Wether Santana/ Estadão
A regra do distanciamento entre os alunos é seguida dentro das salas de aula Wether Santana/ Estadão

Reabertura das escolas em SP tem choro de pais e de professores e abraços 'proibidos'

Escolas retomaram funcionamento nesta quarta-feira na capital paulista para atividades extracurriculares. Retorno teve emoção e desafio de por em prática protocolos de segurança. 'Estadão' acompanhou o dia em três colégios

Renata Cafardo, Gonçalo Junior e Marcela Coelho, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 18h08
Atualizado 08 de outubro de 2020 | 09h39

Teve choro das mães, das professoras e até do zelador, que não aguentava mais ficar sozinho, no primeiro dia de abertura de uma escola particular na zona norte de São Paulo. Na região sul, os adolescentes seguraram o contato físico até o fim da manhã, mas não resistiram e se abraçaram na saída, para desespero dos inspetores. Acolhimento ao ritmo de K-pop na quadra de uma escola estadual no Itaim Paulista, no extremo da zona leste. O Estadão acompanhou nesta quarta-feira, 7, a emoção e a tentativa de colocar em prática os protocolos de segurança em três escolas da capital, que recomeçaram as atividades presenciais depois de quase 7 meses fechadas por causa da pandemia do coronavírus. As visitas também motivaram a produção de um podcast especial sobre o novo som das escolas na reabertura que pode ser ouvido aqui

“Parece que é o primeiro dia de aula da vida dela”, diz Dijane Lima, contadora, mãe de Sara, de 5 anos, lágrimas escorrendo para dentro da máscara. Ela observa a filha entrar, até sumir de vista, na Escola Projeto Vida, que fica na Casa Verde. “É triste e feliz. Tanto tempo em casa...dá dó ver de máscara”, completa.

Uma criança chega com um leão de pelúcia na mão e mochila de rodinhas, ambos tinham sido não recomendados pela escola para a volta, seguindo o protocolo. A professora Margareth Tieppo resolve o problema e diz que o leãozinho vai ser o “brinquedo de ficar na escola”, não de ir e vir. Ela recebe cada aluno na porta e leva à antiga sala de aula, onde ficaram por cerca de um mês só este ano. Indica que precisam tirar os sapatos e repete a todo instante: “distância, distância”.

Há 25 anos ela dá aula na Projeto Vida, o dia todo. “Quando parou, parou a vida. Este é um espaço de compartilhar conhecimento com crianças e é disso que a gente sente falta”, diz, também com olhos marejados. Mascarados, as professoras e funcionários da escola usam um crachá com uma foto em que estão sorrindo para facilitar a identificação. Cícero de Lima, que cuida da manutenção, fica com os olhos vermelhos vendo, finalmente, movimento na escola. “Que bom, rapaz, que emoção. Seis meses aqui, só barulho de passarinho, sozinho o dia inteiro, todo mundo sumido. Agora vejo todo mundo.”

No Colégio Bandeirantes, no Paraíso, o protocolo rígido contra a covid-19 se impõe desde os degraus da escada, logo depois do portão principal, com adesivos vermelhos com a inscrição “espere aqui”. Enquanto sobem, os alunos são flagrados por uma câmera de reconhecimento que mede a temperatura e dedura até quem está com a máscara meio pendurada no queixo – fato raro. 

Os abraços são interrompidos no ar quando os adolescentes se encontram antes de as aulas começarem, perto das 8 horas. Só acenos e sorrisos mascarados denunciam como é bom se reencontrar. Alguns alunos estão tão ansiosos que chegam 45 minutos antes do início das aulas. Um grupo de sete amigas sente falta até do Café Panino, lanchonete que fica em frente ao colégio e que reabriu após quase 7 meses de quarentena. Elas dão um “salve” - de longe - para o Pedro Chaves, feliz, feliz no balcão. “Só o movimento que tive hoje foi melhor do que os dias de delivery”, comemora o empresário.

Dentro da sala de aula, apenas 15 alunos - para garantir o distanciamento físico e minimizar o risco de contaminação - fazem os reforços propostos para essa fase de reabertura em outubro. Só atividades extracurriculares foram permitidas pela Prefeitura. Na sala, um retângulo no chão indica o espaço que o professor deve ocupar, perto do projetor.

