Salário baixo e ´caos´ na sala de aula

Quando se formou no magistério e entrou na faculdade de Pedagogia, Fernanda Avino, 28 anos, já lecionava e continuava sonhando em ser professora pelo resto da vida. Até que os baixos salários e a desvalorização da carreira acabaram por afastá-la das salas de aula. Hoje, é artista plástica e ganha mais do que antes, fazendo mosaicos e bordando bolsas.Durante quatro anos, ela deu aulas em escolas particulares para crianças pequenas. "Era cansativo, mas eu gostava bastante. O problema é que queria crescer na profissão e não via como. Aos poucos, fui deixando de curtir o trabalho."O salário baixo também pesou. "Ganhava muito pouco e era vista por todo mundo apenas como uma ?professorinha?. Por melhor que fosse, ninguém me daria muito valor e decidi que não valia mais a pena."Fernanda deixou as escolas mas não a faculdade. No meio do curso, encontrou outros caminhos dentro da Pedagogia. "Descobri que uma pedagoga também podia trabalhar em empresas, fazendo recrutamento e seleção, e fui atrás de emprego", lembra. "Mas encontrei outro problema. No Brasil, as empresas não estão acostumadas a contratar pedagogos para esse trabalho, apenas psicólogos, e era difícil conseguir uma vaga."Bagunça assustou AnneA falta de educação e de respeito dos jovens era tanta que Anne Egídio, 46 anos, ficou assustada quando começou a dar aulas, em 1991. Ela não imaginava que a bagunça dentro de uma escola pudesse ser tão grande, mas achou que, com o tempo, ganharia experiência e conseguiria mudar o comportamento de seus alunos. Percebeu que, na prática, não era bem assim.Professora de Português do ensino médio de uma escola pública, ela perdeu a vontade de lecionar aos poucos. "Eu ainda estudava Letras e tentei de todas as formas estabelecer uma comunicação melhor com meus alunos. Foi tudo em vão. Eu falava sozinha. Eles não me davam a mínima."Muitas vezes, lembra, ela voltava para casa quase que em estado de choque. "As salas de aula eram um caos, não só a minha, e fui me cansando de tanto esforço", lembra. "A gente não tinha apoio da direção, parece que todo mundo tinha medo dos estudantes, e não segurei a onda."Desgastada, Anne resolveu assumir que não tinha vocação. "Ser professor é mesmo um dom, não é para qualquer um", diz. "E eu não queria ser uma professora mais ou menos porque a formação de uma criança e de um jovem é um trabalho sério demais para ser feito de qualquer jeito."Assim, ela deixou o magistério e hoje se realiza como escrevente do Tribunal de Justiça. "Me encontrei, não nasci mesmo para dar aula." leia também Eles não querem ser professores Maioria está perto da aposentadoria

Agencia Estado,

24 de março de 2004 | 12h37

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