Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Secretários de Educação de SP, PE e ES defendem retorno das aulas presenciais neste ano

Durante Summit Educação 2020, gestores criticaram falta de valorização da população para a área, preferindo retomada de bares e shoppings

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2020 | 16h55

   

SÃO PAULO - Os secretários de Educação de São Paulo, Pernambuco e Espírito Santo defenderam nesta segunda-feira, 24, que o retorno das aulas presenciais ocorra ainda neste ano, tendo em vista os prejuízos sociais, emocionais e de aprendizado para crianças e adolescentes durante a pandemia do novo coronavírus. Eles criticaram a população que se opõe à abertura das escolas, mas que aprova a retomada de atividades em bares e shoppings, e a falta de uma política nacional que planeje a retomada.

A volta às aulas na rede pública foi tema do Summit Educação Brasil 2020, um evento online e gratuito realizado pelo Estadão, que vai discutir a educação no pós-pandemia ao longo desta semana.

Para o Estado de São Paulo, o secretário de Educação Rossieli Soares afirmou que o calendário de volta às aulas com atividades não-obrigatórias em 8 de setembro e retomada das aulas presenciais em outubro está mantido. Isso será possível para as regiões que estiverem há pelo menos 28 dias na fase 3 (amarela) do plano estadual de flexibilização da quarentena, que tem cinco fases.

Soares ainda afirmou discordar de municípios que já manifestaram que não vão voltar no ano letivo de 2020, como cidades do ABC Paulista. Na capital, segundo ele, as atividades opcionais não vão voltar em setembro, mas o retorno em outubro continua previsto.

"Para a cidade de São Paulo, não é o momento de saúde (para a retomada), mas a gente espera que a cidade evolua e chegue ao verde (nível 4 do plano de reabertura econômica) em setembro, que seria a melhor classificação possível antes da azul (quinta fase), que é já com a vacina. As atividades de reforço não vão retornar, mas o calendário para outubro ainda não está desmarcado. Sou absolutamente contra alguns prefeitos que estão dizendo que não vão voltar neste ano. Se a gente puder voltar por um dia, que volte. A gente não pode abrir mão da escola."

Os secretários de Educação dos Estados de Pernambuco, Fred Amancio, e do Espírito Santo, Vitor de Angelo, - vice-presidentes do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) das regiões Nordeste e Sudeste, respectivamente - fizeram duras críticas à parcela da população que, em pesquisas de opinião, se diz contrária ao retorno das escolas, mas aprova a reabertura de bares, restaurantes e shoppings.

"Mesmo entre aqueles que não usaram máscara e não mudaram a sua rotina, que demonstram não temer a pandemia, existe a percepção de que a escola não deve voltar em dois meses. Isso significa que perdemos a urgência da escola. A escola deve voltar quando as autoridades de saúde nos instruírem a fazer, mas a escola é fundamental e voltar com ela é urgente", afirma Vitor de Angelo.

Após comentar o intenso movimento em praias do Estado, ele criticou o fato de as pessoas estarem mais preocupadas com o lazer do que com a educação. "Quando olhamos o que está ocorrendo, há uma inversão completa. As pessoas precisam que as escolas não reabram para não ter uma segunda onda para que possam fazer o que estão fazendo em segurança, como ir para bares, para o shopping e para as praias, que estão lotadas", critica.

Amancio informou que a data para volta às aulas ainda não está definida no Estado, mas que não deve ultrapassar outubro, tendo em vista os prejuízos para os estudantes.

"A educação é um processo e algumas atividades poderão impactar na vida do aluno. O abandono escolar torna-se um problema permanente, mas também há o abuso, os crimes, as drogas. Nas periferias, a maior parte dos jovens não está mais em casa. Será que não estariam mais protegidos na escola? Nosso protocolo prevê distanciamento, volta voluntária e que a gente tenha uma quantidade pequena de alunos. A gente precisa começar a ponderar os riscos de atrasar mais ainda esta volta e não dá para pensar em não voltar neste ano."

Soares explica que retomar atividades presenciais este ano não significa que as aulas vão seguir os mesmos moldes do período pré-pandemia e que estratégias terão de ser adotadas para evitar a disseminação do vírus nas unidades.

"Não vai dar para voltar com 25 alunos, vai ter de voltar com cinco ou dez naquele dia. Não dá para voltar como era antes. Estamos falando de doação de kits para famílias mais carentes, porque vai ter sabonete na escola e elas vão precisar que tenha em casa também. As escolas de tempo integral não vão funcionar, no primeiro momento, nos dois turnos. Vamos servir merenda seca, que é uma bolacha, uma barra. Estamos falando na volta com um tempo menor, com intervalos diferenciados e isolamento na hora da alimentação."

