Reitor defende uso de recursos privados

Reitor defende uso de recursos privados

Em entrevista ao ‘Estado’, Zago critica também agressão contra alunos e professores que não participaram da greve

Entrevista com

Marco Antonio Zago

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

25 Setembro 2014 | 03h00

O reitor da Universidade de São Paulo (USP), Marco Antonio Zago, defende a realização de convênios com a iniciativa privada, como fontes alternativas de recursos. Ele reconhece que a proposta enfrenta resistência de setores da universidade, que consideram que sua “isenção” ficaria comprometida. “Eu não concordo com isso.” Em entrevista ao Estado, Zago fez um balanço das perdas e ganhos da greve de 116 dias, no qual comparou a atitude de militantes que arrancavam à força alunos e professores das salas com a opressão exercida pela ditadura.

Que balanço o senhor faz da greve e das negociações?

Uma greve longa é sempre ruim para todos os envolvidos. Mesmo não sendo uma greve ampla em termos de envolvimento. Os cursos foram pouco afetados. Mas o estado de greve em si é ruim para todos. Agora, tivemos ganhos. A realidade da crise financeira chegou a todos dentro da universidade. Tive o apoio do Conselho Universitário para dar início a medidas saneadoras das finanças.

Não seria interessante que a sociedade participasse dessas decisões, que a USP se assumisse como uma instituição que tem um papel social, sustentada pela população de São Paulo? 

Concordo que a universidade é instrumento da sociedade. A autonomia dela tem de atender ao interesse social. A pedra de toque do programa de gestão que depositei quando me candidatei é exatamente essa: olhar muito mais para as necessidades da sociedade ao se organizar as ações e as decisões.

Isso poderia levar a novas fontes de recursos, com convênios com os setores produtivos?

Eu acho que sim, como ocorre com outras universidades estrangeiras. No entanto, existem grupos na universidade que pensam que ela deve depender exclusivamente dos recursos públicos e que a aceitação desses outros recursos significa abrir mão da isenção para atender a interesses outros. Eu não concordo com isso. 

Em muitos países, como Estados Unidos, Inglaterra e China, as universidades públicas são pagas. Aqui é possível levar essa discussão?

Não. É uma questão constitucional. Mudar esse artigo significaria que a sociedade como um todo adotou outra visão. No momento, sigo a visão predominante de que essas universidades públicas devem ser gratuitas no sentido de não cobrar mensalidade. Mas o benefício de quem passa pela universidade não deve ser isento de retorno para a sociedade. A cobrança com base nas escalas sociais é muito complexa do ponto de vista prático e não acho que neste momento haja qualquer vantagem em discutirmos essa questão.

No decorrer da greve, o ambiente se deteriorou com episódios de agressividade, de retirada de professores e alunos das salas. Seria possível evitar que isso volte a acontecer?

Espero muito que sim. É fundamental na universidade a aceitação da diversidade de ideias. Se não, ela perde sua função. A intolerância com pontos de vista divergentes é a pior coisa que pode ocorrer na universidade. É tão grave quanto o que ocorre quando ela é submetida a um regime ditatorial. Por isso, houve manifestações de repúdio que tomaram dimensões muito grandes. A reforma da estrutura da universidade tem de ocorrer em um ambiente obviamente de discussões acaloradas, mas em que haja respeito à diversidade de ideias.

O senhor acha que houve interesse político na greve, já que estamos tão perto de eleições?

Esses componentes externos nunca podem ser descartados. Eu não diria que esse foi o motivo essencial. Havia um pleito justo de reposição salarial das perdas inflacionárias e, por outro lado, a posição da universidade de que tínhamos uma situação financeira muito grave. Se esses movimentos foram insuflados por outros interesses, não acho impossível, mas não tenho informações adicionais.

As concessões de aumento salarial e o programa de demissão voluntária significam mais gastos nos próximos anos. Quando a USP conseguirá se enquadrar de novo no orçamento?

O aumento de 5,2% e o abono custarão R$ 123 milhões a mais das reservas. O programa de demissão encolherá as reservas em no máximo R$ 400 milhões. Mas reduzirá a folha de pagamentos em 6% a 7%. O programa se pagará em 20 meses. Se o programa for bem sucedido, em cerca de dois anos estaremos financeiramente estabilizados, com um comprometimento do orçamento pela folha de pagamento ao redor de 85% a 90%. As premissas para isso são que a partir de agora só se façam aumentos salariais iguais à inflação e que a universidade não contrate mais ninguém. Isso nos cria um problema: ao longo desses anos, a universidade contratou muitos funcionários, mas poucos docentes. E muitos cursos estão precisando de docentes.

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