Antonio Cruz|Agência Brasil
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Renda maior pesa mais no desempenho até dos estudantes das redes públicas; desigualdade cresce

Diferença das notas dos alunos em Língua Portuguesa na Prova Brasil é maior em 17 Estados em relação a 2009; em Matemática, há aumento em 10 Estados. Para especialistas, risco é de escola acirrar desigualdades, em vez de reduzi-las

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2016 | 13h23

A desigualdade entre a nota dos alunos de escolas públicas pobres e ricas aumentou na maioria dos Estados do País. Embora o desempenho geral dos estudantes de escola pública esteja melhorando no quadro geral, a diferença de renda está pesando mais no resultado final. O quadro é mais acentuado em Estados do Norte.

A diferença no desempenho desses alunos em Língua Portuguesa é maior em 17 Estados do País em relação a 2009. Isso é o que mostraram os dados da Prova Brasil, a avaliação oficial feita pelo governo federal cujos resultados foram divulgados na quinta-feira. Em Matemática, a desigualdade aumentou em dez Estados. 

A equidade na evolução dos resultados educacionais é vista por especialistas como um dos fatores mais importantes para avaliar a qualidade das redes educacionais. O risco é que a escola, em vez de servir como meio de equilibrar desigualdades já existentes na sociedade, possa acirrá-las. No ranking dos dez Estados mais desiguais em Língua Portuguesa em 2015, sete estão no Norte.

Especialistas apontam que diversos motivos podem explicar essa diferença no desempenho. Entre eles estão problemas de falta de infraestrutura das escolas nas regiões mais periféricas, carência de aulas de reforço e de professor assistente para os alunos com mais dificuldade, falta de estrutura familiar e até desestímulo à permanência dos melhores professores.

Os dados constam de um estudo elaborado pelo Instituto Ayrton Senna (IAS), a pedido do Estado. Para calcular o desempenho dos estudantes, foram utilizadas as notas dos anos iniciais do ensino fundamental (1.º a 5.º) de 2015, com dados de nível socioeconômico de 2013, pois os mais atuais ainda não foram divulgados pelo Ministério da Educação. O Estado do Amazonas aparece no topo do ranking da desigualdade em ambas as disciplinas. Em Matemática, a diferença de pontos é de 37,7, enquanto em Língua Portuguesa chega a 48,6. 

Essa diferença pode representar mudanças significativas no conhecimento dos estudantes nessas disciplinas. Na escala de proficiência de Língua Portuguesa, a média dos alunos mais pobres indica que eles não conseguem, por exemplo, localizar informações explícitas em reportagens, propagandas ou reconhecer a relação de causa e consequência em poemas, contos e tirinhas. Já na parcela mais rica, os alunos já conseguem identificar assuntos comuns a duas reportagens e o efeito de humor em piadas, por exemplo. Em Matemática, a média dos alunos mais ricos já demonstra que eles são capazes, por exemplo, de converter uma hora em minutos e interpretar horas em relógios de ponteiros, diferentemente dos estudantes de instituições mais pobres. 

O diretor de articulação e inovação do IAS, Mozart Neves Ramos, ressalta que essa diferença na oferta de ensino pode piorar a desigualdade já existente na sociedade. “Em vez de ajudar a compensar as possíveis diferenças de oportunidades que o nível socioeconômico acaba impondo aos estudantes, o sistema educacional acaba reforçando ainda mais essas distorções”, diz.

Para o economista e professor do Insper Sérgio Firpo, é importante que os gestores não se preocupem apenas com a média geral do Ideb, mas com as diferenças entre as escolas. “É possível aumentar a média sem fazer com que todo mundo melhore por igual e isso parece ser a principal lição que esses dados mostram”, diz.  Para ele, é importante que os gestores identifiquem os exemplos de escolas bem sucedidas em suas redes, para localizar boas práticas, identifique se há diferença nos recursos destas unidades e também veja se os gestores estão reagindo às metas do Ideb. 