A imagem do docente falando e circulando pelas fileiras não existe mais. Ele e os alunos não podem sair do seu quadrado – os espaços ocupados pelas carteiras também são delimitados. “Também temos um procedimento em caso de dúvida do aluno, com o uso de face shield. Será uma aula muito mais tradicional”, diz Renato Pacheco Villar, coordenador de Ciências/Stem e Steam, abordagens que buscam a multidisciplinaridade entre Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

Retorno na zona leste tem felicidade e preocupação com protocolos

Na zona leste, os estudantes da Escola Estadual Thomaz Rodrigues Alckmin também chegam antes da hora.  “Eu estava muito ansiosa, estava querendo voltar muito, estou no 5º ano e tem muita coisa para aprender”, conta Emily Dutra, de 10 anos. O pai se diz “muito feliz” com a volta, mas preocupado com os protocolos. “Se eles vão se higienizar, se vão ficar com máscara o tempo todo em sala de aula, se a escola vai ter alguém acompanhando eles nesse processo...”, afirma Manuel Galdino, de 42 anos.

Logo na entrada, assim como nas escolas particulares, a temperatura era medida, pedia-se para higienizar as mãos com álcool em gel em totens e manter distância. E ainda havia máscaras a disposição de quem chegasse sem, ou precisasse de uma nova. 

A primeira atividade das crianças - havia 11 dos 16 alunos da turma - foi ouvir sobre o protocolo. Não faltava sabão líquido nos banheiros. Depois, na quadra, dançaram e se alongaram ao som de Senõrita, Balão Mágico e Gangnam Style. “Eles estavam muito felizes, não dá para ver o rostinho, mas dá para ver os olhos”, diz, emocionada, a professora Michelle Queiroz, de 40 anos. Houve ainda roda de conversa, leitura e contas na lousa. “Eu queria voltar e meus pais também, porque em casa a gente não aprende que nem na escola”, disse Lucas Enemona de Almeida, de 11 anos. 

Na zona norte, Miguel, de 5 anos, pulava pela sala, bracinhos para cima, correndo de um lado para o outro. “Eu tô feliz”, dizia. O colega Martin olhava aos poucos para os dinossauros de brinquedo, reconhecendo o ambiente. No pátio, se soltam, correm para os brinquedos, brincam de pirata, chegam mais perto um do outro. Depois, a equipe de limpeza vaporiza tudo com uma solução química.  “É uma rotina nova, materiais e higiene pessoal vão ocupar um espaço importante do dia”, diz a diretora da escola, Monica Padroni. 

Raul, de 10 anos, conta que dormiu de uniforme de tão ansioso que estava para voltar. “Eu só saía para passear com o cachorro e ir ao mercado, não aguentava mais”, mas fala da pandemia com preocupação e sabe até a quantidade de mortos no País, de cor.

Os mais velhos brincavam de pega-pega, mas encostando o pé e não as mãos, quando um pegava o outro. E ouviram histórias na biblioteca sem poder pegar os livros. “Eles costumavam levar um livro para a casa toda a semana, mas agora teríamos que deixá-lo em quarentena, então eu vou contar as histórias”, explica a educadora Juliana Bonito, que cuida da biblioteca. 

Nesta unidade da escola cabem mil alunos, mas só 25 foram neste primeiro dia porque apenas o 4º ano podia ter atividades presenciais nesta quarta-feira. Cada dia será para uma série diferente. A outra diretora Silvia Elayne de Oliveira não reclama. “É estranho ver a escola vazia, mas já é bom vê-la com os alunos.” 

Lá no Bandeirantes, na saída não foi fácil continuar com o protocolo. “É muito difícil não abraçar. Foram sete meses de isolamento. Dá um desconto, tio?”, suplica um aluno que não quis se identificar, flagrado pelo Estadão no meio de um abraço na calçada do colégio. Os pequenos da Projeto Vida também saem da escola e se juntam abraçados para uma foto pedida pelos pais, que querem registrar o primeiro dia. Mari, de 5 anos, corre para mãe. “Foi demais, quero voltar.”

