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Sem estresse após troca de escola

Pais devem ser sinceros com crianças e ouvi-las para as deixarem mais confortáveis

Entrevista com

Jéssica Fogaça, psicóloga infantil

Luiza Pollo, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 07h00

Decidir mudar as crianças de escola é um processo desgastante por si só. Mas o estresse normalmente não acaba com a escolha. Depois da decisão por um novo colégio, os pais ainda precisam lidar com a ansiedade dos filhos em relação ao desconhecido. Nesse momento, segundo a psicóloga infantil Jéssica Fogaça, é preciso ser bem sincero com a criança, deixar claro os motivos e os benefícios da mudança, ouvi-la e entender o que pode ser feito para deixá-la o mais confortável possível com a novidade.

Como os pais devem agir quando percebem que os filhos estão ansiosos com a mudança de escola?

As crianças sempre vão ficar ansiosas porque elas não conhecem o novo ambiente, não sabem se vão fazer amigos, se as pessoas vão gostar delas ou não. Elas sempre vão tentar insistir no “não”, a não ser, é claro, quando a mudança de escola ocorre por um problema de relacionamento no colégio anterior. Oriento os pais a perguntar para o filho quais são seus medos, o que ele acha que vai dar errado. Se mudar de escola não foi uma opção da criança, quando são os pais que querem um lugar melhor, precisam primeiro ouvir quais são os medos e direcionar as explicações. Mostrar o que a criança vai ganhar, por exemplo: “a escola é melhor”, “você pode fazer novos amigos”, “os professores são legais”. Outra coisa boa é mostrar fotografias dessa escola para a criança.

É importante levar a criança para visitar a nova escola e apresentar os futuros professores?

É bom agendar uma visita, para acabar com o mistério. Quando ela vai até lá e vê como é, se a escola é grande, pequena, se tem espaço para brincar, começa a perceber a realidade e a ter uma ideia melhor sobre o lugar para onde ela vai. É sempre importante ouvir o que ela está sinalizando. Se pede para ver os professores, manifesta alguma curiosidade, pode ser interessante. Mas não precisa oferecer. Para as menores de 5 anos, normalmente é legal mostrar alguns funcionários da escola com quem ela vai conviver.

Como agir quando a criança fica com medo de perder o contato com os amigos da escola antiga?

Uma coisa boa de se fazer é combinar com a criança e com os pais dos amiguinhos da escola antiga de ir em casa ou num parque, por exemplo. Se os pais já sinalizarem que existe essa possibilidade de continuar a encontrar os amigos em outro lugar, que não seja mais na escola, tende a acalmar a criança. Mas não podem prometer algo que não podem cumprir. É mais fácil dizer “olha, a gente pode convidar os coleguinhas para irem na nossa casa” ou então levar a criança na saída da escola antiga numa sexta-feira, com tempo, por exemplo. Explicar que não precisa perder esse contato, mas que não vai mais encontrar aqueles amigos todos os dias.

Em que idade é mais comum a resistência à mudança de escola?

Normalmente as que ficam mais ansiosas são as mais velhas, entre 8 e 10 anos. São as que entendem melhor que vão perder o contato diário com os amigos, que não conhecem quem são as pessoas do novo colégio e se perguntam se os outros vão gostar delas. São as que têm mais consciência do que é a rotina do ambiente escolar. Os pais precisam conversar com os filhos e lembrar que eles têm capacidade de fazer novos amigos, até porque as amizades atuais foram eles mesmos que fizeram. Também podem dar dicas de como a criança pode conversar com novos colegas. Por exemplo, perguntar para alguém que esteja sentado por perto do que ela gosta, como funciona a escola, para ela não ficar travada sem saber o que falar. Outra coisa importante é explicar que no começo é normal que ela fique meio tímida, “autorizar” o sentimento da criança em relação a isso, abrir a conversa e explicar que tentar é importante. Assim a criança sabe que os pais entendem que aquele é um período de adaptação, mas que não necessariamente ela vai mudar de escola por causa disso. Ela entende que vai sim precisar tentar algumas coisas novas.

Quanto tempo dura esse período de adaptação? Como é possível perceber que a nova escola “não deu certo”?

Com um mês de aula normalmente a gente já vê que a criança está adaptada, já tem amigos. O importante nesse primeiro momento é criar um vínculo com alguém. Ela se sente mais confiante, pois o novo amigo vai poder introduzi-la no novo ambiente escolar. Se os pais perceberem que já passou um mês e a criança está triste, irritada, não fala de nenhum amigo, ainda lancha sozinha, aí tem um problema. Nesses casos, os pais precisam ir à escola, conversar com a coordenação para que os profissionais também ajudem na adaptação.

Como tornar a mudança menos traumática para a criança?

O mais importante é que os pais sejam sinceros e ouçam o que as crianças têm a dizer. Se eles acham que ela precisa mudar de escola porque vai ganhar com isso, precisam deixar claro. Pode ser que a criança fique brava mesmo assim, mas os pais têm de explicar que gostariam que ela tentasse, mostrar que eles estão todos no mesmo barco. Principalmente as crianças mais velhas ficam com a sensação de que estão sendo desrespeitadas quando os pais não conversam sobre a mudança de escola. É preciso sempre focar nos aspectos positivos, falar de um jeito animado, perguntar o que os filhos querem saber e estar disposto a ajudar.

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