Reitora da PUC-SP assume cargo e cria email para diálogo

Pela manhã, Anna Cintra tentou entrar no prédio do câmpus Perdizes, mas foi impedida por alunos e professores, que permanecem mobilizados

Carlos Lordelo e Cristiane Nascimento, do Estadão.edu, e Davi Lira, de O Estado de S. Paulo,

30 Novembro 2012 | 17h34

SÃO PAULO - A professora Anna Maria Marques Cintra, de 73 anos, é a nova reitora da PUC-SP. A docente foi nomeada nesta sexta-feira, 30, mesmo sob protestos de toda a comunidade. A nomeação ocorreu sem qualquer cerimônia. Pela manhã, Anna foi impedida por alunos de entrar na sala da reitoria da universidade, no câmpus de Perdizes, zona oeste da capital. Acompanhada de pró-reitores e de seguranças, ela chegou ao local por volta das 10 horas e foi barrada por um cordão humano formado pelo grupo: "golpistas não passarão. Fora Anna Cintra", gritaram em coro.

Depois do atrito, Anna voltou para o carro e se dirigiu à Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP, cuja sede está localizada a um quarteirão da instituição. No caminho, quando questionada pelo repórter da rádio Estadão ESPN, Anna referiu-se à manifestação como "uma coisa de estudante,uma coisa normal". Na ocasião, declarou já ter assumido a reitoria e agir dentro da legalidade. Os acessos externos e internos à reitoria foram bloqueados por dezenas de carteiras amontoadas.

A posse da professora foi confirmada contra a vontade de alunos, professores e funcionários e após a decisão do Conselho Universitário (Consun) de suspender a validade da lista tríplice de indicados para a reitoria. Menos votada pela comunidade acadêmica na eleição de agosto, Anna foi escolhida para o cargo pelo grão-chanceler da universidade, o cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer.

Ainda pela manhã, Anna enviou um comunicado à comunidade, assinado também pelo novo vice-reitor, o professor José Eduardo Martinez, afirmando que a candidatura dos dois foi motivada, de um lado, pelos inúmeros problemas vividos pela comunidade nos últimos anos e, por outro, pelo fato de terem consigo um grupo de apoio formado por pessoas competentes, responsáveis e comprometidas.

Posteriormente, a reitora enviou outra nota a alunos e professores,  afirmando lamentar ter sido fisicamente impedida de entrar nas suas dependências. Anna se colocou à disposição de toda a comunidade, enfatizando que "diálogos exigem civilidade e compromisso democrático de acatar regras e procedimentos que garantam a institucionalidade" da PUC. Para viabilizar e acelerar as conversações, criou o email dialogoreitoria@pucsp.br.

Os grevistas permanecem reunidos no câmpus de Perdizes, que está cercado de plásticos pretos como símbolo de luto. Os estudantes acreditavam que Anna poderia voltar à unidade, dessa vez acompanhada pela polícia. De acordo com estudantes e funcionários, pela tarde, a reitora passou pelo câmpus da Consolação, onde fica instalado a Coordenadoria Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão (Cogeae).

Enterro

Por volta das 19 horas, cerca de 400 alunos se reuniram em frente ao câmpus de Perdizes para um ato que pretendia, simbolicamente, enterrar a democracia da PUC e a reitoria de Anna Cintra. "d. Odilo, você declarou guerra à comunidade e a guerra não acaba aqui", gritaram os estudantes ao microfone.

Vestidos de preto e com velas em punho, os alunos fizeram um minuto de silêncio contra a nomeação de Anna Cintra como reitora e, em seguida, saíram em marcha até a sede da Fundação São Paulo. Durante a manifestação, um grupo pequeno de estudantes pichou uma das calçadas da Fundasp com as inscrições "golpistas" e "Fora Anna Cintra".

