WorldSkills/Divulgação
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Reality show em Londres

Estudantes brasileiros mostraram sangue frio e foram vices, entre 51 países, no maior torneio mundial de ensino profissionalizante

Mariana Mandelli, enviada especial a Londres, Estadão.edu

24 Outubro 2011 | 22h21

Entre os jurados, não há a crueldade de Gordon Ramsay, o temido chef do programa de TV Hell’s  Kitchen. Nem top models como Heidi Klum, que apresenta a competição de estilistas Project Runway. Mas os níveis de exigência e  tensão nas provas do WorldSkills, maior competição de ensino profissionalizante do mundo, são equivalentes aos desses reality shows.

 

No WorldSkills deste ano, mil participantes de 51 países competiram em Londres, no início do mês, em 46 áreas. As atividades foram realizadas no ExCel London, um dos maiores centros de exposições da cidade. O Brasil, que ficou em 2.º lugar no torneio, enviou 28 aprendizes de 25 profissões.

 

Para provar que são os melhores nas suas áreas, os candidatos passaram por situações que simularam o cotidiano das profissões que escolheram. As tarefas tinham de seguir padrões internacionais de qualidade e cumprir prazos estipulados pela organização. Entre as regras, uma das mais importantes - e que podia levar à desclassificação dos candidatos - era não conversar com o público, que circulou livremente pelos galpões e pôde acompanhar tudo a metros de distância.

 

“As pessoas chamavam, tentavam falar com a gente durante as provas. E eu só dizia ‘I’m sorry’”, diz o baiano Hemilton Oliveira dos Santos, de 22 anos, que competiu na área de serviço de restaurante. Ele teve de provar vinho, colocar a mesa de acordo com a ocasião indicada e realizar o serviço de banquete. “E fazer tudo isso sorrindo para os jurados, tentando agir da forma mais natural possível, enquanto eles ficavam lá, olhando, com pranchetas.”

 

Volta e meia os competidores eram surpreendidos por palavras de incentivo em português do público. “A gente se acostuma a ouvir outras línguas - especialmente inglês - e, quando escutava português, tinha que tomar cuidado para não se distrair”, diz Laysa Barreto, de 20, que disputou o torneio na categoria cozinha. “Mas foi legal ter gente torcendo junto.”

 

Durante os módulos, Laysa montou menus completos para provar que sabe cozinhar de tudo. “A gente tinha uma lista de ingredientes e precisava cumprir o que era pedido. Por exemplo, fazer um cardápio com carne, molho, amido e dois vegetais”, diz Laysa, que sonha em trabalhar com o chef Alex Atala.

 

Realizar as tarefas diante do júri e do público é só parte do desafio do WorldSkills. Para os brasileiros, treinados até por psicólogos para lidar com a pressão do evento, a personalidade dos rivais influenciou - e muito - o nível da competição.

 

“Cada um vem de um país e lidar com diferentes tipos de cultura pode ser bem difícil”, diz a gaúcha Daniela Mello, de 21, formada no curso de cabeleireiro do Senac. “A competição lembra um aquário, em que a gente fica em exposição.”

 

Como os stands ficavam lado a lado, muitas equipes tinham os principais rivais por perto. Os gaúchos Maicon Pelisaro e Christian Alessi, ambos de 21, dividiram o ouro em mecatrônica com a equipe japonesa, sua vizinha de stand e campeã do WorldSkills anterior. “Nosso trabalho em dupla facilitou na concentração: um ajudou o outro, mesmo com os japoneses ali do lado”, diz Christian. “Foi bom porque dava para monitorar se estávamos atrasados em relação a eles.”

 

Quanto ao clima hostil que normalmente reina numa competição, Christian afirma que só sentiu isso uma vez - com os holandeses. “Eles vieram de nariz empinado porque eram campeões do EuroSkills, a etapa europeia. Até penduraram a medalha nas ferramentas.”

 

A equipe brasileira, composta por alunos do Senai e do Senac, conquistou 11 medalhas: 6 de ouro, 3 de prata e 2 de bronze, além de 10 certificados de excelência. O primeiro lugar ficou com a Coreia do Sul, e o terceiro com os japoneses.

 

* A repórter viajou a convite do Senai/CNI

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