Redação do Enem segue tradição de debater ética e direitos

'Publicidade infantil' desbanca assuntos mais recorrentes no noticiário, como a crise hídrica, e surpreendeu os candidatos

O Estado de S. Paulo

09 Novembro 2014 | 17h57

Atualizado às 8h35 do dia 10/11

SÃO PAULO - A escolha da publicidade infantil no País como tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2014 manteve a tradição da prova de incentivar o debate sobre ética, direitos e problemas sociais. Surpresa para boa parte dos candidatos, a proposta desbancou outras apostas, de assuntos mais em evidência na mídia, como crise hídrica, realização da Copa do Mundo e protestos. 

Desde 1998, esse foi o terceiro ano em que um tema relacionado aos direitos da criança e do adolescente foi cobrado no Enem. De acordo com professores ouvidos pelo Estado, embora menos discutido nos veículos de comunicação, o tema não foi difícil e os textos de apoio eram suficientes para desenvolver a redação neste domingo, 9. 

Para a professora do Cursinho da Poli, Vanessa Dutra, o assunto da redação era esperado. “Observando as redações dos anos anteriores, percebemos que o Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, órgão que organiza o exame) costuma priorizar assuntos relacionados à defesa dos direitos humanos”, afirmou.

Diferentemente de outros vestibulares, no Enem o candidato ainda deve incluir uma solução sobre o assunto sugerido. “Com este tema, não é muito fácil apresentar uma proposta de intervenção, a quinta competência avaliada na correção”, explicou a professora do Cursinho da Poli Andrea Lanzara. 

Pela dificuldade, a candidata Maynan Santos, de 18 anos, desistiu de fazer a redação. “Não entendi o tema e achei difícil. Fiquei meio despreparada”, admitiu a estudante, que fez o Enem na zona sul de São Paulo e pretende tentar o curso de Veterinária.

Já Bárbara Andrade, de 30 anos, encarou a redação sem problemas. “Surpreendeu o tema. Imaginei que fosse alguma coisa ligada às eleições, à água e até mesmo à Copa, mas fui bem. Não posso dizer que foi uma coisa difícil”, contou ela, que fez a prova em Curitiba.

Testes trabalhosos. Para os professores de cursinho consultados pelo Estado, as provas de Matemática e de Linguagens foram mais difíceis do que nos anos anteriores, com cobrança de conhecimentos prévios e mais complexos. Um dos temas mais especulados para a redação, a escassez de água apareceu em uma questão. Já a prova de Inglês teve uma pergunta com a letra de uma canção de Bob Dylan, e a de Linguagens, um cartoon com uma cena de Guernica, de Picasso. 

Para o diretor da Oficina do Estudante, Célio Tasinafo, o teste de Linguagens “manteve sua principal e mais interessante característica, que é trabalhar com os mais variados registros linguísticos - música, crônica, poema, anúncio publicitário, escultura”. Um problema da prova de Linguagens, de acordo com ele, foram textos extensos, que consomem tempo do candidato, como nos outros anos. 

O tamanho das questões incomodou Gabriele Oliveira, de 28 anos, nos itens de Matemática. “Além de não me preparar bem para a prova, as questões estavam muito cansativas”, disse ela, que fez o Enem em Porto Alegre. Segundo Antônio Mário Salles, do Cursinho Objetivo, nos itens de cálculo “o raciocínio envolvido era difícil”.

Em relação a Inglês, o professor do Cursinho da Poli Moacir Prudêncio avaliou que “a prova não foi muito exigente do ponto de vista da proficiência”. Para ele, o teste de Espanhol exigiu mais vocabulário.

Veja o histórico de temas cobrados na redação do Enem:

2014: "Publicidade infantil em questão no Brasil" - O tema desta ano repercute a proibição, pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, de propaganda que incentive a criança a consumir determinado produto ou serviço fazendo uso de linguagem infantil, efeitos especiais, excesso de cores, trilhas sonoras de músicas infantis ou cantadas por vozes de criança.A questão causa divergência entre o mercado publicitário e entidades de defesa dos direitos da criança.

2013: "Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil" - A prova pedia ao candidato que discutisse a relação entre álcool e acidentes de trânsito. No ano anterior, a Lei Seca havia ficado mais rigorosa para motoristas: uma atualização da lei determinava que nenhuma quantidade de álcool detectada no bafômetro seria tolerada. Antes, quem fosse flagrado com até 0,1 miligramas de álcool por litro de ar no pulmão não era multado.

2012: "O movimento imigratório para o Brasil no século XXI" - O tema da redação naquele ano era o aumento da imigração de bolivianos e de haitianos em direção ao Brasil. A prova trazia um texto com o contexto dos movimentos imigratórios para o Brasil no passado, além de informações sobre movimentos migratórios recentes

2011: "Viver em rede no século 21 - os limites entre o público e o privado" - Com o aumento do uso de redes sociais no Brasil, a discussão sobre o impacto da internet na vida pessoal era um dos temas esperados. Um dos textos lembrava que a ONU havia declarado, naquele ano, o acesso à rede um direito básico do ser humano.

2010: "O trabalho na construção da dignidade humana" - A prova propunha a discussão de direitos humanos. Os candidatos tinham como apoio dois textos com perspectivas contrastantes: o primeiro discutia trabalho escravo na modernidade e outro falava sobre o futuro das profissões.

2009: "O indivíduo frente à ética nacional" - No primeiro ano após a reformulação do Enem, o material de apoio trazia um texto crítico sobre a acomodação, outro que discutia corrupção, e uma charge do Millôr Fernandes que tratava da escassez de pessoas honestas. A reflexão deveria levar em consideração a reação popular à corrupção. Como naquele ano as provas originais foram vazadas e a prova teve de ser remarcada, esta foi a segunda opção, sendo que o tema cancelado foi a "Valorização do idoso". 

/BÁRBARA FERREIRA SANTOS, PAULO SALDAÑA, FERNANDO ARBEX, JULIANA DIÓGENES, LUCAS AZEVEDO, LUIZ FERNANDO TOLEDO, VICTOR VIEIRA e ANA CRISTINA MAZEO, JÉSSICA FERREIRA, JÚLIO CÉSAR LIMA, MARÍLIA MARASCIULO, RAQUEL BRANDÃO e TÚLIO KRUSE, ESPECIAIS PARA O ESTADO

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