Rotina de bolsista do Prouni

Estudante enfrenta rotina de 18 horas para conciliar faculdade e trabalho

Elida Oliveira, Especial para o Estadão.edu

24 Novembro 2009 | 00h42

Israel da Luz Barbosa Gomes, 20 anos, aluno do 5° semestre de Engenharia da Estácio Uniradial, enfrenta uma rotina de 18 horas para conciliar faculdade e trabalho. Ele acorda todo dia às 6 horas e só volta para casa, na Vila São José, também na zona sul, às 23 horas.   Israel mora na Vila São José, região sul de São Paulo. De manhã, toma café com os pais e sai de casa às 6h30. Caminha três quadras e pega o ônibus 5632 - Vila São José / Largo São Francisco às 6h40, em direção ao trabalho, a 25 km dali. O trajeto vai direto do bairro para o centro, onde ele faz estágio no setor de engenharia em um banco.O expediente começa às 9h. Com trânsito, leva em média 2 horas no trajeto. Não costuma ler para passar o tempo, "só quando tem prova". "Tenho medo de deslocar a retina", brinca.   O ponto final do ônibus é bem próximo ao trabalho, apenas três quadras de caminhada. Ali começa uma outra odisseia. A rotina de orçamentos para obras, levantamento de preços, consultas a plantas baixas de projetos de agências novas ou que estão para ser reformadas. Wilson Neves Bezerra, engenheiro responsável por supervisionar Israel, atesta o esforço do estagiário. "Ele me auxilia com os projetos e é muito esforçado, nunca nos deu problema." No setor há outros engenheiros e estagiários, distribuídos em uma sala de 15 m², com diversos computadores.   Fotos: WERTHER SANTANA/AE         Israel Gomes em quatro momentos: no ônibus, em direção ao trabalho; no estágio, analisando plantas para fazer orçamentos; na aula de Engenharia Elétrica da Estácio Uniradial, e ao lado de carrinhos elétricos, uma aplicação prática dos conceitos aprendidos. "Posso não trabalhar com engenharia elétrica, mas estarei feliz de ter feito universidade."     Por ser estagiário, Israel tem somente 15 minutos para almoçar. "Mas eles deixam a gente fazer 30", conta. Nesse tempo, come no refeitório do banco e volta à análise de preços. "Aprendo muito com o que faço aqui, consigo ver a obra como um todo. Mas meu sonho mesmo é trabalhar com dutos, calcular as resistências, ser um engenheiro elétrico."   Por isso ele não se cansa do dia a dia. Com o salário, já comprou um computador para a casa, tem acesso à internet, faz aulas de inglês e nas terças e quintas, natação.   Às 15 horas, sai do trabalho. Quando tem prova ou trabalhos, vai direto para a faculdade. Em dias mais tranquilos, passa em casa. A aula começa só às 19h. O mais importante para ele na faculdade é adquirir conhecimento, depois formar-se e seguir uma carreira. Em último lugar, fazer amigos.   Israel é o caçula da família, o único que faz universidade. Os pais são semianalfabetos. A mãe veio de Ponta Grossa, no Paraná, para São Paulo aos 15 anos, fugindo de um emprego na casa de uma família muito rígida. Na capital paulista, continuou trabalhando de doméstica na casa de outra família, desta vez mais tolerante.   O pai de Israel também é imigrante, veio do sertão de Minas Gerais para trabalhar na fábrica de uma montadora de bicicletas. Trocou de emprego muitas vezes, Joana se casou e se separou, até se encontrarem e construírem uma família. Israel é o primeiro a ir para a faculdade. "Foi por falta de oportunidade que meus irmãos não estudaram. Meus pais incentivavam, mas não tinham como indicar. Quando foi a minha vez, eles já tinham mais experiência e me indicaram algumas coisas. Meus amigos também tiveram um papel importante nisso, e me ajudaram."   Israel desistiu do curso de técnico em Mecatrônica para fazer Engenharia Elétrica na Uniradial. "Sempre quis este curso." Fez a prova do Enem e conseguiu uma bolsa de 100% no ProUni. Para ele, o curso universitário é, antes de tudo, uma realização pessoal. "Posso sair daqui e não trabalhar com engenharia elétrica, mas estarei feliz de ter feito universidade."

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