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Reduzir a mensalidade

Pais confiam seus filhos às escolas e, diante da pandemia, esperam a confiança de volta

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 05h00

Em tempos de ensino a distância, a escola tem de estar cada vez mais próxima dos pais. E não se trata apenas de mandar atividades pela internet. Eles precisam, sim, de conversas online, mas sobre como lidar com os filhos diante do homeschooling forçado e da angústia do isolamento. Também é necessário estar perto para entender que a crise vai deixar quase todo mundo mais pobre.

A educação tornou-se uma grande parcela do orçamento das famílias das classes média e alta. São 9 milhões de crianças e adolescentes no País atualmente nas escolas particulares. Em São Paulo, por exemplo, aumentou em quase 1 milhão o número de estudantes na rede privada em dez anos, enquanto a escola pública teve o movimento inverso. Hoje, 23% dos alunos estão nas particulares do Estado, índice que já foi de 10% no passado.

O mercado também se diversificou no período. Há ainda uma maioria de escolas pequenas com um dono, educador ou não, que abriu a instituição há décadas. Outras são sustentadas por grandes entidades sem fins lucrativos, algumas religiosas. Mas também entraram na concorrência os mega grupos educacionais, com sócios-investidores que saíram comprando estabelecimentos nos últimos anos porque acreditam que escola dá lucro.

Os pais, no entanto, raramente escolhem onde os filhos vão estudar pelo modelo de negócio. Matriculam as crianças porque tiveram boa indicação de amigos, gostaram do ambiente ou do projeto pedagógico, ou mesmo, porque é a escola mais perto de casa. Confiam seus filhos a elas, por mais que as vezes confiem demais ou critiquem demais. E agora, diante de uma pandemia avassaladora que destrói vidas e empregos, esperam essa confiança de volta.

Três milhões e meio de trabalhadores já tiveram redução de salário ou suspensão de contratos no Brasil e é só o começo da crise econômica. Nas universidades privadas paulistas, a inadimplência já cresceu 71%. Um quarto deixou de pagar suas mensalidades em abril. Algo que pode chegar com força semelhante ao ensino básico este mês.

Na educação infantil, principalmente para crianças entre 0 a 3 anos, cujo ensino não é obrigatório no País e atividades remotas não fazem sentido, pais já passaram a tirar seus filhos da escola para não pagar pelo período sem aulas. 

Também se nota um movimento de procura de vagas em escolas privadas mais baratas, como a Luminova, do grupo SEB. Como ela, há outras que contam com investimento pesado e muitos alunos para sustentar um ensino atual, com foco em inglês e tecnologia, mas low cost. 

O sindicato das escolas diz que 75% do que ganham os estabelecimentos de ensino vão para pagamento de salários, impostos e encargos. A maioria tem se comprometido em manter os professores sem redução de remuneração – por defesa da categoria ou até porque muitos estão se reinventando e trabalhando o dobro para dar conta de ensinar online.

Mas há a luz, a água, a alimentação, o ar-condicionado. Contas feitas, escolas passaram a anunciar medidas. O Porto Seguro deu isenção em mensalidades de crianças pequenas e descontos de até 30% em outros níveis, o Mackenzie vai parcelar mensalidades no cartão de crédito, a Escola da Vila permite o pagamento depois de setembro, com juros baixos, e escolas pequenas têm oferecido até 50% de redução. São só alguns exemplos. 

Outras permanecem irredutíveis. Não há desconto em mensalidade nem em negociações individuais. Vão perder como negócio e vão perder como escola. Afinal, o grande aprendizado de toda essa crise não é conteúdo que ficou para trás no currículo e, sim, os sacrifícios que temos de fazer pelo bem de todos. 

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