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O que você precisa saber sobre a volta às escolas em São Paulo

Colégios reabrem as portas quarta-feira na capital paulista com atividades extracurriculares, como idiomas, música e esportes

João Ker e Larissa Gaspar, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 05h00
Atualizado 08 de outubro de 2020 | 09h41

Escolas da capital paulista poderão abrir as portas para receber alunos em atividades presenciais a partir de quarta-feira, 7. Apesar de a Prefeitura ter autorizado apenas as atividades extracurriculares, como aulas de idiomas, de música e de esportes, o movimento vem sendo acompanhado com atenção: será a primeira vez em sete meses que os estudantes terão contato físico com colegas e professores. 

A retomada vai ocorrer de forma gradual, dentro do plano definido pela Prefeitura de São Paulo. Nesta primeira fase, está permitida a volta de apenas 20% dos alunos das redes pública e privada do ensino básico. Os alunos do ensino superior também ficam liberados para reiniciar as aulas regulares. 

Na próxima etapa, prevista para ocorrer a partir de 3 de novembro, estaria liberada a volta de aulas regulares no ensino básico. A mesma data foi definida por enquanto para a retomada das aulas no ensino fundamental da rede estadual. 

“Uma coisa importante de entender é que esse fechamento prolongado, além de consequências mais diretas de acesso às aulas remotas, gerou problemas à saúde mental, à segurança alimentar e ao convívio social”, avalia Ítalo Dutra, chefe de educação da Unicef no Brasil. 

O órgão da ONU para defesa do direito das crianças acaba de lançar um guia com orientações para o retorno do setor. “A eficácia dessa retomada depende do engajamento por parte das famílias e das crianças.”

A adesão a essa retomada depende de cada instituição, que terá autonomia para decidir se abrirá ou não as portas. 

As famílias também poderão decidir se querem as crianças no colégio. Ou não. 

Para ajudar os pais e os responsáveis que optaram pela volta às aulas, o Estadão preparou um guia com dicas que vão desde a higienização do material escolar ao cuidado com questões emocionais das crianças. E também está respondendo aos questionamentos dos leitores em perguntas enviadas pelas redes sociais. Confira abaixo.

Como reintroduzir a atividade escolar na rotina? 

Para o pesquisador em neuropsicologia Paulo Sérgio Boggio, do Mackenzie, os pais precisam ouvir os filhos. “Após tanto tempo de quarentena, os complicadores são a capacidade de regulação emocional e o quanto é possível controlar as emoções e o impacto delas nas ações.”

Como explicar a necessidade de distanciamento social sem causar medo?

A palavra-chave é o equilíbrio, aponta Boggio. “Se os pais colocarem uma carga pesada de informações negativas, podem induzir o estresse. Por outro lado, se a informação não chegar da forma correta, aumenta a possibilidade de a criança se infectar”, afirma. “A mensagem tem de ser de acordo com a idade.” 

É preciso fazer teste de covid-19 antes da volta?

Não é necessário, diz Fausto Flor Carvalho, chefe do departamento de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Ele explica que o teste mais eficiente, o RT-PCR (swab nasal e oral), é caro e agressivo para crianças. 

A carteira de vacinação precisa estar em dia antes do retorno?

Sim. O melhor é que a criança tome a dose mesmo que já tenha passado o prazo, porque isso permite ao clínico diferenciar o diagnóstico no surgimento de um sintoma.

Como posso observar o surgimento de sintomas?

“A maior parte das crianças não tem sintomas”, lembra Carvalho. “Então, o acompanhamento é complexo.” Os possíveis sintomas são a coriza e a diarreia, além da febre. 

Que cuidados a criança deve tomar no transporte para a escola?

Carvalho indica o uso de máscara para crianças a partir de 2 anos, além de álcool na entrada e na saída. É recomendável que veículos usem apenas de 30% a 40% de sua lotação e deixem as janelas abertas.

É preciso enviar máscaras próprias? Quantas?

Outros países têm orientado que as crianças troquem de máscara a cada duas horas e lavem as mãos com água e sabão ou passem álcool em gel no mesmo intervalo. “No Brasil, sabemos que nem todos têm condições financeiras de fazer isso. Então, o ideal é usar uma máscara na ida para a escola, outra durante a aula e trocar por uma nova na hora de voltar”, explica Carvalho. 

