Felipe Rau
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Minas tem 1,4 mil escolas na fila por reforma física

Em Virgínia, escola alugou danceteria para usar como sala de aula improvisada

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2017 | 03h00

VIRGÍNIA - O Estado de Minas Gerais tem pelo menos 1,4 mil escolas na fila para conseguir uma reforma de infraestrutura. Problemas básicos, como falta de espaço para os alunos e quadras desativadas  aguardam apoio do governo do Estado, que alega estar sem dinheiro para fazer as melhorias necessárias. Neste domingo o Estado mostrou que a falta de infraestrutura é um dos principais entraves para que seja feita a reforma do ensino médio no País.

“Temos mais de 300 municípios em que só existe uma escola ofertando educação básica. Sem reforma e sem infraestrutura, não conseguiremos implementar esse aumento (de carga horária) de 800 horas para 1000 por ano (conforme prevê a reforma do ensino médio). “Temos mais de 2 mil termos de compromisso assinados com diretores para as reformas, mas a questão financeira do nosso Estado é complicada. Vamos à luta junto ao Ministério da Educação para alcançar recursos para que se viabilize as condições necessárias”, diz a superintendente do ensino médio no Estado, Cecília Resende.

A falta de infraestrutura é o principal motivo que já faz o vice-diretor da Escola Estadual Delfim Moreira, em Virgínia (MG), Júlio Cesar da Cruz, decretar que não conseguirá fazer qualquer mudança no ensino médio do colégio, único na cidade. “Não suportamos nem com o que já existe, com os alunos que já temos. Se não houver uma ampla reforma, pode esquecer”.

Há pelo menos três anos o colégio, que atende 780 alunos em três turnos, precisa alugar duas salas de uma danceteria, na rua da frente, para alocar seus estudantes. Os espaços são completamente improvisados: não há janelas, a iluminação é precária, há até um almoxarifado no mesmo ambiente e a sala ainda dá acesso diretamente para a rua, separada somente por uma porta de vidro transparente, que abriga crianças do 6º ano do ensino fundamental. No intervalo, os alunos precisam atravessar a rua para entrar no colégio. “Várias vezes aconteceu de um carro passar correndo e de ter de frear bem em cima. Pedimos que a Prefeitura fizesse uma lombada pra minimizar isso”, disse o vice-diretor. Também foi instalada uma câmera para monitorar o movimento de entrada e saída dos alunos no local.

Cruz lembra da experiência traumática que teve com o programa que aumentou a carga horária do ensino médio em todo o Estado, encerrado em 2015. “Não sobrava nem tempo para limpar as salas, era aluno chegando, aluno saindo. E todos os alunos que vêm da área rural, que são maioria aqui no colégio, perdiam as aulas”, conta.

Futuro. Apesar dos problemas, alunos do colégio já esperam as mudanças para quando chegarem no ensino médio. A estudante Wellen Helena Silva, de 14 ano, aluna do 9º ano do ensino fundamental, diz que queria mais participação nas aulas. “A gente devia ter mais abertura, conversar mais, falar com os professores e o que estamos achando das matérias. Queremos mais aulas práticas também”, diz.

A jovem, que quer cursar odontologia, disse que já houve um curso de higiene bucal feito por um dentista na unidade, mas a quantidade limitada de vagas impediu que ela participasse. “Seria legal se tivesse isso mais vezes, dando uma base melhor para os alunos do que vão fazer no futuro”.

A estudante Tacieley Dutra, de 15 anos, também do 9º ano, quer ser médica pediatra e pede mais aulas que a ajudem no futuro. “Queria ter algum tipo de curso que me ensinasse o básico para chegar na faculdade mais preparada”, diz.

O professor de matemática Marcelo Alves ressalta que qualquer mudança precisará passar, primeiro, por uma reforma geral no colégio. “Não temos nem laboratório de química e nossa estrutura é pequena. Até as lousas, em algumas salas, são de giz, não a lousa branca”, conta.

Leia a série de reportagens sobre a reforma no ensino médio:

 1: Cidades pequenas, falta de estrutura e recursos desafiam novo ensino médio

2: Ampliar apoio financeiro e técnico às escolas é fundamental, segundo especialistas

3: Em cidades com só 1 escola, sonho de oferecer 5 ‘futuros’ vira pesadelo

4: Em cidade no interior de SP, docentes cobram reforma física

5: Secretários já cogitam ampliar período do ensino noturno e enviar alunos para cidades vizinhas

6: Ministro Mendonça Filho quer 'liberdade' para Estados definirem a reforma que farão

7: Sem dinheiro, Estado de MG tem 1,4 mil escolas na fila por reforma física

8: ANÁLISE: Reforma exige atenção para evitar aumento das desigualdades

 

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