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Sem aulas, desigualdade no ensino aumenta

Pessoas mais pobres têm menos oportunidade de aprendizagem em casa e muitos não tem opção do EAD

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 17h42

Os números são assustadores: mais de 420 milhões de crianças e jovens estão fora da escola no mundo por causa do coronavírus. Não porque estejam infectados, mas porque 39 países já fecharam totalmente suas instituições de ensino básico e superior, como Itália, China, Noruega e Japão. Outras 22 nações paralisaram as aulas em algumas regiões, como Brasil, Estados Unidos, França e Inglaterra. A medida é para proteger a saúde, mas há consequências educacionais que não podem ser ignoradas.

Aqui no Brasil, apenas os Estados que já têm transmissão comunitária tomaram essa decisão por tempo indeterminado, São Paulo e Rio de Janeiro. Quando isso acontece, não é possível mais identificar de onde veio a contaminação, como quando sabíamos que era de alguém que viajou ao exterior, por exemplo. No Distrito Federal, as escolas foram fechadas por cinco dias antes mesmo de haver esse tipo de transmissão.

A medida divide especialistas, principalmente sobre a hora certa de interromper as aulas. Estudos indicam que as crianças desenvolvem a doença de forma mais leve ou até sem sintomas. Pesquisas com grupos amostrais não indicam uma só morte até 9 anos de idade e poucas entre jovens. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já manifestou sua preocupação com as crianças em casa, que passariam a ser cuidadas pelos avós. Elas podem acabar contaminando os idosos, maior grupo de risco da doença.

Ao mesmo tempo, dependendo do crescimento e do perfil dos casos, é preciso evitar a circulação de pessoas, de qualquer idade, para tentar manter o vírus longe de quem pode se tornar um paciente grave. 

A Unesco, braço das Nações Unidas para a educação, tem olhado com atenção para a educação global com o fechamento de escolas. Os maiores prejudicados serão, inevitavelmente, meninos e meninas de famílias mais pobres. Há riscos para a aprendizagem, a sociabilidade e a segurança das crianças. A medida pode ainda aprofundar as desigualdades na educação.

A pobreza já é um dos fatores que mais contribuem para o fracasso no ensino. Em um contexto sem escola, são os mais vulneráveis que têm menos oportunidade de aprendizagem em casa, como livros, atividades de lazer e pais que ajudam a criança a se desenvolver. Muitos também dependem da escola para se alimentar adequadamente.

Como solução, fala-se em educação a distância. Por causa do coronavírus, as maiores universidades do mundo fecharam as portas. Harvard, Columbia, Stanford estão agora com atividades online. Mas isso também é uma realidade distante no Brasil.

Mais de 30% das casas aqui não têm nem sequer acesso à internet, em geral as mais pobres. A Pesquisa TIC Domicílios mostra que 24% de quem ganha até um salário mínimo tem internet via cabo ou fibra ótica, disponível em 60% dos lares com mais de 10 salários. Fora que não existem boas ferramentas ou videoaulas com qualidade comprovada para sustentar a educação a distância no ensino fundamental e médio.

A falta de escola também causa efeitos na economia e na vida das pessoas. Pais tendem a faltar no trabalho porque não têm com quem deixar os filhos, o que reduz a produtividade – e aumenta o estresse. Todo pai e mãe sabe como é complicado manter o filho em casa por muito tempo e ainda com poucas opções de lazer, já que é preciso evitar aglomerações, e até clubes e parques começam a fechar.

O Brasil tem 48 milhões de alunos na educação básica. O que nos resta é torcer para que o clima quente nos ajude e o coronavírus não afunde mais ainda a castigada educação do País. 

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