Alex Silva/ Estadão
Alex Silva/ Estadão

Reforma causa dúvida sobre escolha precoce de área

Alunos e especialistas veem com preocupação exigência de estudantes optarem por um caminho ainda tão novos

Luciana Alvarez, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 07h00

Ensino médio com horário estendido, alunos escolhendo atividades além de cumprir um currículo obrigatório, projetos que interessam pessoalmente aos jovens. Não se trata de proposta para o futuro, mas de uma realidade hoje em várias escolas particulares e algumas públicas do Estado de São Paulo. Embora em linhas gerais essa forma de trabalho se assemelhe às mudanças propostas pela Medida Provisória (MP) 746, que propõe a reforma do ensino médio, até estudantes e gestores dessas escolas diferentes veem com inquietação a nova lei.

Fátima Braz, diretora da Escola Estadual Alexandre Von Humboldt, de jornada integral na capital paulista, diz que é bom os alunos escolherem parte do currículo, mas tem dúvidas sobre a opção por itinerários formativos. “Eles não têm maturidade suficiente. No ensino médio ainda estão formando seus projetos de vida.”

A escola oferece disciplinas eletivas, que mudam a cada semestre, e organiza os chamados clubes juvenis – alunos com interesses em comum se reúnem uma tarde por semana para realizarem atividades sem intervenção direta de docentes. Os estudantes têm ainda tutores para orientar seus estudos e passam por um processo de autoconhecimento e elaboração de planos para o futuro durante uma disciplina chamada de Projeto de Vida.

“Acho preocupante se forem retirar Artes, Educação Física, Filosofia e Sociologia do currículo obrigatório porque elas ajudam na formação geral. Meu estudante hoje sai da escola um cidadão, um ser pensante”, afirma Fátima, ressaltando que fala com base em sua experiência, mas não como uma porta-voz da rede.

Aluna do 3.º ano da Alexandre Von Humboldt, Gabriella Souza, de 17 anos, gosta de estudar em horário integral – fica mais de nove horas na escola – e das atividades de livre escolha. Já fez eletivas de várias áreas diferentes, participou do clube de música e agora faz parte do clube de fitness. Mesmo com orientação e tempo para refletir, ainda não sabe o que vai fazer ao terminar a escola. “Ter trilhas anteciparia a decisão, o que para mim é negativo. Tem muita gente indecisa como eu. E se no meio do caminho eu vejo que não era isso?”, questiona ela, ressaltando que no modelo da escola ela pode mudar de “trilha” a cada semestre.

Gabrielly Pinheiro, de 17 anos, não teve opções como Gabriella. Matriculada na Escola Estadual Maria Soares Santos, em Itapevi, na Grande São Paulo, estuda no período noturno desde o ano passado porque a escola não tem 2.º e 3.º ano do ensino médio durante o dia. “Achei bom ir para o noturno, pude fazer alguns bicos.” Neste ano, contudo, Gabrielly desistiu de procurar trabalho. Além das quatro horas por dia na escola, estuda em casa, por conta própria, outras oito ou dez horas. “Estou me preparando para o vestibular. Vou prestar História e Ciências Econômicas.” Ainda que ela saiba o que quer, também não vê com bons olhos a proposta de seguir um certo itinerário. “Gosto de todas as matérias, me esforço para ir bem em tudo. Para mim, não tem de cortar nada.”

Rede particular. Entender a Geometria por meio de dobraduras, estudar Química cozinhando, conhecer sobre Anatomia praticando esportes. Essas são algumas das opções de cursos interdisciplinares do ensino médio do colégio paulistano Marista Arquidiocesano. “É importante que eles consigam enxergar as coisas fora das caixinhas das disciplinas. E tenham escolhas”, diz Marisa Ester Rosseto, diretora educacional. Além do projeto interdisciplinar, que é obrigatório no currículo, os alunos têm possibilidade de fazer outras atividades extras, como preparação para olimpíadas de conhecimento e plantão de dúvidas. 