Meu filho pode tirar a máscara em algum momento?

Idealmente, não. Ainda assim, é possível que algumas crianças tenham dificuldade de ficar o tempo todo com a máscara. Nesses casos, é aconselhável que, se ela for retirada, isso ocorra em espaço aberto. 

Como evitar que ele coce os olhos e coloque a mão na boca ou no rosto?

“É importante que os pais já trabalhem isso antes da volta à escola”, diz Carvalho. Ele explica que é preciso que professores redobrem a atenção com crianças entre 2 e 6 anos.

Com que frequência ele deve higienizar as mãos?

O ideal seria fazer isso a cada duas horas. Ou sempre que tocar no rosto, além de no início e no fim da aula. 

Ele pode se sentar com amiguinhos?

Não. Os professores vão precisar ser criativos nas atividades que antes eram feitas em dupla ou grupo e para impedir que se aproximem para brincar. Na Coreia do Sul, por exemplo, os professores deram asas de anjos para as crianças, para ajudá-las a manter a distância de 1,5 metro. 

Há risco em pedir material escolar emprestado?

A recomendação é que cada um tenha o seu material. Quando não houver essa possibilidade, é preciso passar álcool antes e depois do uso. Ao chegar em casa, o material deve ser lavado com água e sabão ou exposto ao sol. 

A merenda da escola é segura? 

“Se tiver oportunidade de levar o lanche, é preferível. Mas sabemos que muitas crianças dependem da refeição escolar”, observa Marcelo Otsuka, da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ele diz que é preciso que as responsáveis pela merenda sejam treinadas e que haja rodízio no refeitório.

Como identificar crises de ansiedade? 

Segundo Boggio, alguns dos sintomas de ansiedade e pânico mais comuns são: tensão no corpo, falta de comunicação, semblante assustado, aumento na transpiração e nos batimentos cardíacos.

É verdade que a crianças não pegam e não espalham o vírus?

Não, as crianças também são contaminadas, mas nelas os casos são geralmente pouco graves. “São raros os sintomas graves e mesmo risco de óbito em crianças. Elas podem se infectar e transmitir. Elas têm um papel importante a depender da exposição delas à covid-19”, explica o professor Dr. Alexandre Naime Barbosa, chefe da Infectologia da UNESP e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia. 

Quais são os principais riscos do retorno às aulas?

O aumento da probabilidade de se infectar pelo coronavírus. “Há uma repercussão do ponto de vista individual, em que a própria pessoa fica doente, quanto do entorno dessa pessoa. Há menos crianças sintomáticas e com probabilidade de doença grave. A principal preocupação seria a criança transmitir o vírus para outras pessoas”, explica o médico infectologista André Bueno. De acordo com ele, caso a transmissão aconteça, é muito mais difícil impedir o contágio no nível domiciliar. A Prefeitura de São Paulo está conduzindo testes sorológicos em professores e alunos da rede municipal para tentar mitigar esse problema. 

E para os professores e funcionários?

Ainda há o risco de transmissão no ambiente escolar e a possível evolução para formas mais graves da doença, sobretudo aqueles com maior faixa etária e com comorbidades. “O cenário de volta tem que considerar os riscos e promover a volta em momento de baixa circulação do vírus e os protocolos de segurança pelas escolas. As escolas da rede pública têm uma chance maior de não seguirem as medidas de segurança com o rigor necessário, com equipamentos de proteção individual, reposição de recursos humanos. É um cenário mais difícil que em escolas privadas”, completa o médico infectologista André Bueno.  Para mitigar os riscos, a Prefeitura de São Paulo está conduzindo testes sorológicos em professores e alunos da rede municipal. 

Qual o papel das crianças nesse cenário?

Em crianças menores de 12 anos, principalmente, há uma baixa adesão às medidas de proteção. “Como fazer que uma criança de 6 anos use máscara, não tenha contato físico com outras crianças, não coloque as mãos no rosto e lave as mãos com frequência? As crianças são potenciais amplificadores da covid-19, podendo contaminar a família e os próprios educadores”, ressalta o infectologista Alexandre Barbosa

Com qual frequência os materiais escolares, carteiras e etc devem ser higienizados?

