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Sem reforma do médio

Bolsonaro e Haddad ignoram ou demonstram insatisfação; educadores querem mudanças

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2018 | 09h23

A tão falada reforma do ensino médio parece não ter futuro, ganhe quem ganhar as eleições presidenciais. Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), que disputam o segundo turno, demonstram insatisfação ou ignoram a menina dos olhos do governo de Michel Temer na Educação.

A reforma foi instituída por medida provisória em 2016, pouco após Temer assumir a Presidência com o impeachment de Dilma Rousseff. Em fevereiro de 2017, foi aprovada como lei no Senado, mas a falta de discussão anterior com especialistas de fora do governo deixou nela a marca de uma imposição.

No entanto, é difícil encontrar educador contrário à ideia central da reforma – a mudança do currículo do ensino médio. Já se tornou até repetitivo falar da triste situação do antigo colegial no Brasil. Atualmente, apenas 62% dos jovens de 15 a 17 anos estão no ensino médio. O restante ou está atrasado ou fora da escola.

Além disso, a maioria dos adolescentes termina sua vida escolar sem ter aprendido praticamente nada. Segundo as últimas avaliações nacionais, 7 em cada grupo de 10 alunos do 3.º ano do ensino médio estão nos níveis considerados insuficientes em Português e em Matemática.

Na divulgação desses resultados, no fim de agosto, o ministro da Educação, Rossieli Soares, um dos formuladores da reforma, esforçou-se para mostrar que ela era a solução para o quadro devastador. Um dos seus objetivos era o de que a sociedade – e o futuro presidente do País – defendessem o projeto apresentado pelo então ministro Mendonça Filho.

A reforma prevê que 60% da carga horária passe a ser ocupada por conteúdos comuns, como Português e Matemática, enquanto os demais 40% sejam optativos. Atualmente são 13 disciplinas no ensino médio, dadas em uma média de quatro horas de aulas diárias. Difícil haver profundidade mesmo com ótimos professores e estudantes dedicados. Os países que se tornaram referência na Educação têm de sete a nove horas de aula, com oito matérias, no máximo.

A parte mais polêmica diz respeito ao que se chamou de itinerários formativos, ou seja, os cinco caminhos que os alunos podem seguir na parte optativa: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Formação Técnica e Profissional. Educadores argumentaram que boa parte das escolas públicas não teria estrutura, professores nem dinheiro para oferecer todos os itinerários, o que causaria desigualdade.

Muitos também discordaram da obrigatoriedade apenas das disciplinas de Português e Matemática. E a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que detalharia as diretrizes para esse novo ensino médio, ainda está em discussão. A aprovação ficou para o próximo governo.

O programa do líder nas pesquisas, Jair Bolsonaro, nem sequer menciona a reforma. O ensino médio só aparece em uma frase vaga que diz que ele deve ser prioridade. Já Haddad afirma claramente que quer “revogar a reforma do ensino médio implantada pelo governo golpista”.

O texto reclama ainda da possibilidade aberta pelo projeto de ensino a distância para os jovens. Como alternativa, o plano do PT propõe que a União assuma escolas com problemas e dê bolsas para manter os alunos estudando.

Independentemente da proposta, o novo governo precisa apresentar, já no seu primeiro ano, medidas de impacto para tirar os jovens do abismo. Não estamos falando só de Educação. Falamos do futuro do País, que será habitado e governado por gerações que terminam todos os anos a escola sem conseguir entender o tema principal desse texto. 

* É REPÓRTER ESPECIAL DO ‘ESTADO’ E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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