 

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Pobreza não 'sela destino' de desempenho ruim, diz estudo

Levantamento do Cenpec feito a pedido da reportagem mostra, com microdados do Ideb, os fatores que levam uma escola a melhorar ou piorar o desempenho de seus alunos

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2016 | 07h53

SÃO PAULO - O nível socioeconômico é um dos fatores que mais impactam o desempenho da escola, mas não “sela” o destino dessas unidades. Características como oferta de reforço escolar, maior presença e menor rotatividade dos professores, menor número de falta dos alunos e até o acesso prévio à pré-escola ou creche pode fazer com que os alunos atinjam resultados mais satisfatórios, ainda que em condições de pobreza.

É o que aponta um levantamento realizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), a pedido da reportagem do Estado. Para realizar o estudo, o Cenpec utilizou os microdados do Ideb de 2009 a  2013 (os de 2015 ainda não foram divulgados), mostrando as características das escolas que apresentaram melhora ou piora na nota neste período.

Um aumento na proporção de alunos de classe D e E, de fato, pode impactar a nota da escola:  a cada 1% a mais de alunos nestas faixas, em relação aos de classe A e B, a estimativa é que haja uma redução de melhorar a nota em 4%. Se os alunos repetiram alguma série, também há mais chance de nota mais baixa: 3,3%. 

Mas um dos fatores que mais impactam a melhor dos estudantes está relacionado à escola: se a unidade oferecer reforço escolar, a chance de elevar a nota é de 48,4%. Por outro lado, se os professores da escola faltam, a chance de melhorar a nota cai 19,1%.

O estudo também levantou os fatores que fazem as escolas públicas com melhor desempenho piorarem. Se os alunos da escola faltam muito, por exemplo, a chance de a nota piorar aumenta 46,8%. O histórico dos estudantes também conta: ter feito pré-escola ou creche faz com que a chance de a nota da escola diminuir caia em 1,3%.

Veja as principais relações identificadas no estudo do Cenpec nas tabelas abaixo. 

 

Anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano)

Variáveis estatisticamente significativas para a mudança ou não da escola da faixa dos Idebs mais baixos, impacto na chance de mudança de faixa e intervalos de confiança

 

Estimativa

Limite inferior

Limite superior

Aumento de 1 p.p. na proporção de estudantes Classe C (em relação aos de A e B)

-1,8%

-2,6%

-1,0%

Aumento de 1 p.p. na proporção de estudantes Classe D (em relação aos de A e B)

-4,0%

-4,6%

-3,3%

Aumento de 1 p.p. na proporção de estudantes Classe E (em relação aos de A e B)

-3,8%

-4,6%

-2,9%

Aumento de 1 p.p. na proporção de estudantes que repetiram anos

-3,3%

-3,7%

-2,8%

Aumento de 1 p.p. na proporção de estudantes que trabalham

-6,2%

-6,9%

-5,6%

Escola pertencer à rede municipal

66,2%

35,9%

103,8%

Escola oferecer reforço escolar

48,4%

24,8%

77,1%

Professores da escola faltam (na opinião do diretor)

-19,1%

-28,7%

-8,4%

Anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano)

 Variáveis estatisticamente significativas para a mudança ou não da escola da faixa dos Idebs mais baixos, impacto na chance de mudança de faixa e intervalos de confiança

 

Estimativa

Limite inferior

Limite superior

Aumento de 1 p.p. na proporção de estudantes das Classes A e B

1,4%

0,8%

2,0%

Aumento de 1 p.p. na proporção de estudantes das Classe C e D

-0,6%

-1,1%

-0,1%

Aumento de 1 p.p. na proporção de estudantes que fizeram pré-escola ou creche

-0,8%

-1,4%

-0,3%

Escola oferecer reforço escolar

42,4%

20,5%

68,7%

Ocorrência de alguma rotatividade dos professores (na opinião do diretor)

24,8%

9,8%

41,8%

Alunos da escola faltam (na opinião do diretor)

-24,3%

-34,1%

-13,1%

Professores da escola faltam (na opinião do diretor)

-20,3%

-30,6%

-8,6%

 

Fonte: Cenpec

 

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No Ceará, estado menos desigual, diferença é quase nula

Em língua portuguesa, a diferença é de apenas 2 pontos; em matemática, 4,4 pontos

