Rafael Arbex / Estadão
Rafael Arbex / Estadão

Sabatistas celebram provas só no domingo

Antes, esses alunos religiosos chegavam para o Enem com os outros candidatos e ficavam isolados até as 19 horas para começar a prova

O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2017 | 03h00

A mudança do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para dois domingos foi praticamente um milagre para os sabatistas. Estudantes que professam religiões que guardam o sábado (como os membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia e algumas alas do judaísmo) sofriam até o ano passado, quando tinham de aguardar até as 19 horas em uma sala para poder iniciar a prova de sábado sem ferir seus preceitos religiosos. Agora, com as provas só aos domingos, terão a mesma rotina que os outros milhares de alunos que farão a prova.

Desde 2009, quando o Enem passou para dois dias, os sabatistas viviam uma maratona no exame: tinham de estar no lugar da prova no mesmo horário de todos os alunos (que neste ano será às 13 horas) e ficavam em uma sala por seis horas. Como sua religião professa que todo o dia de sábado tem de ser totalmente voltado para atividades religiosas, só davam início à prova após as 19 horas. Uma espera muito cansativa ainda antes de começar o exame. Depois, voltavam para casa e, logo no início da tarde de domingo, iniciavam a segunda metade do Enem. Em 2016, foram 76 mil sabatistas nessa situação. 

É o caso de Eduarda França de Carvalho, de 17 anos. Estudante do Colégio Adventista da Liberdade, na região central de São Paulo, ela considera um avanço a mudança não apenas por respeitar seus preceitos religiosos, mas também por evitar um cansaço desnecessário. “Havia desvantagem, com um toque de penalidade. Ou seja, o governo nos deu uma oportunidade de fazer a prova depois, e não podíamos reclamar.” Eduarda vai prestar as provas para Engenharia da Produção. “Isso feria o direito de isonomia, pelo cansaço dos sabatistas, que já iniciavam a prova com essa desvantagem, terminando bem tarde da noite e mal podendo se recuperar para a prova do dia seguinte.”

A novidade no exame foi tão importante para os religiosos que o ministro da Educação, Mendonça Filho, foi homenageado em maio pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. A decisão de passar a prova para dois domingos foi tomada em consulta pública realizada pelo Ministério da Educação (MEC). 

Alívio no futuro. Mesmo entre quem não vai fazer a prova em 2017 a mudança foi comemorada. É o caso de Suiane Santos Silva, de 15 anos, aluna do 1.º ano do ensino médio do Colégio Adventista da Lapa, na zona oeste de São Paulo. “Tinha sala em que você passava horas sem poder ao menos se comunicar com outra pessoa.” 

Estudantes do 1.º ano também do Colégio Adventista da Lapa, Bianca Negreiro Gomes Silva e Henrique Vieira Ramos, ambos de 15 anos, vão além da questão física. “Eu me senti respeitado. Mostra que sabem que estamos inseridos no contexto social”, diz Henrique. “Achei interessante levarem em consideração a nossa religiosidade”, afirma Bianca. 

“Gostei muito dessa mudança do Enem. Era estressante, você já estava nervoso, é uma prova importante, e isso atrapalhava o psicológico”, diz Ricardo Martins da Silva, aluno do último ano do médio no Adventista da Liberdade. Para ele, é importante estar 100%, especialmente na parte psicológica, o que era impossível. “A gente fala que foi a resposta de nossos pedidos para Deus. É algo importante para a gente e graças a Deus deu certo.”

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