Sem professores?

?Bom professor, melhor o aluno?, diz o adágio popular. Os cursos de formação de professores para o ensino público de base estão em pleno esvaziamento. A maioria dos professores da rede pública está em perspectiva de aposentaria próxima. É da maior urgência que o governo formule diretrizes firmes e crie condições que estimulem a formação de novos professores e bem preparados.Faltam cerca de 250 mil professores, com formação superior, no ensino fundamental de 5.ª a 8.ª séries e no ensino médio (2003). As áreas mais carentes são as das disciplinas de Matemática, Física, Química e Biologia. O Brasil precisa de 55 mil professores de Química e outros tantos de Física.Nos últimos anos, só se formaram 7.266 de Física e 13.559 de Química. Em São Paulo, em 2001, segundo a Secretaria de Educação, 18,4% dos professores de Física e 19,9% dos de Química não tinham formação mínima necessária para lecionar essas matérias; faziam-no em caráter ?excepcional?, porque não há como preencher os quadros das escolas.A situação não é diferente nas disciplinas de Matemática, Biologia e Geografia. O ensino de base está diplomando analfabetos em ciências.A situação não é mais brilhante do lado das ciências humanas e das línguas. Professor de inglês com fluência nessa língua é coisa rara. Professores de História, de Português, de Filosofia, do ensino fundamental e do ensino médio, bem treinados em bons cursos de bacharelados e de licenciatura, são aves raras no ensino público.Os melhores diplomados, das melhores universidades, não trabalham na rede pública. O ensino de base está diplomando analfabetos em humanidades, pouco afeitos à leitura e com redação lastimável.E mais, o País corre o risco de ficar sem professores na rede pública na próxima década, em todas as áreas. É o que diz a pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), ouvindo 4.656 professores de dez Estados (início de 2003). A sondagem aponta que, dos cerca de 2,5 milhões de educadores, cerca de 60% estão mais perto da aposentadoria. Na faixa de 40 anos ou mais estão 55,1% dos docentes.Entre as causas apontadas pelo pouco interesse dos jovens pela profissão estão os baixos salários (média de R$ 500 a R$ 700, por 20 horas semanais), a violência nas escolas e a superlotação em salas de aula. No entanto, pouco se pesquisa sobre a formação do professor, e menos ainda sobre as reais condições nas salas de aula das escolas públicas, sobretudo das periferias das grandes metrópoles.O processo de acelerada urbanização do País é fato das últimas décadas do século 20 (até 1960 mais da metade da população brasileira era rural). O adensamento humano nas periferias das regiões metropolitanas, feito de forma atabalhoada, não controlada, provocou uma demanda muito elevada por serviços em um muito curto espaço de tempo, dentre os quais a educação.O MEC procurou ajudar na questão, facilitando a criação de faculdades e de centros universitários particulares (mesmo sabendo da condição precária da maioria deles), preparadores de professores para a rede pública. Consciente da ineficiência dos cursos de Pedagogia, de sua tradicional resistência a inovações, da sua dissociação entre a teoria que ensina e a realidade nacional nova, o MEC (pela Reforma de 96, Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação Nacional, elaborada sob a direção de Darci Ribeiro) criou o Instituto de Ensino Superior.Essas medidas não foram suficientes para atrair o jovem recém-formado para uma profissão altamente desvalorizada. São raras as pesquisas de campo elaboradas com dados concretos das Faculdades preparadoras de professores especialistas para as 5.ª e 8.ª séries e para o ensino médio, ou de professores das primeiras séries e da pré-escola. Menos freqüentes ainda são as pesquisas realizadas dentro das escolas.O Brasil forma muito mal seus professores, incluindo os da pré-escola, do ensino fundamental e do ensino médio. As instituições que estão formando professores são muito variadas e quase nenhuma delas identificada com o objetivo próprio de formar professores para o ensino de base. Estas instituições são de nível médio e de nível superior: escolas normais, HEM, HEM-P, Cefam, Instituto de Ensino Superior, faculdades de Pedagogia, faculdades de Filosofia e institutos de Matemática, Física, Química, Biologia com licenciatura, escola normal superior.Os docentes para o ensino de base, pela LDB de 96, deveriam ter curso superior. Pelas suas disposições transitórias deu-se um prazo (2006) para que todos ? professores leigos e professores de nível médio ? obtivessem o grau superior. O Conselho Nacional de Educação, em resolução recente, desobrigou o professor de ter grau superior.O Brasil vem sendo campeão das piores colocações em testes, nacionais e internacionais, de avaliação do aprendizado do ensino de base. As conjecturas sobre as causas do mau desempenho das crianças e jovens são muitas; as pesquisas são poucas. Embora haja multiplicação de teses de doutoramento, com estudos pontuais concretos sobre a realidade educacional, projetos coletivos de pesquisa de campo não são tantos.Centrar pesquisas na observação sistemática da gestão, organização, grade curricular, disciplina e formação dos professores da escola de áreas carentes dos arredores das metrópoles é urgente e ajudaria na condução de políticas públicas eficazes.* Pesquisadora do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, professora da FFLCH-USP e autora, entre outras obras, do livro Evolução Histórica da Escola na Cidade de São Paulo (no prelo)

Agencia Estado,

18 de fevereiro de 2004 | 16h14

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