Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Redação da Fuvest não exigia conhecimentos filosóficos, dizem professores

Candidatos tinham que elaborar um texto para responder se o homem atual atingiu esclarecimento para sair da menoridade, conceito de Kant

Isabela Palhares e Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

08 de janeiro de 2017 | 21h04

SÃO PAULO - Professores de cursinho pré-vestibular disseram que a redação da Fuvest, que teve como proposta a menoridade, conceito do filósofo Immanuel Kant, não exigia necessariamente conhecimento filosófico prévio dos candidatos. Segundo eles, o tema deste ano seguiu o perfil das últimas provas ao propor a relação entre assuntos abstratos com o cotidiano. 

“A relação neste ano não estava tão explícita como nas outras edições, mas a proposta pedia claramente que o aluno usasse sua observação da realidade. Não foi um tema que trouxe grande dificuldade para os candidatos porque permitia uma série de relações diferentes e factíveis”, disse Heric Palos, professor de Português do Etapa. 

A Fuvest tem tradição na cobranças de assuntos abstratos e filosóficos para a redação. No ano passado, por exemplo, o tema foi  ‘Utopia’, com textos de apoio dos pensadores Paul Ricouer e Karl Manheim. Em 2015, a redação abordou a "camarotização" da sociedade, a segregação das classes sociais e a democracia. 

Para Palos, o texto de apoio da redação dava suporte para o aluno que não conhecesse o conceito. "Mesmo o aluno que nunca ouviu falar em Kant, não ficou desamparado. É claro que, quem tinha familiaridade com o tema, teve mais facilidade, mas a intenção da Fuvest é avaliar a capacidade de leitura e de estruturar argumentos. A intenção era que o candidato conseguisse trazer aquele conceito para o seu contexto, sua realidade". 

A prova trazia como material de apoio para o estudante um texto do filósofo escrito em 1784 e um enunciado que contextualizava o período da publicação. Segundo o filósofo, a menoridade é a incapacidade do homem de fazer uso de seu entendimento sem ser direcionado por outro indivíduo. A saída desse estado só é possível pelo esclarecimento, ou seja, quando se torna capaz de pensar de modo livre e autônomo. 

Eduardo Calbucci, supervisor de Português do pré-vestibular Anglo, também disse que o tema da redação não deveria trazer grandes dificuldades aos alunos. "O equívoco de alguns candidatos era achar que havia necessidade de conhecimento prévio sobre a filosofia kantiana. O texto e a proposta eram acessíveis para o aluno desenvolver a redação", disse o professor. 

Entre as possibilidade de discussões, estavam os papéis da política, do sistema educacional, da religião, dos meios de comunicação e até as relações familiares. "É bom porque dá uma amplitude de caminhos para o candidato", afirmou Maria de Lourdes Cunha, professora de Literatura do Curso Objetivo. 

"Como não havia coletânea de textos, demandava mais repertório do aluno. O que torna mais difícil que ele fuja do tema", acrescentou Calbucci. 

Português. Além da redação, os candidatos também fizeram neste domingo a prova de português com 10 questões de interpretação de texto, gramática e literatura. Para os professores, a prova de Português seguiu a tendência de enunciados diretos e curtos, além de cobrança de Gramática aplicada ao texto. 

Também manteve a divisão de anos anteriores ao dedicar 60% das questões à língua e linguagem e 40% para literatura. No primeiro dia da segunda fase, quatro dos nove livros da lista obrigatória foram abordados:  "O cortiço", de Aluísio Azevedo, "Mayombe", de Pepetela,"Vidas secas", de Graciliano Ramos, e "Sagarana", de Guimarães Rosa.

Vinicius Haidar, coordenador do cursinho Poliedro, disse que as questões estavam bem elaboradas. “As questões de literatura tiveram um grau alto de dificuldade, mas as de interpretação e gramática estavam mais fáceis do que no ano passado. A prova cobrou uma gramática mais aplicada”, disse. 

Palos também disse que as questões de literatura exigiram um pouco mais do aluno, mas teve complexidade semelhante a de outros anos. “Foram questões muito bem feitas, cobraram quatro dos nove livros obrigatórios sempre fazendo relações com outros conceitos”. 

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