Roteiro arquitetônico: São Paulo, 456 anos

O Centro Universitário Belas Artes preparou um estudo da cidade de São Paulo por meio da sua arquitetura

Ademir Pereira dos Santos e Turguenev Roberto de Oliveira, Especial para o Estadão.edu

26 Janeiro 2010 | 10h33

O professor de Teoria e História da Arquitetura Ademir Pereira dos Santos  e o coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Belas Artes, Turguenev Roberto de Oliveira, prepararam a pedido do Estadão.edu um roteiro por algumas das obras arquitetônicas mais representativas da história da cidade que em 2010 completa 456 anos. Veja abaixo estudo completo:   "Nosso critério para elaborar este roteiro tem como referência obras representativas dos períodos da história da urbanização da cidade de São Paulo, obras que estejam em bom estado e sejam exemplares e importantes, sendo tombadas/protegidas por lei ou não. Obviamente é uma seleção e como é inerente a listas reduzidas, há omissões e falhas. Procuramos, na medida do possível, fugir do que já foi muito "batido".   Período Colonial (1554-1822)    DIVULGAÇÃO  DIVULGAÇÃO       Os jesuítas subiram a Serra do Mar em busca de um local ideal para catequizar os índios. Encontraram o local onde hoje é o Pátio do Colégio, no centro da cidade  Na Casa do Bandeirante, no Butantã, encontra-se as características arquitetônicas principais da habitação rural dos paulistas dos séculos XVII ao início do XIX   Período de constituição e afirmação da posse do território das adjacências da cidade, que tinha SP como núcleo irradiador. Destaque para a ação dos jesuítas dos bandeirantes. Se num primeiro momento o domínio ateve-se à um raio de cem, duzentos, 300 quilômetros, num segundo momento, as posses conquistadas pelos portugueses radicados em São Paulo se estenderam por toda América do Sul configurando o contorno do território do País. As sucessivas descobertas de ouro e pedras preciosas pelos paulistas em Goiás na região que se tornaria as Minas Gerais inserem-se nesse momento. Constitui-se, acima de tudo, no mais importante fato histórico para o domínio português. Relacionam-se a este fato os grandes desdobramentos políticos, administrativos e econômicos que alteraram profundamente a história do País, sublinhando-se aí o desenvolvimento urbano, arquitetônico e artístico, e a transferência da capital da Colônia para o Rio de Janeiro, cidade portuária.   A Igreja de São Miguel, assim como os núcleos urbanos de Carapicuíba e Santana do Paranaíba são exemplares representativos do Período. As casas bandeiristas são também importantes para se compreender e estudar este período da formação de São Paulo.   Na Casa do Bandeirante situada no Butantã, pode-se encontrar as principais características arquitetônicas da habitação rural dos paulistas dos séculos XVII ao início do XIX. Praticamente uma planta quadrada, com grossas paredes de taipa de pilão e pau-a-pique, cobertura em quatro águas, com o alpendre reentrante, tão característico das casas bandeiristas. Estima-se que essa casa foi construída nas primeiras décadas do século XVII.   Destaque também para os caminhos: o que a ligava ao litoral, a Calçada Lorena, obra restaurada; o caminho do sul, que passando por Sorocaba levava à Curitiba e para o caminho do Norte, que levava ao Rio de Janeiro.   O Mosteiro da Luz é um dos raros exemplares da arquitetura do período barroco em São Paulo. Aqui se combinou a taipa com as estruturas de madeira e a ornamentação foi bem mais contida e modesta. Aspectos que não diminuem a historicidade e o caráter artístico das pinturas, esculturas e ornamentos arquitetônicos. As primeiras datações da capela original, situada na beira da estrada, apontam para o final do século XVI e foi conservada até 1729. A irmã Helena Maria do Sacramento e o frei Antônio Sant’Ana Galvão reativaram a capela e a ampliaram a partir de 1774, transformando-a no Convento de Nossa Senhora da Luz da Divina Providência. Ao lado da antiga capela foi construído o atual edifício do mosteiro, projeto de Frei Galvão, beatificado como santo brasileiro recentemente. Edificada em taipa de pilão, a igreja possui duas fachadas. A antiga voltada para o centro e a mais recente, datada do final do século XVIII, para a Avenida Tiradentes. Destaca-se aí, na fachada, a composição peculiar de uma torre central com uma arcada, esta última, recurso arquitetônico usado pela ordem beneditina e franciscana. Outro aspecto formal importante é a nave com planta octogonal.   