Para Marisa, a indecisão tão comum aos jovens tem relação com a estrutura escolar atual. “O aluno nunca escolhe nada, tudo o que teve de currículo até o fim da educação básica foi dado, mas chega aos 17 anos e tem de escolher uma profissão.” Assim, seria importante ele exercitar seu poder de escolha aos poucos. 

A diretora acredita que a reforma será benéfica aos colégios particulares por retirar um “inchaço” de matérias. Mas teme o aumento das desigualdades se a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trouxer uma visão focada demais no mercado de trabalho. “Há conhecimentos essenciais a todos. E, toda vez em que se faz uma escolha, há o risco de se excluir algo importante. Meu medo é que o mínimo comum tenha um viés de preparar mão de obra e deixe uma parte da população menos envolvida com o conhecimento científico.” 

A psicóloga Delsilene Sanchez, mãe de Isabelle, de 15 anos, e de Camille, de 12, que estudam no Arquidiocesano, aprova o fato de a escola oferecer atividades além do obrigatório. “A logística de buscar na escola é complicada, mas acho que a gente sai ganhando. Não quero que minha filha só saiba assinalar uma resposta certa na prova.” Isabelle, no 1.º ano do ensino médio, também acredita nas vantagens do sistema da escola. “A carga horária aumenta, mas eu adoro essas aulas extras e não vejo problema em ficar à tarde.” 

Para Delsilene, a filha mais nova poderá ter uma experiência ainda melhor quando chegar ao ensino médio. “É positivo o estudante trabalhar voltado para suas habilidades, sem deixar o básico. Esses três anos são massacrantes. Precisa desse transtorno todo?”

Autonomia. Nívea Fabrício, diretora do Colégio Graphien, na capital paulista, prevê que a reforma terá consequências positivas para sua realidade específica pois lhe dará mais liberdade. “Aqui eu traço um projeto de estudos individualizado a cada aluno, acrescento opções, mas tenho de cumprir tudo o que é estabelecido”, relata sobre o projeto da escola, que tem em média 12 alunos por turma e trabalha com um foco inclusivo. “Muitas vezes, a aparente dificuldade de aprendizado é só falta de interesse. O bom ensino tem de atender às necessidade de cada um e também estabelecer um vínculo entre estudante e professor.” 

Como dar flexibilidade. Mas nem na rede particular a mudança é unanimidade. Renato Júdice, diretor do colégio Elvira Brandão, aponta benefícios na flexibilização do currículo, mas vê que o principal impeditivo de se fazer isso hoje é cultural, não legal. “O modelo atual é sufocante, mas a Lei de Diretrizes e Bases da Educação é libertária.” Tanto assim que, independentemente de mudanças na lei, a instituição prepara alterações no esquema de trabalho para o próximo ano. 

“Parte do currículo vai ser personalizado, focado em resolução de problemas. O objetivo é que a escola passe a conjugar mais o verbo aprender do que o ensinar.” Os itinerários formativos previstos na medida provisória, avalia ele, são um “meio do caminho” entre o ensino totalmente padronizado e o personalizado, com foco real no estudante. 

Também entre estudantes da rede particular a reforma levanta questionamentos. No 3.º ano do colégio Equipe, Jhoão Gabriel Arneiro, de 18 anos, diz que não pretende fazer faculdade no ano que vem porque ainda não se decidiu por uma carreira. “Se tivesse que escolher um itinerário, ficaria na dúvida. Tenho interesse nas áreas de Letras e de desenvolvimento de games, por exemplo.” 

A diretora do Equipe, Luciana Fevorini, se diz favorável à flexibilização, mas não da forma como está na MP. “É importante o aluno ter alguma possibilidade de escolha, mas não necessariamente por áreas, que é algo redutor. O mundo não está dividido por áreas, mas de forma interdisciplinar”, disse ela, citando cursos temáticos da escola e o trabalho com monografias no 3.º ano.

De acordo com Luciana, a reforma pode até ser sedutora para alguns jovens com dificuldades em certas disciplinas. “Mas é papel da escola desafiar, pôr os alunos para enfrentar as dificuldades. Não dá para fugir de tudo.” 

