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Risco de andar para trás

O MEC tem de olhar para o Brasil. Hoje já há experiências incríveis em vários Estados e cidades, não dá para achar que a solução são escolas militares. Não dá para perder um minuto sequer com embates ideológicos

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2019 | 05h00

Sei que é difícil de notar, que o desânimo é enorme especialmente neste ano, mas é fato que a educação pública no Brasil já foi muito pior. Não, não estou comparando com o século passado, quando pequena quantidade da população tinha acesso à escola e era fácil ter bom ensino. Comparo com o começo da década de 2010, quando o País tinha feito o esforço – louvável – de incluir quase a totalidade das crianças de 6 a 14 anos na escola.

Mas foi também nessa década que começamos a falar que não bastava ter vaga para estudar, era preciso aprender. E ainda que passamos a nos preocupar com a diferença entre ricos e pobres e a imensa desigualdade educacional. Economistas se interessaram nos últimos anos pela educação e estudamos muito as razões do nosso fracasso, propusemos soluções, olhamos para as evidências mundo afora e nos surpreendemos com as experiências brasileiras de sucesso.

E o resultado é que continuamos mal, mas nossas crianças entram em 2020 sabendo mais do que sabiam em 2010. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foi criado em 2008 e, depois disso, só melhora. Sim, ainda temos um grande desafio no ensino médio, que pouco avança, mas os otimistas acreditam que o bom desempenho das crianças menores vai ser carregado com elas até o fim da escola. 

Isso só não aconteceu até agora porque é preciso mudar também a escola que se oferece para adolescentes. O ensino tem de se aproximar deles, que vivem em uma cultura digital, têm acesso a todo tipo de informação, mas ainda precisam ficar parados diante de uma lousa, olhando o professor falar coisas que não lhes interessam. Qualquer avanço feito entre crianças se perde depois nessa sala de aula ultrapassada. A mudança do ensino médio é uma das maiores tarefas para a década que entra.

Mas, voltando à anterior, as avaliações – algo que praticamente inexistia no início deste milênio e hoje está muito fortalecido – mostram claramente a evolução do aprendizado das crianças. O Ideb medido entre alunos de 1.º ao 5.º ano passou de 4,6 em 2009 para 5,8 em 2017, último ano disponível. E esses 5,8 estão acima da meta estabelecida pelo Ministério da Educação para 2019. Destrinchando os índices, vemos que quando começamos a década 28% das crianças de 10 anos aprendiam o adequado em Português e hoje estamos com cerca de 60%.

Esses saltos foram maiores ainda regionalmente. O País começou a se preocupar com resultados tornados públicos. Prefeitos, secretários e governadores foram em busca do que fazer para melhorar e crescer no Ideb. E aí surgiram sucessos como Ceará e Pernambuco, Estados que saíram na década passada de resultados desastrosos na educação para as primeiras colocações nos rankings de aprendizado nacionais atualmente. Em menos de dez anos, os nordestinos viraram referência em educação e agora ensinam o Brasil.

Há criticas às avaliações em massa e a um sistema meritocrático, mas isso ajudou muito o Brasil a acordar para a educação nos últimos anos. Cobrar resultado, indignar-se. E neste 2019, tão desanimador para a área, a população foi às ruas, pela primeira vez em anos, por causa da educação. Quando o governo Bolsonaro cortou verbas das universidades públicas, exaltou a perseguição a professores por suposta doutrinação, a população gritou.

Mas é preciso mais. O Brasil tem de olhar para o Brasil. O MEC tem de olhar para o Brasil. Hoje já há experiências incríveis em vários Estados e cidades, não dá para achar que a solução são escolas militares. Não dá para perder um minuto sequer com embates ideológicos. Infelizmente, corremos hoje um grande risco de arruinar nosso pequeno avanço da década que termina e andar para trás. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE  JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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