O Pátio do Colégio, apesar das intervenções desastrosas e as igrejas, colégios, conventos e mosteiros são as referências da área ocupada pela cidade até boa parte do século XIX, delineada então pelo recorrente triângulo formado pelos largos e igrejas da Sé, São Bento e São Francisco. O primeiro ensaio fotográfico de 1863 do fotógrafo Miltão Augusto de Azevedo (1837-1905) constitui-se numa referência obrigatória para o estudo da arquitetura e da configuração urbana do período.   Período Imperial (1822 - 1889)    ROGERIO ASSIS / AE  PAULO LIBERT / AE     Como obra de natureza privada, uma residência, destaca-se o Solar da Marquesa de Santos (sec. XVIII), célebre amante de D. Pedro I  Igrejas, colégios, conventos e mosteiros do centro de São Paulo e a criação da Faculdade de Direito no Largo de São Francisco (1827), são as principais referências urbanas do período   Embora a Independência do Brasil tenha sido proclamada em São Paulo, às margens do riacho do Ipiranga, a centralização política e o predomínio da importação e da exportação pelo porto do Rio de Janeiro, fizeram com que a capital do Império fosse a principal beneficiária dos investimentos públicos. A capital paulistana devido ao êxodo promovido pela corrida do ouro reduziu-se à condição de pouso e entreposto comercial, para a subida e descida do Porto de Santos, assim como para ligação entre as províncias do Sul e do Norte.   No âmbito da arquitetura ou dos testemunhos urbanísticos do período imperial os principais exemplares estão no Rio de Janeiro, sede da Corte. O Monumento do Ipiranga, embora seja um marco da Independência, é uma obra tardia e de feição eclética, distinta, portanto das linhas do estilo neoclássico, adotado nas obras oficiais do período.   Como obra de natureza privada, uma residência, destaca-se o Solar da Marquesa de Santos (sec. XVIII), célebre amante de D. Pedro I. As igrejas, colégios, conventos e mosteiros da área central de São Paulo, e principalmente a criação da Faculdade de Direito no Largo de São Francisco (1827), são as principais referências urbanas do período.      Período Republicano (1889 - 1984)   Período áureo da Cafeicultura 1867-1930: a arquitetura de ferro e a alvenaria    FILIPE ARAÚJO / AE  DIVULGAÇÃO      A Estação da Luz constitui-se num exemplar muito representativo da arquitetura do ferro e da Era ferroviária, que praticamente confundiu-se com o período áureo da cafeicultura (1867-1930)  O modo de morar à europeia foi um desdobramento da urbanização paulistana. A Casa das Rosas (1935), de Felisberto Ranzini, do Escritório de Ramos de Azevedo, representa os palecetes e mansões construídos na Avenida Paulista (1901)     O período áureo da cafeicultura abrange as duas décadas finais do Império e as três primeiras do século XX, adentrando, portanto ao período republicano. A cafeicultura afirmou-se nesse momento como a base econômica inicialmente do Império e depois da República em ascensão. Foi mais importante ainda, sobre ela desenvolveu-se o que ficou conhecido como Primeira República, período de afirmação política das oligarquias rurais e configuração de sistemas urbanos estruturados pelas ferrovias e hidrovias a vapor.   O avanço da cafeicultura pelo Vale do Paraíba e depois pelo "oeste" paulista, região de Jundiaí e Campinas, combinado à construção da ferrovia que ligou a capital paulista ao porto de Santos, mudaram drasticamente a história do País e da cidade de São Paulo. O acesso ferroviário ao porto de Santos foi o fator responsável pelo deslocamento do centro econômico do Rio de Janeiro para São Paulo. Tornou-se o principal porto do País, o "porto do café" e dos imigrantes, que possibilitaram que São Paulo tivesse um impulso desenvolvimentista jamais visto, motor da industrialização.   