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2016 | 08h05

SÃO PAULO - O Estado do Ceará é o que melhor consegue equalizar as notas de sua rede em qualquer nível socioeconômico (NSE) no País.  Em 2015, a diferença de nota em língua portuguesa entre escolas de NSE mais baixo e mais alto foi de apenas 2 pontos. Em matemática, o número é praticamente igual: há uma diferença de 4,4 pontos. O Estado conseguiu diminuir consideravelmente a distância entre suas notas desde 2009, quando as diferenças eram, respectivamente, de 19 e 17,2 pontos, ficando atrás do Espírito Santo, Goiás, Pernambuco, Sergipe e Bahia. 

O secretário de educação do Estado, Idilvan Alencar, lembra que existe uma parceria entre as escolas que faz com que elas compartilhem boas ações pedagógicas. "As 150 que tiverem o melhor desempenho apoiam as 150 com pior, desenvolvendo um plano de trabalho pedagógico. Isso gera uma troca de expertise", explica. Ele lembra também que o Estado faz avaliações próprias de desempenho e que há uma preocupação com os resultados individuais das avaliações, não só com a média das escolas. "Não interessa a média da turma. Queremos saber quantos alunos atingiram essa média. Isso fortalece os resultados, pois sabemos onde é necessário melhorar", diz. 

Para fortalecer as escolas municipais, o Estado adota, desde 2009, uma lei de rateio do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) que leva em conta os resultados obtidos na educação - os melhores resultados recebem maior repasse. "Todo prefeito tem de saber a sua nota. Isso gera um maior envolvimento de todos os atores com a educação de seu município", diz o secretário.

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Mesmo em área pobre, escola é destaque em SP

A Escola Estadual Força Aérea, no Parque Santa Rita, extremo leste da capital, viu seu Ideb saltar para os anos iniciais do ensino fundamental em cada edição da avaliação – em 2007, tinha uma nota 4 e, no ano passado, registrou 6,6

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2016 | 06h00

A Escola Estadual Força Aérea, no Parque Santa Rita, extremo leste da capital, é um exemplo de que a renda da família dos alunos não determina um destino de notas baixas para o colégio. A unidade viu seu Ideb saltar para os anos iniciais do ensino fundamental (do 1.º ao 5.º ano) em cada edição da avaliação – em 2007, tinha uma nota 4 e, no ano passado, registrou 6,6, média maior do que a esperada para o colégio em 2021.

Das janelas do pátio da instituição, que atende cerca de 900 alunos (entre crianças e estudantes da Educação para Jovens e Adultos), é possível ver, ao fundo, uma grande favela, a Água Vermelha. É de lá que vem grande parte dos estudantes do colégio. A entrada é bem cuidada e não há pichações, como em outras unidades do entorno. 

O segredo, diz a diretora Erika Evangelista Ferreira da Silva, é que o colégio está “enraizado” na comunidade. Ela está no local desde 2003. “Nossos alunos do período noturno (os mais velhos, da Educação de Jovens e Adultos) são os pais das crianças que estudam pela manhã. Ninguém quer ver a escola suja ou depredada, pois são os filhos, parentes e amigos da comunidade que estudam aqui”, explica a diretora.

Parte dos alunos chega à escola sem nem ter o que calçar. Para ajudá-los, o colégio arrecada roupas e calçados de vizinhos e deixa em uma caixa para que se possa “abastecer” as crianças que precisarem. Refeições também são importantes: o colégio oferece lanches e almoço ao menos uma vez por dia. A unidade não atua sozinha: conta com apoio de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) da região, que oferece assistência odontológica e até apoio psicológico aos estudantes. 

Na sala de aula, o acompanhamento também é próximo: a professora Paloma Morita, que chegou ao colégio em 2013, conta que são feitas, com frequência, rodas de conversas com os estudantes. “Há um atendimento individualizado.”

Treinamento. Semanalmente, os professores se reúnem para discutir o desempenho dos estudantes na Aula de Trabalho Pedagógico Coletivo. Nesse espaço, eles estudam os resultados da escola no Saresp (avaliação estadual de desempenho semelhante à Prova Brasil) e tentam identificar as defasagens de cada sala de aula.

