WERTHER SANTANA/ESTADÃO
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Rosely Sayão
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Ser mãe é viver ‘no limite'

Verdadeiras equilibristas, elas ficam entre o autocuidado e o abandono de si

Rosely Sayão*, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2021 | 23h59

Está sendo anunciada reedição do reality show de televisão No Limite, um programa em que um grupo de pessoas, isoladas em uma praia deserta, vive situações que exigem coragem e resistência física ao máximo. Adivinhe quem, leitor, vive isso diariamente? As mães. Aliás, vivem bem mais do que isso porque não estão isoladas: estão sempre rodeadas de pessoas de idades diversas com quem precisam conviver. 

As mães vivem no limite do esforço físico quando o bebê nasce, pela falta de sono recuperador, pelo cansaço extremo que os múltiplos e simultâneos afazeres domésticos causam e pelos cuidados com o filho, ainda tão frágil – incluindo a amamentação. Nesse período, vivem, igualmente, sempre no limite das emoções justamente pelo reconhecimento da imensa responsabilidade que é cuidar de um ser que ainda não se comunica verbalmente. Isso sem contar a construção diária, com correções de rumo constantes, do papel de ser mãe.

À medida que o filho cresce, as mães vivem sempre no limite das preocupações, da ansiedade e da angústia porque pensam na formação do filho, na educação escolar dele, no mundo que o aguarda, nos caminhos que vai escolher trilhar, no futuro dele a curto, médio e longo prazo. Considerando suas expectativas e anseios, as mães passam a viver no limite da culpa porque acreditam que são total e absolutamente responsáveis por tudo o que acontecer. Ah! A culpa se transforma em uma companheira. 

E vivem sempre com a paciência no limite. Os filhos berram, choram, fazem manha, desobedecem, caem e se machucam, fazem birra, descobrem coisas que não deveriam, escolhem amigas e amigos que não serão bons para eles, fazem coisas escondidos, perguntas impertinentes... 

As mães, quando se dedicam a uma carreira profissional ou têm um trabalho remunerado, estão sempre no limite da piração: precisam se tripartir entre casa, filhos e trabalho. Agora, na pandemia então, com muitas realizando trabalho remoto, uma loucura! É filho chamando para ajudar e importunando sua concentração e até reunião virtual por um motivo simples: como assim, a mãe está trabalhando e não pode ser interrompida, se ela está aqui em casa? Criança não entende.

Na maioria das organizações em que trabalham, mães vivem no limite do desrespeito – isso quando não são desrespeitadas – por ter filhos. Filho fica doente, atrasa para a escola, precisa ir ao médico, e quase sempre levado pela mãe. Sem falar nas que nem trabalho conseguem por ter filho.

Viver no limite do antagonismo dos afetos e atitudes? É com elas. Amor e ódio, acolhimento e afastamento, medo e coragem, força e fragilidade, e por aí vai... Verdadeiras equilibristas. As mães vivem sempre no limite entre o autocuidado e o abandono de si. Há uma sequência (pequena) de dias em que fazem exercícios físicos, se alimentam bem, fazem limpeza de pele e passam todas as loções e cremes. Mas há dias em que mal conseguem tomar uma ducha rápida porque tem filho passando a lição de casa que fez por baixo da porta do banheiro para que ela corrija.

Viver no limite da sanidade também é uma experiência materna por causa da busca da perfeição como mãe. Mas ela erra, sempre irá errar. E acerta também. Por isso, de quebra, ainda vive no limite entre a expertise e a imperícia. E sabe o pior? Quando termina essa trabalheira toda física, mental, social, emocional, sabe qual o prêmio? A perda, o luto. Os filhos se vão – porque esse é o destino deles.

Mães: desejo momentos de alegria e de felicidade em todos os seus dias, muita saúde e resiliência, e envio meu carinho a vocês todas. Meu respeito!

*É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLA

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