A imigração foi acompanhada pela importação de modelos arquitetônicos e novos comportamentos. A casa e o modo de morar sofreram grandes influências. A cidade e os vetores de crescimento foram alterados com a inauguração da SPR, São Paulo Railway, em 1867, e, principalmente depois da inauguração da nova Estação, que foi incorporada ao Parque da Luz. A inauguração da Estrada da Estrada de Ferro Sorocabana (Estação Julio Prestes, 1875) reforçou o estabelecimento de um eixo ferroviário, que balizou a implantação de bairros operários e as fábricas que constituiriam o maior parque industrial do hemisfério sul. Quando a sua estação foi inaugurada em 1938, um novo modo de transporte já se apresentava, o automobilismo, prenunciando profundas alterações para as cidades brasileiras, particularmente para a cidade de São Paulo.   Ao lado das rodovias que encurtavam distâncias as avenidas constituíram-se em elementos paradigmáticos para o desenvolvimento das cidades, e de modo muito especial em São Paulo.    A Estação da Luz constitui-se num exemplar muito representativo da arquitetura do ferro e da Era ferroviária, que praticamente confundiu-se com o período áureo da cafeicultura (1867-1930). Há pelos dois aspectos importantes a serem salientados na estação: primeiro sua implantação, abaixo do nível da rua, permitindo que o momento crucial da chegada ou da partida do trem pudesse ser apreciado de forma panorâmica, aérea e democraticamente pelos transeuntes e frequentadores, nas galerias laterais e passarelas transversais. O segundo aspecto a ser destacado é a monumentalidade da sua estrutura da gare, em ferro fundido, importada, concebida para envolver o espetáculo ferroviário devidamente envelopado e protegido por uma cobertura monumental em arcos treliçados sucessivos, coroados por um lanternin, recurso arquitetônico tipo da arquitetura industrial para exaustão do calor e dos gases gerados pelo funcionamento das máquinas.   Viaduto Santa Ifigênia: Outra obra representativa da técnica do ferro fundido na área central é o Viaduto Santa Efigênia, neste caso, para fins urbanísticos. Obra importada da Bélgica, montada por rebitagem, foi inaugurada em 1913 para ligar os Largos de São Bento e de Santa Ifigênia, melhorando o trânsito de carros, carruagens e bondes. São 225m vencidos com dois tramos laterais de 30m e três arcos centrais de 55m. Destaca-se a transparência e a leveza dos três grandes arcos articulados por rótulas e que repousam sobre pilones de alvenaria de pedra.   Os novos bairros e a moradia urbana burguesa: o Bairro e o Palácio dos Campos Elíseos, a Vila Penteado e a Casa das Rosas O modo de morar à europeia foi um desdobramento da urbanização paulistana proporcionada pela cafeicultura. O bairro dos Campos Elíseos (1879), projeto do engenheiro Hermann Von Puttkamer, foi o primeiro bairro concebido para abrigar a burguesia e os afortunados pela produção, financiamento e comércio do café, na antiga Chácara do Bambu que pertencia aos alemães Frederico Glette e Victor Nothmann. Tornou-se o lugar preferido para a construção das requintadas mansões. Ali as casas, ao contrário do vilarejo de feição colonial, não eram amontoadas, timidamente dividindo paredes. Os casarões e mansões eram situados no centro de um grande lote e cercado de trabalhados jardins inspirados nos modelos europeus, o italiano, o inglês ou francês. O que hoje é conhecido como Palácio dos Campos Elíseos foi a residência Elias Antonio Pacheco e Chaves, um rico fazendeiro. Projetada em 1896 pelo arquiteto alemão Matheus Haüssler foi concluída em 1899. Ostenta colunatas e capitéis que o filiam ao renascimento italiano. A sua cobertura utilizando a mansarda, é um testemunho da influência francesa. O governo estadual comprou a mansão que passou a ser usada como residência dos governadores, sede de governo e atualmente secretaria do Estado.   