Gus Mantovani/Produção Multimídia da Escola Móbile
Gus Mantovani/Produção Multimídia da Escola Móbile

Redação: coerência e respeito ao tema são exigências de Enem e Fuvest

Dissertação nos exames deve mostrar repertório cultural, vocabulário e organização mental dos candidatos

Guilherme Guerra, especial para o Estado

25 Setembro 2018 | 05h30

SÃO PAULO - “A redação é o retrato do aluno”, assim caracteriza a coordenadora de Português do cursinho Etapa, Simone Motta. Segundo ela, o texto dissertativo-argumentativo, como é cobrado na maioria dos vestibulares, leva o corretor a perceber uma série de informações sobre o candidato, como repertório cultural, poder de argumentação, vocabulário e organização mental.

No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), obrigatória a todos os candidatos, a Redação é feita no mesmo dia das 90 questões de Linguagens e Ciências Humanas, em cinco horas e meia de prova. O candidato precisa se organizar com o tempo curto para preencher as 30 linhas de texto, apresentando uma solução ao tema-proposta. “O Enem mensura o que os outros vestibulares não fazem”, afirma Simone.

De etapa única, o exame do Ministério da Educação (MEC) tem alto número de redações nota zero, aquelas que desobedecem a um dos principais critérios mínimos de proposta. Na maior parte das vezes, de acordo com o MEC, os zeros vêm de fuga ao tema.

Em uma segunda fase, segundo Simone, os candidatos são mais homogêneos porque já passaram pelo filtro de uma etapa anterior. Isso ocorre na Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest). A seleção para a Universidade de São Paulo (USP) cobra a Redação na segunda fase, no mesmo dia em que aplica dez questões dissertativas sobre Língua Portuguesa, em quatro horas totais de exame.

Fundamental

Tanto o Enem quanto a Fuvest têm critérios básicos para um texto de excelência: respeito ao tema, à proposta, à norma culta, à coerência e à coesão. Esses elementos são trabalhados no Etapa por Simone e outros professores, que propõem quinzenalmente redações com temas tirados de jornais e revistas. Os próprios alunos leem e corrigem o texto do colega. Há ainda aulas com conteúdos especiais para o texto, como filosofia, sociologia e atualidades. “O aluno que realmente quiser treinar tem três a quatro redações em cinco dias de aula”, afirma a coordenadora.

Para estudantes em busca de referências para usar no texto da Fuvest - em citações ou conceitos que ajudem a explicar o mundo contemporâneo -, o professor de Português Francisco Gonçalves Lima Júnior recomenda os livros Sociedade do Cansaço (2010), Hipermodernidade (2004), Modernidade Líquida (1999) e Convite à Filosofia (1994).

Em relação ao Enem, Lima Júnior, professor do 3.º ano do ensino médio na Escola Móbile, lembra que a prova é rigorosa com as referências externas durante o texto. Segundo ele, a boa execução de dois aspectos - o repertório legitimado (se existe aquela pessoa citada) e repertório pertinente ao tema e produtivo (se a citação fez sentido no texto) - já pode somar 200 pontos.

Na intervenção, que é quando o Enem avalia a solução que o candidato oferece para a resolução do problema, o professor divide a conclusão em cinco itens obrigatórios: especificar o agente da intervenção, ação a ser feita, finalidade, meio e detalhamento.

“Cada elemento vale 40 pontos; então são 200”, explica Lima Júnior. “A prova é a soma estratégica do conteúdo e só dá pra fazer um bom texto com a união de elementos.” Para ele, cabe ao professor mostrar como o estudante pode ir melhor na Redação. “O aluno tem história, filosofia, ética. Ele só não sabe usar esse repertório”, diz o professor. 

Leitura melhora informação e argumentação

Jornais e livros contribuem com conhecimento e melhora da estrutura geral da redação

Gabriela Akemi Hirata passou de primeira em Engenharia de Produção na Universidade de São Paulo (USP) e tirou nota 960 na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Como considerava seu desempenho ruim em Redação, Gabriela decidiu treinar a escrita ao menos uma vez por semana ao longo do 3.º ano do ensino médio, no Etapa.

“Eu não conseguia fazer uma introdução direito”, diz. “Lendo mais e sabendo como estruturar, você consegue contextualizar uma matéria.”

Outra dica de Gabriela é fazer um “brainstorm” depois de ler a coletânea de textos da redação. “Às vezes você tem uma ideia complexa, que pode ser muito boa, mas é difícil de argumentar.” Por fim, ela sugere aplicativos de jornais e revistas para se manter a par das notícias em tempo real.

Graduanda em Teatro pela Universidade de Nova York (Estados Unidos), Ana Santana Moioli também recomenda acompanhar os jornais se for para fazer uma prova atualizada como o Enem. Já para a Fuvest, Ana indica a leitura de livros filosóficos, como ocorria na Escola Móbile, onde ela fez o ensino médio em São Paulo.

Para Ana, a leitura é parte essencial para se fazer um bom texto. “Como o tamanho da redação é muito restrito, e a estrutura, muito rígida, é mais importante ter conhecimento raso de vários temas do que se aprofundar em cada um.”

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