no laboratório e fazer na prática durante o estágio”, exemplifica Mário Ghio, vice-presidente acadêmico do grupo Kroton.

DEPOIMENTO: ‘Estou seguro sobre o curso’

“Sou técnico de enfermagem e trabalho em dois empregos. Queria fazer a graduação para ir mais longe na carreira, mas até há pouco tempo nem existia na minha cidade uma faculdade de Enfermagem. Eu não teria condições de me deslocar todos os dias até a faculdade mais próxima, que fica a 110 quilômetros. 

Quando abriu o curso de enfermagem em EAD aqui em Vacaria (no Rio Grande do Sul), eu vi como uma oportunidade. Estou no quarto semestre e procuro me dedicar ao máximo. Tenho aula presencial três vezes por semana e estudo em casa. É bem puxado e estou tranquilo quanto à qualidade da formação.” 

(Henrique do Amaral Luz, aluno de Enfermagem EAD da Unopar)

DICAS PARA ESCOLHER O CURSO

1. Descubra que tipo de curso você procura, se está na hora de uma especialização, um curso rápido ou uma nova graduação

2. Verifique que modalidade se encaixa melhor ao seu perfil. O curso a distância dá mais flexibilidade, mas exige autodisciplina

3. Pesquise sobre a instituição de ensino antes de se inscrever e procure conhecer como funciona a metodologia do curso

4. Dedique-se aos estudos e faça networking com os colegas. Presencial ou a distância, o empenho do aluno é fundamental 

5. O certificado ou diploma não informa se o curso foi presencial ou EAD. Você pode falar sobre isso na entrevista de trabalho

 

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