Outro defensor da flexibilização para o ensino médio, mas que demonstra apreensão sobre a forma da reforma é Benjamin Ribeiro da Silva, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo. Ele reclamou que a medida foi pouco explicada, deixando o setor com muitas dúvidas, e os colégios privados não foram ouvidos. “Isso vem se repetindo desde a época do Plano Nacional de Educação, em 2014, nas discussões da Base Nacional: a escola particular é provocada, mas nunca ouvida.” 

Da forma como consta no texto, ele diz que a mudança parece uma volta a modelos mais antigos ainda. “Eu já vi essa história de itinerários no passado, na época em que se escolhia entre científico, clássico e normal.” 

Para Silva, a mudança trará problemas sobretudo às escolas particulares de pequeno porte, que não têm muitas turmas e, portanto, vão acabar optando por oferecer só uma ou duas trilhas. “Cerca de 80% das escolas do Estado têm até 500 alunos, o que significa ter só uma ou duas turmas por ano.” Ainda que a MP represente um desafio de gestão, ele garante que a mudança será bem feita na rede. “A reforma não se faz de um dia para o outro. É algo novo, mas tenho certeza de que vamos nos adaptar, e muito antes da rede pública."

 

 

O QUE MUDARIA COM A REFORMA

Carga horária mínima

Hoje: 4 horas de aula por dia (800 horas por ano em 200 dias de aula) 

Com a reforma: 7 horas de aula por dia (1.400 horas por ano em 200 dias de aula)* 

*O texto diz que “a carga horária mínima anual deverá ser progressivamente ampliada, no ensino médio, para mil e quatrocentas horas”, mas é para todo mundo. A meta é chegar a 2024 com 25% das matrículas em tempo integral – hoje elas são 5% no País

 

Disciplinas

Hoje: Todos têm de fazer 13 disciplinas obrigatórias: Língua Portuguesa, Literatura, Língua estrangeira, Artes, Educação Física, Matemática, Física, Química, Biologia, História, Geografia, Filosofia, Sociologia. Para incluir novas disciplinas, o Congresso deve aprovar uma nova lei

Com a reforma: A MP estabelece que o Inglês será obrigatório (mas não durante os três anos) e retira do corpo da lei antiga a obrigatoriedade de Educação Física, Artes, Filosofia e Sociologia. Esses conteúdos, contudo, podem continuar sendo obrigatórios, caso constem da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que ainda está sendo elaborada. A BNCC vai definir os conteúdos mínimos para todos. Para incluir novas disciplinas será necessária aprovação do Conselho Nacional de Educação, do Ministério da Educação (MEC), e dos conselhos de secretários de educação Undime e Consed

 

Escolhas dos alunos

Hoje: Além dos conteúdos obrigatórios, há escolas que trabalham com projetos de livre escolha por parte dos estudantes ou com disciplinas eletivas. Há também colégios que oferecem ensino integral e/ou técnico. Na prática, porém, são poucos os alunos que têm acesso a essas opções

Com a reforma: Conteúdos obrigatórios passam a ser definidos pela BNCC e devem tomar no máximo 1.200 horas em todo o ensino médio – 50% da carga horária nas escolas com 4 horas de aulas por dia e menos 30% nas escolas com 7 horas de aulas por dia. No tempo restante, os Estados poderão oferecer itinerários específicos, ainda a serem definidos, em cinco áreas: Linguagens  Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Formação técnica. Na prática, porém, nem todos os alunos vão ter todas as opções em suas escolas ou cidades, porque caberá aos Estados e às escolas definir a oferta de itinerários. Matemática e Português seguem obrigatórios nos três anos

 

Outras mudanças

Possibilidades previstas na MP, dependendo de regulamentação dos Estados: 

Certificados intermediários de qualificação; 

Organização dos conteúdos por módulos e sistemas de crédito; 

Validação de conteúdos do ensino médio como créditos para o ensino superior; 

Opção por um segundo itinerário formativo, depois da formatura, se houver vagas; 

Inclusão como parte do ensino médio de atividades diversas como: estágios, atividades técnicas fora da escola, cursos em instituições parceiras e ensino a distância

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