A Vila Penteado (1902) (atualmente sede da FAUUSP) é outro notável exemplar de moradia dos fazendeiros de café na cidade de São Paulo, localizada no Bairro Higienópolis (1879), loteado por Victor Nothman, associado neste caso à Martinho Buchard. A Vila Penteado foi construída por Antônio Álvares Penteado e é um dos raros exemplos do Art Nouveau em sua vertente austríaca, o estilo Sezession no Brasil. As pinturas internas nas altas paredes do salão central foram restauradas e constituem-se em objeto de grande interesse artístico, ao lado do mobiliário, dos adornos e das escadarias e equipamentos desenhados pelo arquiteto sueco Carlos Ekman. É hoje um edifício tombado, doado pela família para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, na década de 1940.   A Casa das Rosas (1935), projeto de Felisberto Ranzini do Escritório de Ramos de Azevedo, que a construiu para a filha e o genro Ernesto Dias de Castro, representa os palecetes e mansões construídos na Avenida Paulista (1901), empreendimento urbanístico de grande impacto para a expansão urbana de São Paulo. Uma imensa avenida no alto do espigão que divide as bacias hidrográficas do rio Tiete e Pinheiros.   Contraponto historicamente importante deve ser feito pela formação simultânea dos bairros operários: Brás, Mooca, Belenzinho Bela Vista, Barra Funda e Lapa. Do mesmo modo merece atenção a arquitetura industrial e a habitação dos trabalhadores. Destacam-se aí as vilas operárias, que no caso, tem como exemplar representativo preservado, a Vila Maria Zélia (1916), situada no Belenzinho. Foi construída por Jorge Street, médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, industrial do setor têxtil. A vila comportava além da moradia, creche, escola, jardim de infância, ambulatórios médicos, farmácia, mercado, açougue, salão de festa e um teatro que não chegou a ser concluído.   Coroando este período deve-se contemplar o conjunto de obras ecléticas elaboradas pelo Escritório do arquiteto Ramos de Azevedo, entre as quais sobressaem destacam a Pinacoteca do Estado (1911), Teatro Municipal (1911), Mercado Municipal (1928-1933), Palácio da Indústrias (1920), Secretaria da Agricultura e Secretaria da Justiça (1922).    A cidade do concreto armado e do arranha céu 1930 - 1970   Primeiro momento: ecletismo e art déco    HELVIO ROMERO / AE  DIVULGAÇÃO      Edifício Martinelli, com seus 30 andares, tornou-se o primeiro arranha céu da América Latina  Edifício Altino Arantes, na Praça Antônio Prado, marca a verticalização da cidade   A partir da década de 1930 ensaia-se uma nova e definitiva fase para a configuração da paisagem urbana paulistana: a verticalização. Os elevadores e o uso do aço permitiriam construção dos chamados arranha céus. O Edifício Martinelli foi iniciado em 1922 e inaugurado em 1929. Com seus 30 andares tornou-se o primeiro arranha céu da América Latina. Destaca-se também o Edifício Altino Arantes (o antigo Banespa, Praça Antônio Prado) que foi iniciado em 1939 e inaugurado em 1947 pelo governador Ademar de Barros. Dessa fase deve ser citado também outro representante do estilo art déco, o Edifício Saldanha Marinho (Rua Líbero Badaró), projeto de 1929, do arquiteto Elisiário Antônio da Cunha Bahiana, mesmo autor do edifício das Lojas Mappin.   Já o Edifício Ester (1936) na Praça da República, projetado por Vital Brazil (1909 - 1997) e Adhemar Marinho (1909), representa a adoção das idéias racionalistas do Movimento Moderno que orientaram a geração de arquitetos brasileiros ganhou notoriedade internacional, com a construção de Brasília. Destaca-se aí o obra de Oscar Niemeyer, que além das obras do Parque do Ibirapuera, que marcaram a comemoração dos 400 anos de São Paulo em 1954, é o autor do Copan (1952), que facilmente pode ser considerado como o edifício mais emblemático do centro da cidade.

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