“Estudamos caso a caso, para entender as dificuldades dos alunos. Também tentamos identificar as práticas de sucesso para replicar”, afirma a diretora. Até o ano passado, os alunos também contavam com aulas de reforço e professores auxiliares em sala, mas a crise fez o benefício ser cortado. “Este ano está mais difícil”, pondera a diretora. 

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No Amazonas, estrutura de escolas difere e expõe ‘abismo’

Enquanto colégios organizados e com apoio da comunidade estão ‘em 2021’, os de áreas violentas e com prédios alugados nem chegam à meta

José Maria Tomazela e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2016 | 06h00

Em Manaus (AM), a diferença de desempenho dos estudantes pode ser explicada não só pelo nível socioeconômico, mas também pelo cenário regional e até pela infraestrutura dos colégios.

Com apenas cinco salas de aulas e 155 alunos, a Escola Estadual de Tempo Integral Santa Terezinha, no bairro Adrianópolis, zona centro-sul de Manaus, é uma das com melhor desempenho em todo o Estado. Em 2015, foi a 11.ª melhor colocada no Índice do Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), empatada com dois outros colégios, com a nota 6,7. A média já é maior do que a esperada para 2021. É também uma das escolas com os alunos de maior índice socioeconômico do Estado.

A pedagoga Waldenize Carvalho Moreira Maia, diretora da instituição desde 2012, atribui o bom desempenho à dedicação dos oito professores, que recebem, em média, R$ 3,3 mil brutos por mês por uma jornada de 40 horas. A escola funciona das 7 às 16 horas, mas todo dia tem uma hora de reforço – das 16 às 17 horas – para os alunos que precisam melhorar as notas. 

Waldenize, que tem especialização em gestão escolar pela Universidade do Estado do Amazonas e em coordenação pedagógica pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), considera importante a formação do professor. “Incentivamos os treinamentos específicos para cada disciplina e estamos em todos os quadros de formação oferecidos pelo MEC. Alguns professores estão conosco há bastante tempo.”

De aluguel. Localizada a mais de dez quilômetros do centro da capital, a Escola Municipal Professor Sebastião Augusto Loureiro Filho, que teve baixa avaliação na Prova Brasil de 2013, funciona em um prédio alugado, em um bairro da zona norte que já figurou como um dos mais carentes e violentos da cidade. 

O prédio é antigo: não há laboratório de informática nem sala de leitura. O pátio é descoberto e não tem quadra de esportes, apenas um parque infantil. Em junho do ano passado, a escola chegou a fechar por falta de pagamento do aluguel. Sem receber havia nove meses, o dono do imóvel foi ao local e cerrou o portão com cadeado. Alunos e professores que chegaram para as aulas ficaram do lado de fora. A prefeitura alegou que houve atraso na licitação, mas o problema foi resolvido. 

O colégio melhorou no Ideb do ano passado em relação a 2013 – subiu de 4 para 4,5, mas ainda ficou abaixo da meta esperada (4,9). Os 260 alunos contam com seis salas de aulas, sala de professores, secretaria, depósito e refeitório, onde é servida a merenda escolar.

A escola fica no Jardim São Luiz, uma das comunidades do bairro Colônia Terra Nova 2. A região se formou após invasões de terras, no fim da década de 1980. Os primeiros moradores chegaram do Nordeste em busca de emprego na Zona Franca de Manaus. A região tem cerca de 50 mil habitantes e a população reclama da infraestrutura precária, como falta de asfalto, ruas sem coleta de esgotos e déficit de moradias.

A prefeitura informou que a região tem apresentado nos últimos anos crescimento tanto no número de habitantes quanto no desenvolvimento, com a construção de condomínios, shoppings e supermercados. “Na esfera pública, o local tem saneamento básico, transporte e hospitais públicos”, informou em nota.

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Análise: As escolas 'pobres' conseguem melhorar seu Ideb?

