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Ser pai de adolescente

Sempre que sentir dificuldade, lembre-se: também não é fácil para eles passar por essa fase

Rosely Sayão*, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2019 | 03h00

Você acha difícil ser mãe ou pai de adolescente? Você tem razão: é mesmo. E um dos motivos é que, todo santo dia, é preciso aprender a ser uma nova mãe e um novo pai. É que, a cada dia, o filho é diferente. 

Um dia a mãe conversa, dialoga, e dá certo. A filha ou o filho aceitam as palavras ouvidas atentamente e alguns até se emocionam – os olhos chegam a lacrimejar –, principalmente quando o que está sendo conversado envolve um comportamento transgressivo ou inadequado. A mãe suspira aliviada. O filho se fecha no quarto sem bater a porta e fica lá, ensimesmado, boa parte do dia. Até que... Chega a noite ou o dia seguinte. E começa tudo de novo.

O mesmo comportamento volta a se repetir e, quando a mãe tenta conversar, ouve do filho que ele está cansado de tanto blablablá. Entra no quarto batendo a porta com força e coloca as músicas que a mãe sempre critica.

Em outro dia, o pai convida o filho para um programa entre eles. E ouve, justamente do filho que reclama de sua ausência, que não está a fim de pagar esse mico, que prefere sair com amigos ou jogar online. Um dia a filha pede para viajar com o namorado e usa como argumento que já é grande e sabe cuidar de si. Na semana seguinte, implora para os pais irem à escola reverter um problema que ajudou a criar.

Não é mole, não. Para ser pai de adolescente é preciso reinventar-se diariamente, esperar sempre o inesperado e mudar a organização familiar porque, afinal, uma família que acolhe uma criança não pode continuar a mesma quando o filho se torna adolescente.

Por outro lado, será que é fácil ser adolescente? Não é, não! Primeiramente, tem de conviver com essa história que inventaram de ser “aborrescente”. As mudanças de humor, muitas vezes bruscas, provocadas tanto pela revolução hormonal quanto pelas mudanças de visão do mundo e de si mesmo, podem deixar alguns adultos aborrecidos. Mas, da mesma maneira que enfrentamos noites mal dormidas na primeira infância dos filhos, devemos também enfrentar as tempestades de emoções nessa fase. Faz parte do papel dos pais passar por esses episódios.

Agora, difícil mesmo para eles, que deveriam ter conflitos com os pais para conseguir se separar deles, é se deparar com um mundo horizontalizado, ou seja, com falta de assimetria, grande responsável pelos conflitos.

Separar-se dos pais, aliás, tanto física quanto emocionalmente, não tem sido o anseio de muitos jovens, principalmente de classe média. Deixar o conforto de casa, onde sempre há alguém para deixar o ambiente organizado e limpo, para dar duro na vida, cuidar das próprias coisas? Só se for para morar em república ou fazer intercâmbio bancados pelos pais, certo?

E tem a confusão com a autonomia, provocada por nossa cultura familiar e escolar, que tem maltratado bastante esse conceito. Muitos adolescentes acreditam que, ao completar 18 anos, atingem a autonomia automaticamente. É que, então, ganham o acesso à habilitação para dirigir o carro dos pais ou o que irão ganhar, ingerir bebida alcoólica, etc. Não permitimos que soubessem que autonomia não se ganha, se conquista!

Aliás, nossa superproteção tem os tornado jovens adultos “analfabetos” em relação ao funcionamento da vida. Um vídeo do fantástico Porta dos Fundos já mostrou isso há alguns anos.

 

Toda vez que pensar e sentir que não está fácil ter filhos adolescentes, lembre-se que também não está fácil para eles passar por esse período sem o alento da maioria dos adultos. Conte a eles sua experiência sendo mãe e/ou pai. Quem sabe se, unidos pelas próprias dificuldades, pais e filhos adolescentes consigam construir um relacionamento com mais empatia, compaixão e amorosidade? Pode ser uma alternativa. 

* É PSICÓLOGA

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