Saída de Dantas facilita reforma do curso da Famed, diz diretor

José Tavares Neto afirma que o ex-coordenador do curso 'sempre se posicionava contra as mudanças'

Thiago Décimo, de O Estado de S. Paulo,

05 de maio de 2008 | 19h49

O diretor da Faculdade de Medicina (Famed) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), José Tavares Neto, acredita que o afastamento do coordenador do colegiado da faculdade, Antonio Natalino Manta Dantas, de 69 anos, vai facilitar a implementação da reforma curricular do curso. "Ele se posicionava contra as mudanças, que estamos tentando implantar desde 2005 e que são necessárias para a melhoria do curso como um todo", afirma Tavares Neto. "A saída dele deve acelerar o processo." Dantas anunciou, no domingo, 4, que renuncia ao cargo de coordenador, cinco dias depois de afirmar que os estudantes baianos tinham "déficit de inteligência" quando comparados com os de outros lugares e que o sistema de cotas exerce "contaminação" entre os universitários. As declarações foram dadas pelo coordenador para justificar o mau rendimento dos alunos da Famed no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), o que levou o curso de Medicina a figurar na lista dos 17 sob supervisão do Ministério da Educação (MEC).  Em nota oficial, Dantas pediu desculpa pelas afirmações - que atribuiu tanto a "um estado emocionalmente comprometido e por uma profunda tristeza, uma irritação incomum e um assomo de destempero" quanto a pressões de jornalistas, que teriam feito perguntas "para criar polêmica." Desde a divulgação da nota, o coordenador não foi mais encontrado.  Na terça-feira, 6, o Conselho do Colegiado da Famed reúne-se para analisar o pedido de afastamento de Dantas. Tavares Neto adianta que a reunião deve confirmar o afastamento do coordenador de seu cargo, mas não do quadro de professores da instituição - o que deve ocorrer apenas em setembro, quando Dantas completa 70 anos. Assembléia  Tavares Neto participou, na manhã desta segunda-feira, 5, de uma assembléia da faculdade, junto com outros professores e alunos da instituição, no auditório da Famed no bairro do Canela, em Salvador. Em pauta, as declarações de Dantas e a baixa nota no Enade.  No encontro, o Diretório Central dos Estudantes da Ufba cobrou da reitoria uma sindicância interna em todas as faculdades da instituição. "Queremos encontrar todos os focos de racismo que existem na universidade", afirma o diretor do DCE, Emanuel Freire. O pedido foi acatado na assembléia e será oficialmente apresentado nesta terça-feira ao reitor Naomar de Almeida Filho. A nota obtida pela Famed no Enade também dominou os debates. "A situação é crítica", resume o diretor do Diretório Acadêmico da Famed, Rafael dos Santos Gonçalves. De acordo com ele, "muitos estudantes" confirmaram ter boicotado o Enade, entregando provas em branco ou não totalmente respondidas, mas o fato não deve ser usado para ocultar outros problemas da instituição. "Temos uma carência muito grande no que se refere à parte prática do curso", afirma. "O Hospital Universitário não tem condições de absorver os alunos." O diretor da instituição concorda - e pleiteia a redução do número de vagas no vestibular da Famed, enquanto os problemas de infra-estrutura não são sanados. Hoje, a faculdade absorve 60 novos alunos por ano. Esta semana, a Câmara de Graduação da Ufba, composta por 15 professores e três alunos, representantes de todas as áreas da universidade, começa uma auditoria acadêmica na Famed, a pedido do reitor. O principal foco da análise é a possível redução de vagas. "A nota do Enade pode ser enganosa, por causa do boicote que os próprios estudantes admitem, mas precisamos fazer nossa lição de casa para conseguirmos a qualidade de ensino que desejamos", diz Tavares Neto.  Em nota divulgada nesta segunda-feira, 5, o reitor da Ufba também culpou o boicote como fator principal para a má avaliação do curso de medicina pelo MEC, mas comprometeu-se em buscar soluções para os problemas da Famed. Preconceito  O presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues, também participou da assembléia, como forma de protesto contra as declarações do coordenador Dantas - entre as afirmações, o professor disse que o Olodum não fazia música, mas "barulho, zoada."  Rodrigues informou que a nota distribuída pelo professor não muda o pedido de processo contra Dantas, feito pelo grupo ao Ministério Público Estadual, por danos morais. "Na nota, ele se retrata com relação ao preconceito racial, mas não se desculpa com o Olodum", afirma. "Esperamos uma punição exemplar a ele, para que sirva de alerta a outros." O pedido de desculpa feito por Dantas tampouco altera o procedimento administrativo instaurado pelo Ministério Público Federal, na última quarta-feira, para apurar se houve conteúdo discriminatório "racial ou de procedência" nas declarações do professor. "Os trabalhos nesse sentido continuam normalmente", garante o procurador Vladimir Aras, da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, à frente do processo.

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