Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Redação do Enem aborda caminhos para combater intolerância religiosa

Para professores de cursinhos pré-vestibular ouvidos pelo 'Estado', tema proposto pelo exame 'é amplo e polêmico, mas extremamente relevante'

O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2016 | 14h44
Atualizado 06 Novembro 2016 | 23h27

SÃO PAULO E CURITIBA - O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizada neste domingo, 6, segundo dia de prova, foi "Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil". O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) fez a divulgação, através do seu Twitter, às 13h30, no horário de Brasília, momento em que começou a prova em todo o País.

O professor Eduardo Calbucci, supervisor de Português do curso pré-vestibular Anglo, elogiou o tema e disse que o tópico é mais amplo e polêmico do que o do ano passado, que tratou sobre "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". Por isso, também é mais difícil. 

Para Giba Alvarez, diretor do Cursinho da Poli, o assunto foi uma boa escolha "porque faz com que o aluno discuta a própria realidade". Uma mudança, em relação a provas anteriores, observada é que "o Inep já deixou claro no próprio tema que o aluno precisa propor uma solução". "Isso é uma das competências que já era avaliada na correção da redação, mas muitos alunos acabam esquecendo." 

"O tema não é específico sobre intolerância contra uma religião, mas intolerância religiosa, ou seja, contra o outro. É a dificuldade que temos de lidar com o diferente", analisou Calbucci. "Não adianta muito condenar a intolerância contra as religiões africanas sendo intolerante com evangélicos, por exemplo."

Praticante de umbanda, uma das religiões de matriz afro no Brasil, o estudante Robson Silva, de 29 anos, que está fazendo o Enem para retomar seus estudos, achou o tema oportuno. "Eu não imaginava esse tema, mas tenho acompanhado sempre o assunto, pela minha religião, então achei um bom momento para a redação", comentou, ao deixar as Faculdades Opet, em Curitiba.

Já o candidato Thiago Lemos, de 17 anos, disse que a redação trouxe um tema amplo e importante de ser discutido. "Como proposta de intervenção, eu escrevi que muitas pessoas intolerantes ainda acreditam na impunidade e, por isso, deveríamos ter leis mais rígidas para mudar isso", disse o estudante, que quer cursar Engenharia e fez a prova no câmpus Vergueiro da Universidade Paulista (Unip), na zona sul da capital paulista. 

Para a professora de Redação Simone Motta, que também é coordenadora de Português do Colégio Etapa, o aluno deveria ter prestado mais atenção à coletânea de textos base, em especial a algumas palavras

"O tema deixa claro que não está em jogo se existe ou não intolerância religiosa", disse Simone. "Isso é dado como uma verdade que precisa ser combatida, não há dúvidas de que o aluno deve tomar uma posição contrária." 

Abordagem do candidato pode tratar tanto de liberdade individual quanto de contexto político, avaliou o professor do Anglo. Para o professor do Cursinho da Poli, outra abordagem possível é propor que respeito à diversidade é um assunto a ser debatido nas escolas.

A professora Viviani Xanthakos, professora de Português e Redação do Colégio Objetivo, sugere que o melhor direcionamento para o texto era "colocar toda religião e falta de religião em pé de igualdade e, também, defender a laicidade do Estado". Além disso, o candidato podia discutir sobre a necessidade de preparar a lei e agentes públicos para tratar a intolerância religiosa "de frente". 

"A gente pensou que o Inep preferisse fugir da discussão política mais óbvia, devido ao ano politicamente conturbado que foi 2016. Mas eles conseguiram pensar num assunto em que é possível pensar se a nossa democracia está completa", afirmou Calbucci. 

Para ele, a grande dificuldade para conseguir uma boa redação com esse tema é apontar caminhos práticos e que não sejam "soluções mágicas".

"O Enem não quer que o candidato diga que 'é preciso conscientização', quer coisas mais específicas. Dependendo do recorte temático, é preciso apresentar soluções simples e viáveis. Elas não precisam acabar com o problema, mas apontar o caminho", disse o professor, que sugeriu uma discussão. "Será que a gente precisa ter ensino religioso no País, por exemplo? E se esse ensino tratar de todas as religiões e não apenas uma? E se falarmos, também, sobre quem não tem religião? Esse pode ser um dos caminhos."

O professor acredita que, para uma boa redação, fosse preciso equilibrar os textos oferecidos com o repertório pessoal. "Um aluno que só usa as informações de seu repertório peca por não usar a coletânea, já o aluno que só usa a coletânea passa a sensação de que não tem informação nenhuma sobre o assunto. É preciso dosar", sugeriu Calbucci. "As pessoas que querem entrar numa universidade precisam saber discutir sobre essas questões. Em geral, no Brasil, a gente só se incomoda com intolerância quando é atingido por ela."

"Um aluno leitor, que se interessa por grandes temas nacionais, tem um repertório maior para fazer a redação. O Enem como um todo exige um aluno que consiga aplicar o conhecimento que viu na escola e que saiba analisar de forma crítica a sociedade em que vive", disse Alvarez. 

Discussão em sala de aula. O professor do Sistema pH de Ensino Thiago Brava propôs, há três semanas, a intolerância religiosa como tema de redação para ser feito em sala de aula. A motivação foi o caso que ocorreu no ano passado na zona norte do Rio de Janeiro em que uma menina de 11 anos foi atingida por uma pedra ao deixar um culto de candomblé.

"Esse caso denota um desrespeito a uma crença fundamental garantido pela nossa Constituição, a liberdade religiosa. É preciso discutir que em uma sociedade democrática é necessário entender o conceito de alteridade." 

No Cursinho da Poli, o professor Giba Alvarez também incluiu o tema entre as redações propostas para os seus alunos. Navegando pelo Portal Brasil, site de notícias oficiais da Presidência da República, em maio deste ano, ele encontrou alguns textos reunidos sobre o assunto. 

Para a candidata Tainá Gois, de 21 anos, o tema da redação pode fazer os jovens refletirem sobre um tema atual e importante no Brasil. "Citei o caso de escolas cristãs que estimulam a intolerância e como o poder público deveria punir esse tipo de abordagem. Também falei de políticos que trabalham para uma religião e não para o povo", contou a estudante, que fez a prova na Unip Vergueiro.  /BÁRBARA MANGIERI, ELISA CLAVERY, ISABELA PALHARES, JULIO CESAR LIMA, LEONARDO RIBEIRO, SARA ABDO, ESPECIAIS PARA O ESTADO

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