Depois de depositarem as velas em frente ao prédio da fundação, o grupo caminhou até a Avenida Sumaré em protesto. O trânsito foi atrapalhado momentaneamente e, em seguida os alunos e professores presentes retornaram à PUC para um "abraço" na universidade. De mãos dadas, eles conseguiram contornar todo o quarteirão.

Nota

Na manhã desta sexta, a Fundação São Paulo (Fundasp), entidade que administra a PUC, divulgou uma nota na qual d. Odilo julgava como nula a decisão do Consun e ratificava, mais uma vez, a nomeação da professora Anna Cintra como reitora da PUC-SP.

Ainda de acordo com a nota, d. Odilo destacava que a democracia na PUC-SP não foi "sequer arranhada", pois as normas estatutárias aprovadas pela comunidade acadêmica preveem a decisão que foi tomada. Para o cardeal, a inversão da ordem jurídica interna seria, essa sim, "um golpe contra a autonomia universitária".

Junto à nota, a Fundasp divulgou uma carta do ex-grão-chanceler da PUC-SP, o cardeal Paulo Evaristo Arns, direcionada à comunidade da universidade: "Ao seguir, com espanto, os acontecimentos em nossa tão respeitada PUC-SP, devo concluir para o benefício de todos: A Democracia foi respeitada, pois o Cardeal Dom Odilo Scherer escolheu um dos três professores da lista tríplice."

Na noite desta quinta, os estudantes decidiram em assembleia fazer uma vigília em frente à reitoria, em Perdizes. Alguns se comprometeram a passar a noite na universidade.

Conciliação

Durante a tarde desta quinta, não houve acordo na audiência de conciliação realizada no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) entre a Fundasp e a Apropuc. As partes foram chamadas após a fundação ter cobrado na Justiça a declaração de ilegalidade da greve dos docentes e funcionários - assim como os alunos, eles cruzaram os braços em protesto contra a nomeação de Anna Cintra. O TRT indeferiu dois pedidos de liminar com o mesmo teor.

Segundo Beatriz Abramides, vice-presidente da Apropuc, a desembargadora Vilma Eleutério disse na audiência que, ao contrário do que defendem os advogados da Fundasp, a paralisação é legítima, uma vez que o direito de greve é previsto em lei e não houve interrupção de serviços essenciais. Um juiz-relator foi indicado para a análise do caso e as partes devem se reunir novamente apenas em fevereiro, após o recesso de fim de ano.

Conselho

As regras para a escolha do reitor na PUC-SP preveem eleição em que alunos, funcionários e professores votam. Uma lista tríplice segue para o cardeal, que tem a prerrogativa de selecionar um dos nomes. Tradicionalmente, o primeiro colocado é o escolhido. A nomeação de Anna, em 12 de novembro, abriu uma crise na universidade, com alegações de parte da comunidade acadêmica de que a decisão de d. Odilo feriu a “democracia”.

Na quarta, 28, o Consun acatou recurso de estudantes e suspendeu temporariamente a validade da lista tríplice. Mas o cardeal pode ignorar a decisão do conselho e empossar a professora Anna. Assim, descartaria a possibilidade de nomear o professor Marcos Masetto como reitor interino até o dia 12 de dezembro, quando haverá nova reunião do Consun e será decidido o mérito do recurso, apresentado pelo Centro Acadêmico 22 de Agosto, dos alunos de Direito. Ontem foi o último dia da gestão do reitor Dirceu de Mello - o mais votado na eleição.

No recurso, os estudantes afirmam que a nomeação de Anna, mesmo legal, violou artigos do estatuto e do regimento geral da universidade, segundo os quais os funcionários e professores devem zelar pelo patrimônio moral da universidade. Os alunos lembram que Anna Cintra assumiu o compromisso durante um debate eleitoral de não aceitar a nomeação caso não fosse a mais votada. O representante da Fundasp pediu vistas do recurso e, como a posse da nova reitora era iminente, o conselho resolveu suspender os efeitos da lista tríplice.

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