FÁBIO MOTTA/ESTADÃO
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Rio 'importa' invasores de escolas de São Paulo

Alunos de Diadema, 1ª ocupação contra fechamento de colégios, trocam experiências com colegas; ação começou há 21 dias

Alfredo Mergulhão, O Estado de S. Paulo

10 Abril 2016 | 03h00

RIO - Alunos da rede estadual do Rio “importaram” de São Paulo, Goiás e até do Chile a experiência de ocupação de escolas. Há 21 dias, eles iniciaram a tomada de colégios e são “assessorados” por estudantes que participaram de invasões consideradas modelo. Os jovens se articulam em grupos de aplicativos de mensagem instantânea e também recebem orientações da Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (Anel), entidade ligada ao PSTU. Até anteontem, 15 unidades, de um total de 1.678, estavam ocupadas em nove cidades.

Cinco meninas da Escola Estadual Diadema, no ABC paulista, primeira a ser ocupada em São Paulo, em novembro do ano passado, estiveram no Rio durante a Semana Santa, em março. Elas ficaram um dia e uma noite na unidade de ensino que inaugurou o movimento fluminense, o Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, na Ilha do Governador, zona norte. A visita foi para compartilhar expertise. Há seis meses, elas se insurgiram contra projeto de fechamento de escolas em São Paulo.

No dia 1.º deste mês, mais dois estudantes paulistas estiveram no Mendes de Moraes. Após contato com eles, alunos do Rio foram inseridos em fóruns de discussão em aplicativos, como o Comando Brasil Luta Unificada e o Canal Secundarista. “A gente discute política estudantil, mas também aprendemos como nos organizar em comissões que cuidam de limpeza, cozinha e comunicação, por exemplo. Também adotamos as assembleias diárias para tomar decisões e estamos criando um comando unificado de ocupação”, diz Michel Policeno, de 17 anos, do Mendes de Moraes.

Por meio de celulares os estudantes fluminenses dialogam com colegas de Goiás, onde um movimento de ocupação impediu o governo estadual de aplicar imediatamente a proposta de repassar a gestão das escolas para organizações sociais (OSs), entidades privadas sem fins lucrativos.

Há dez dias, os alunos do Mendes de Moraes receberam a visita de uma universitária chilena que mora no Rio. Ela participou do movimento secundarista que, em 2011, ocupou 700 escolas para reivindicar passe livre e mais investimentos na educação pública do Chile. Juntos, assistiram  A Revolta dos Pinguins, documentário sobre as ocupações, e fizeram debates. 

O “conhecimento” adquirido pelos alunos do Mendes de Moraes é repassado para as outras unidades do Rio. “Agora quem pensa em ocupar uma escola liga para a gente. Eles dizem o dia e pedem a ida de alguém daqui para explicar como conseguir tomar a escola, a elaborar uma pauta específica e mostrar qual é a luta unificada dos estudantes”, diz Policeno. No caso da Escola Técnica Estadual Helber Vignoli Muniz, em Saquarema, na Região dos Lagos, dois estudantes vieram ao Rio, onde passaram dois dias aprendendo sobre a dinâmica de organização dos alunos do Mendes de Moraes.

Mais apoio. Outro apoio recebido pelos estudantes vem da Anel. A entidade surgiu da oposição à União Nacional dos Estudantes (UNE), considerada governista. O movimento estudantil fluminense considera os governos estadual e federal inimigos. O primeiro encontro com membros da Anel aconteceu em passeata dos professores da rede estadual, em greve desde o dia 1.º do mês passado.

“O apoio da Anel é fundamental, porque para a gente ainda é tudo muito novo. Eles são universitários, já passaram por outras experiências de luta e estão dando auxílio, sem opinar nas nossas decisões”, diz Letícia Araújo, de 16 anos, estudante do 3.º ano do ensino médio no Colégio Estadual Gomes Freire de Andrade, na Penha, zona norte, ocupado desde 28 de março. Ela diz que a Anel deixou clara a militância no PSTU, mas afirma que não há qualquer partidarização no movimento. 

O movimento de ocupação no Rio reivindica mudanças no currículo escolar, ensino voltado para o Enem, passe livre sem quantidade limitada de viagens e fim do Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro (Saerj), realizado anualmente. O movimento também cobra o fim dos cortes de verbas para a educação.

Tumulto. Na noite de sexta-feira, 8, policiais militares tentaram impedir a 15.ª ocupação, no Colégio Estadual Chico Anysio, no Andaraí, zona norte. Houve tumulto. Depois de fracassadas tentativas de negociação, a ocupação foi mantida. Em nota, a secretaria informou que “lamenta a forma como se deu a invasão”, pois funcionários que tentavam negociar teriam sido hostilizados pelos invasores, “que cuspiram nos trabalhadores”.

O secretário de Estado de Educação, Antonio Neto, afirmou que a situação fugiu ao controle do governo. “Não há mais o que fazer. Não sabemos nem sequer com quem negociar. Tenho certeza de que colegas professores e alunos não agem como agiram os invasores, ofendendo e agredindo colegas de trabalho”, disse. 

Para o secretário, não se trata de uma questão de semântica: o movimento estudantil promove invasões. “Uma ocupação pressupõe que seja algo democrático, mas eles restringem os direitos das pessoas, impedem a livre circulação.” O gestor disse, na quinta, que foi barrado no Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho, em Niterói, por pessoas estranhas ao colégio. Contou que, avisado do início da ocupação, correu para a escola na tentativa de dialogar com os estudantes. Não passou da porta.

“Eles são extremamente organizados, mas o protagonismo não é dos alunos. O pano de fundo é o confronto político. É um movimento que vem crescendo sem rosto, pois não tem interlocutor. Eu não obtive resposta depois de ter recebido representantes dos alunos”, disse.

Os estudantes alegam que o secretário atendeu apenas a pautas específicas. “Fomos bem recebidos, mas o secretário disse que não tem como mudar o currículo para direcionar as aulas um pouco mais para o Enem. Isso significa que aluno de escola pública sempre estará atrasado na busca de uma vaga na universidade”, afirmou Alessandra Silva de Almeida, de 17 anos, do Colégio Gomes Freire de Andrade, na Penha.

A secretaria chegou a entrar com pedido de reintegração de posse, ainda sem decisão judicial. Mas Neto garante que não usará a força policial para retirar estudantes de colégios. “Eles querem o enfrentamento, mas não farei isso.” A secretaria quer conversar com parentes dos estudantes contrários à ocupação. 

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