'Para medir, de fato, o esforço de uma escola e o quanto ela agrega ao aprendizado do aluno, é preciso descontar o nível socioeconômico, coisa que o Ideb não faz'

Antônio Augusto Gomes Batista, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2016 | 06h00

Claro que podem, pois toda criança e jovem pode aprender, independentemente de sua origem social. Mas há condições para isso. Uma delas está nas características do próprio Ideb. Desde meados dos anos 1960, a pesquisa sociológica mostra que, do mesmo modo que na parábola dos talentos, relatada por Mateus, saem melhor na escola aqueles que mais têm: quanto maior o nível socioeconômico, maior a probabilidade de a escola alcançar melhores resultados. Daí uma regra na medida de resultados educacionais: para medir, de fato, o esforço de uma escola e o quanto ela agrega ao aprendizado do aluno, é preciso "descontar" o nível socioeconômico, coisa que o Ideb não faz. 

Não é à toa, por isso, que muitos especialistas consideram que o Ideb não mede as escolas que mais fazem os alunos aprenderem, mas as que têm estudantes com melhor nível socioeconômico. Muitas escolas "pobres" melhorariam seu Ideb, se ele levasse em conta o perfil social dos alunos. Do mesmo modo, muitas escolas que hoje possuem um bom Ideb cairiam no "ranking", pois pouco agregam em aprendizado: seus bons resultados são fruto do alto rendimento do background familiar dos alunos da escola, cuja lógica os favorece.

Outro conjunto de condições reside justamente nesse esforço da escola, em seu efeito próprio, denominado, pela literatura educacional, "efeito-escola". O Ideb precisaria medi-lo, subtraindo o peso da origem social dos alunos. Os estudos sobre esse efeito mostram que ele resulta de uma conjunção de fatores que vão, no caso brasileiro, de uma gestão orientada para o aprendizado, passando pelo clima escolar e chegando a uma formação de professores com qualidade, dentre outros. Mostram ainda que esse efeito se potencializa quando todas as escolas de uma rede melhoram em conjunto e que isso só ocorre quando há uma forte política educacional que mobiliza a comunidade escolar, promove mudanças e dá condições para que elas ocorram. Os exemplos do Ceará e de muitos municípios estão aí para quem, livre de preconceitos, quiser aprender a lição e implementá-los, à luz de seu contexto específico.

Antônio Augusto Gomes Batista é coordenador de pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec); foi professor da UFMG

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Análise: Qualidade com equidade

Em vez de ajudar a compensar as possíveis diferenças de oportunidades que o nível socioeconômico acaba impondo aos estudantes, o sistema educacional acaba reforçando ainda mais essas distorções

Análise por Mozart Neves Ramos*, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2016 | 08h15

SÃO PAULO - Quando falamos em qualidade da educação no Brasil, os dados nos mostram que temos avançado muito pouco em termos de aprendizagem. Apenas nos anos iniciais do Ensino Fundamental é que o País vem conseguindo resultados um pouco mais animadores, sendo esta a única etapa em que ainda estamos superando as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Mas, infelizmente, esses resultados ainda estão longe de ser comemorados, já que esse avanço não tem ocorrido de forma igualitária, assegurando a mesma oportunidade de aprendizagem para todas as crianças brasileiras, independentemente do nível socioeconômico de suas famílias.

Chama a atenção saber que a desigualdade de aprendizagem entre crianças mais ricas e mais pobres vem se agravando nos últimos anos na rede pública de ensino – uma realidade que não se restringe apenas ao estado de São Paulo, mas atinge praticamente todo o Brasil, de acordo com dados levantados pelo Instituto Ayrton Senna. Portanto, em vez de ajudar a compensar as possíveis diferenças de oportunidades que o nível socioeconômico acaba impondo aos estudantes, o sistema educacional acaba reforçando ainda mais essas distorções.

Para reduzir essa distância inaceitável, é fundamental que o Brasil considere essa questão na agenda da educação. Afinal, atingir as metas do Plano Nacional de Educação é necessário, mas não suficiente para alcançarmos uma educação de qualidade com equidade. Fortalecer o regime de colaboração entre municípios e estados, com atenta coordenação da União; facilitar a troca de boas experiências educacionais e otimizar recursos públicos com foco em melhores resultados para todos poderiam ser algumas estratégias imediatas para alcançarmos esse objetivo.

*é diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna

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