Embora os Estados estejam elaborando seus protocolos de retomada, Amancio diz faltar uma coordenação nacional com orientações focadas no retorno das atividades escolares.

"Em outros países do mundo, o nível de autonomia dos Estados é maior, mas sabemos que o governo nacional impacta na visão do país. As mudanças constantes do Ministério da Educação não ajudam no processo (houve troca de ministro durante a pandemia). Não cabe ao ministério decidir, porque somos uma federação, mas ele tem de apoiar os processos e entender o que está sendo discutido. Os pais brasileiros são mais preocupados com crianças e jovens do que os de outros países? Claro que não. Mas os outros países fecharam as escolas e já estavam planejando um retorno, mesmo quando não se tinha uma data. Depois de tanto tempo, sem ter uma coordenação nacional, ficou difícil resgatar esse processo."

Olhar para o futuro

Especialistas da área de Educação também participaram do evento e destacaram a importância de não fazer com que os alunos tenham o aprendizado prejudicado, algo que pode ter impacto durante a pandemia e no futuro, mas também sobre a necessidade de cuidar da saúde emocional de todos os envolvidos na vida escolar. Presidente executiva do Todos pela Educação, Priscila Cruz diz que é preciso levar em conta não só as medidas adotadas para o primeiro momento da retomada, mas os próximos passos, inclusive quando uma vacina estiver disponível.

"Precisamos pensar qual o risco que os estudantes correm por não estar na escola, como o estresse tóxico e as violências. Estávamos vindo em uma trajetória que a educação vinha avançando. Esta situação (da paralisação das aulas) vai impor um desafio tão gigantesco que a gente não pode deixar de falar disso. Sem vida, não tem educação, mas ela não pode ser colocada em segundo plano. Qual o primeiro público que deveria tomar vacina? Profissionais da saúde e professores ou vai ser por acesso a plano privado? Por dinheiro?"

Angela Dannemann, superintendente do Itaú Social, destaca que um olhar mais sensível para as diversas necessidades dos alunos e o acolhimento emocional para pais, alunos e professores deve fazer parte do processo. "Temos de pensar nas pessoas. Os pais estão com dificuldades de conduzir a educação e percebem que os professores têm um papel importante para as crianças. Precisamos pensar na saúde mental dos alunos e dos professores."

Exemplo da Nova Zelândia

Reconhecida pelo trabalho no controle à disseminação do novo coronavírus, a Nova Zelândia investiu na empatia e nas estratégias para fornecer o acesso à educação e às ferramentas para aulas remotas. A medidas adotadas pelo país foram detalhadas pela conselheira de Cooperação Internacional e Engajamento do Ministério da Educação da Nova Zelândia, Graciélli Ghizzi-Hall. O primeiro passo adotado pelo país foi aprender com os impactos devastadores da doença nos outros países e se estruturar para tentar responder rapidamente ao avanço da doença.

O país, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, teve 1.683 casos da doença e 22 mortes. Segundo Graciélli, depois de mais de 100 dias sem transmissão comunitária, a Nova Zelândia registrou a segunda onda do novo coronavírus no dia 11 deste mês, mas o alerta foi dado quando os quatro primeiros casos apareceram na cidade de Auckland.

"O impacto da pandemia na educação teve como base forte liderança na situação de crise e a Nova Zelândia trabalhou para eliminar o vírus. Desde o começo, o Ministério da Educação tem trabalhado em colaboração com o Ministério da Saúde. A pasta se concentrou em comunicação clara e as escolas ainda recebem boletim diário por e-mail."

O governo também forneceu equipamentos para conectividade e acesso online para que os alunos pudessem fazer aulas remota, materiais de apoio físicos, suporte para pais e professores.

No final de abril, teve início a retomada das escolas até o 10º ano. Em maio, as aulas voltaram normalmente.

"Demorou um tempo para chegarmos nessa etapa final. Há um nível crescente de discussões sobre como as escolas operam pós-covid-19, como será o currículo do futuro, se será um modelo híbrido de educação online e presencial. O apoio às escolas será contínuo e a estratégia de educação a distância está sendo discutida. A covid voltou a mostrar a desigualdade do nosso sistema de educação e como alunos carentes, indígenas e com necessidades especiais acabam sofrendo mais. Continua sendo o nosso maior foco eliminar essa desigualdade."

Summit Educação Brasil 2020

Quando: de 24 a 31 de agosto

Horário: das 9h às 11h e 13h às 15h (somente no dia 31)

Inscrições: https://summiteducacaoestadao.com.br/

Gratuito

Receba no seu email as principais notícias do dia sobre o coronavírus  

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.