A higienização com álcool 70% deve ocorrer após o contato com cada criança. 

A distância segura nas escolas continua 1,5m?

Sim, segundo infectologistas a distância de segurança ideal é de pelo menos 1,5m de distância entre as crianças e entre as carteiras na sala de aula.

Minha professora que ministra a aula remota estará comigo no retorno presencial?

Isso depende de cada escola e de cada situação pessoal do professor, como se pertence ou não ao grupo de risco. Se o profissional não tiver a possibilidade de retomar as atividades neste momento, um outro professor se encarregará das atividades presenciais. Segundo Vanini Mesquita, orientadora pedagógica do Colégio Santa Maria no Ensino Fundamental de sua unidade, além de estar com a professora titular no ensino remoto, os alunos terão a oportunidade de encontrá-la no contraturno também com atividades de acolhimento, considerando as habilidades socioemocionais.

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200 mil alunos voltam às escolas estaduais de SP nesta quarta-feira

Número equivale a 5,71% do total de matriculados na rede; secretário estadual de Educação disse estar ‘muito satisfeito’ e defende que volta às atividades é ‘bem socioemocional para crianças’

Marcela Coelho, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 11h23

Duzentos mil alunos realizam atividades dentro das escolas estaduais nesta quarta-feira, 7 - 50 mil na capital -, primeiro dia de retorno às escolas após mais de 200 dias de interrupção das aulas devido à pandemia do novo coronavírus. O número equivale a 5,71% do total de matriculados na rede. A informação é do secretário estadual de Educação de São Paulo, Rossieli Soares, que nesta manhã visitou a Escola Estadual Thomaz Rodrigues Alckmin, no Itaim Paulista

O governo do Estado é responsável pela educação de 3,5 milhões de alunos, 869 mil deles estão na cidade de São Paulo. Não há ainda balanço das escolas privadas, que também estão autorizadas a abrirem suas dependências para os alunos. Dois milhões de alunos estudam em escolas pagas em todo o Estado. Na rede municipal, apenas uma creche teria condições de receber crianças nesta quarta. 

Rossieli disse estar "muito satisfeito" com o retorno das aulas. "Nós entendemos que deve ser uma prioridade da nossa sociedade o retorno das aulas nas nossas escolas. Temos visto pelo mundo afora e é importante que também priorizemos a volta das atividades pelo bem da saúde mental, pelo bem socioemocional das nossas crianças, dos nossos jovens, segundo alertas inclusive feitos pela Organização Mundial da Saúde", disse.

Retomada das aulas

Na capital paulista, a retomada vai ocorrer de forma gradual, dentro do plano definido pela Prefeitura de São Paulo. O prefeito Bruno Covas (PSDB) só permitiu que escolas públicas e particulares da cidade funcionem com 20% da capacidade e somente para atividades presenciais extracurriculares, como aulas de música, teatro de fantoches e contação de histórias para crianças pequenas e reforço de Português e Matemática a partir do fundamental. A volta das atividades em outubro não pode ser contabilizada como dia letivo e é voluntária para escolas, pais e professores. A partir desta quarta os alunos do ensino superior também estão liberados para reiniciar as aulas regulares. 

No restante de São Paulo, em municípios que autorizaram, as escolas estaduais foram abertas em 8 de setembro para esse tipo de atividade extra e permanecerão assim em outubro para estudantes do ensino fundamental. Os alunos de ensino médio e educação de jovens e adultos (EJA) já poderão ter aulas agora em outubro.

A retomada segue regras diferentes de acordo com cada uma das 645 cidades do Estado, já que cada município tem autonomia para definir os protocolos sanitários do retorno. E a adesão a essa retomada depende de cada instituição, que terá autonomia para decidir se abrirá ou não. 

O secretário estadual da educação do Estado de São Paulo também afirmou que tem buscado dialogar com as prefeituras que ainda não retornaram com as aulas. "A gente tem buscado dialogar com as prefeituras, respeitando a autonomia. Se não pode retornar as aulas, podemos fazer algumas atividades extracurriculares? Temos hoje mais de 200 municípios autorizados, mas também não temos um número grande que não proibiu. Temos um número grande de municípios que não se manifestaram e a gente está dialogando com eles. Isso é importante, especialmente para aqueles jovens que mais precisam", ressaltou.

