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Sexualidade e a escola

Cabe à escola passar conhecimentos para que seus alunos sejam bem informados

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2020 | 02h00

Alguns anos atrás, estava almoçando em um restaurante e, ao lado da minha mesa, uma família almoçava alegremente, conversando o tempo todo. Como as mesas são bem próximas, fui testemunha da conversa que me impressionou. Estavam à mesa o pai, a mãe e dois filhos adolescentes: uma garota de 13 anos mais ou menos e um jovem de uns 17. Logo deu para perceber que os pais não eram mais casados, mas faziam questão de almoçar com os filhos aos finais de semana.

A garota estava entusiasmada porque passara uns dias das férias com a família de uma amiga em uma casa de praia e contava, não sem provocar os pais, como eram os costumes daquele grupo e a relação com a filha, da mesma idade que ela. “Os pais dela a deixam fazer isso, aquilo.” Foi o início de frase mais comum que a ouvi dizer.

Enquanto ela contava suas histórias, o irmão parecia incomodado, talvez pela atenção dos pais toda focada na garota. Vez ou outra ele até tentou interromper, mas os pais não lhe deram atenção. Assim que a menina terminou as novidades, ele passou a falar de suas conquistas com as garotas. Talvez tenha exagerado, mas o fato é que contabilizou inúmeras meninas com quem tinha ficado, beijado, assediado com êxito.

A mãe reagiu de imediato. Com o dedo em riste, disse com firmeza, mas sem braveza, a seguinte frase ao filho: “Nossos filhos, se quiserem beijar, ou até mesmo transar com alguém, que namorem, entendeu?”. Com essa pequena – mas contundente – frase, aquela mãe deu aos filhos uma lição de educação sexual familiar. Se o jovem seguiria o que ela disse, já é outra história e não importa, mas ele estava ciente do pensamento familiar a respeito de comportamentos relativos ao sexo.

A expressão “educação sexual” costuma assustar muita gente. Tanto que há quem diga que ela não deve ocorrer na escola. Deve. Isso porque a educação sexual familiar transmite a moral daquele grupo específico. Já a educação sexual na escola transmite, com base no conhecimento sistematizado, valores, tradições, costumes, leis em vigor no país, diferenças em relação a outros países, comportamentos aceitos e não aceitos pela sociedade, aponta preconceitos e estereótipos que envolvem a sexualidade. São abordagens bem diferentes e ambas importantes para a formação dos mais novos.

Vejamos um exemplo: uma família que professa alguma religião que tem como princípio que o relacionamento sexual só deve ocorrer após o casamento apontará tal princípio aos filhos. É direito da família ter seus valores religiosos e transmitir isso aos filhos.

Na escola, entretanto, isso não deve ocorrer porque uma das funções da instituição escolar é formar seus alunos para a autonomia, ou seja, para que saibam fazer boas escolhas quando tiverem maturidade, e boas escolhas são as escolhas bem informadas. Cabe, portanto, à escola passar todo o conhecimento humano construído e acumulado a respeito da sexualidade para que seus alunos sejam bem informados.

Educação sexual não trata de sexo, mas da sexualidade, tema muito mais amplo porque envolve todo tipo de comportamento relativo ao sexo. Saúde sexual, autocuidado, respeito a si, ao outro e à sociedade, responsabilidade, valores e moral social são temas, por exemplo, da educação sexual. Sabia que algumas doenças sexualmente transmissíveis estão crescendo entre os jovens justamente porque não temos um bom trabalho de educação sexual nas escolas? Não queremos nosso jovens infectados com vírus e bactérias que provocam essas doenças por falta de informação qualificada e de formação, queremos?

Não podemos nem devemos cercear a formação dos mais novos em virtude de nossos valores, de nossos conceitos e preconceitos, de nossa visão de mundo. Eles poderão ser bem melhores do que nós na construção do nosso futuro!

ROSELY SAYÃO É PSICÓLOGA

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