Ele inclusive destacou que, assim como nas escolas privadas do Estado, haverá fiscalização nas escolas públicas para ver se estão cumprindo regras de distanciamento e sanitização contra o coronavírus. “Já estamos fazendo, inclusive para a abertura tem que ter a visita das nossas diretorias de ensino. Temos profissionais muito preparados. Todas as nossas escolas estaduais terão um acompanhamento direto, não só para abertura, mas durante todo o processo que durará essa abertura a secretaria estará fazendo esse acompanhamento”. 

Avaliação sobre o retorno às escolas e risco

Ao Estadão, o secretário Rossieli Soares disse ainda que pretende fazer uma avaliação sobre o que deu certo e o que precisa de ajustes depois desses primeiros dias de retomada das escolas. “A gente tem que primeiro aprender com as próprias escolas, com todas as situações. A gente faz balanços semanais, vai aprendendo, tivemos um balanço bem positivo das atividades de setembro”, falou.

Ele também afirmou que até a manhã desta quarta não havia nenhum registro de incidentes nas escolas ou aglomerações. “Ainda é muito cedo, mas o feedback tem sido positivo, de muita alegria, ansiedade sobre o retorno, o que é natural.”

Em coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes, o governador João Doria (PSDB) afirmou que a retomada das atividades escolares é importante para crianças e adolescentes e está sendo feita de forma gradual e segura. "Cumprimos o que estava previsto e dentro do que o Centro de Contingência permitiu, fazendo uma retomada segura e gradual. Iniciamos há um mês com atividades de reforço e a retomada das aulas a partir de hoje, respeitando as decisões dos prefeitos dos 645 municípios paulistas. Essa abertura respeita a realidade local. É gradual, segura e leva em consideração a saúde e vida de alunos e profissionais da rede pública e privada. Retomar as atividades presenciais é medida importante para crianças e adolescentes. Os jovens precisam recuperar o contato social. Todos nós precisamos garantir que nenhum aluno fique pra trás na pandemia", afirmou. 

Sobre a possibilidade de haver casos de infecção por covid-19 neste retorno, o Estado afirmou que a orientação é o isolamento de casos positivos e que vem trabalhando com o Centro de Contingência para garantir uma volta segura. "O nível de contaminação de crianças é baixo na escola e estamos voltando vagarosamente. Havendo sintomas, mesmo que não se saiba o diagnóstico, se afasta. Se tem alguém com sintoma na família, não vai para a escola. Essa é a orientação que estamos dando. E também se faz o monitoramento de contactantes. Se tiver dois na mesma turma, isola a turma e pode tomar decisões dependendo do caso, porque há circunstâncias que não são da escola, mas da comunidade. Haverá muitas formas de monitoramento e de acompanhamento", afirmou Soares em coletiva no Palácio dos Bandeirantes. 

O secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, afirmou que, se forem seguidos os protocolos sanitários, não haverá risco.

"É importante entendermos que todos os aparelhos educacionais estão programados e com equipamentos de proteção. Todos, sejam profissionais da educação ou alunos, são orientados para que não venham ao ambiente escolar no momento em que tiverem qualquer sintoma, como dor de garganta ou nariz entupido. Eles devem ir a uma unidade básica de saúde, onde serão avaliados, para identificarmos de forma precoce. Dentro da escola, ele não terá risco de adquirir a doença. Vai começar de forma lenta (volta às aulas), vão circular mais pessoas, mas respeitando as regras sanitárias, não teremos risco para ninguém", afirmou. 

Contágio levará a fechamento de escola para quarentena, diz secretário

O secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, disse nesta quarta-feira, 7, em entrevista à Globonews, que casos confirmados de covid-19 na retomada das atividades podem levar ao fechamento das escolas por um período de 14 dias. “O protocolo de higiene é bastante rígido e todas as escolas, da rede pública e privada de ensino, devem segui-lo. Se houver situação de contágio, a escola é obrigada a notificar a Vigilância Sanitária do município imediatamente e entrar em quarentena”, disse. 

O secretário ressalta que a quarentena não é apenas para a sala de aula onde ocorreu o contágio mas sim para a escola inteira pois “não se sabe por onde exatamente a criança ou o funcionário circulou, por isso é importante o fechamento da escola por 14 dias”. A medida é para segurança de profissionais da educação e das famílias das crianças.

Volta às aulas regulares em 3 de novembro

A volta às aulas, de fato, está prevista na capital para o dia 3 de novembro. O secretário informou que o retorno às aulas continuará sendo adotado o modelo híbrido.

“Teremos aulas presenciais e a distância, dando sempre o mesmo conteúdo. Se a família opta por permanecer a distância mediado por tecnologia, por exemplo, a gente tem pedido cada vez mais um compromisso da família nesse acompanhamento, incentivo na tratativa com a escola, porque é muito importante. A gente vai buscar o equilíbrio, também buscando respeitar os nossos profissionais”, afirmou. / Colaborou Paloma Cotes

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Gilberto Amendola: Volta às aulas (dias de criança)

Anos depois, a gente acaba entendendo que o enroladinho de presunto e queijo não vale tanta luta, que acordar cedo não é tão ruim, que matemática também é poesia, e que a escola foi, e sempre será, um dos melhores lugares para ser e estar

Gilberto Amendola*, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 15h00

Eu já fui uma criança de braço esticado, sacudindo uma nota de 10 para o tio da cantina. A sanha em conquistar um enroladinho de presunto e queijo que ainda não tivesse perdido a própria dignidade era uma espécie de intensivão para a vida adulta.

Estava tudo lá: a corrida para ocupar os melhores lugares (que começava tão logo o sinal do recreio tocasse), a lei do mais forte (os empurrões para ficar perto do balcão), o jeitinho (pedir para algum amigo mais adiantado comprar o risoles para você), a corrupção (pagar para algum amigo mais adiantado comprar o risoles para você), a mão na bunda (metafórica e literal), as calças no chão (o bullying mais cruel da época era baixar as calças de algum incauto naquele fuzuê) e a frustração depois de uma conquista (os salgados não cumpriam aquilo que prometiam quando ainda eram inalcançáveis).

Talvez o tema mais recheado de nuances dessa pandemia do novo coronavírus seja o retorno às aulas. Já assisti verdadeiras rinhas argumentativas sobre "quando" e "como" os estudantes deveriam voltar a frequentar o espaço físico de uma escola. Confesso, vestido de Glória Pires no Oscar, que sou incapaz de opinar. Não tenho certeza. Não sei. Não faço ideia - e é libertador escrever isso.

O que tenho são memórias do meu tempo de escola. Do tempo em que acordava um pouco depois das 6h da manhã, com minha mãe me chamando de "príncipe" e contando até 10 para que eu tivesse mais alguns minutos de sono. Sim, eu era uma criança que pedia para a própria mãe contar até 10 antes de sair da cama.

Também lembro do rádio ligado no banheiro e meu pai ouvindo o "O Pulo do Gato", programa que era apresentado por José Paulo de Andrade (que a covid-19 levou este ano). Você não vai acreditar, mas tenho a memória auditiva dos comentaristas discutindo a rejeição à Emenda Dante de Oliveira (que propunha a restauração das eleições diretas para presidente no País).

Quando não pegava carona com meu pai, subia a Rua Guaxinduva com uma mala pesada nas costas. Preguiçoso, às vezes, não tirava da mochila livros que não iria usar naquele dia. Nela, também ia muito gibi escondido e, eventualmente, uma Playboy da Lucinha Lins que passou pela vida de muitos garotos da minha sala.

Estudei em colégio de freira. As aulas de Religião não me empolgavam, mas eram um alívio antes da Matemática, Física, Química e qualquer coisa que envolvesse números. Ainda tenho pesadelos com a Fórmula de Báskara. Fui um péssimo aluno em muitos sentidos. Era avoado, sem foco, desligado e tonto. Repeti a 5ª série. Sou repetente. E ser repetente me define até hoje.

Na escola, sempre perdi tempo com paixões platônicas por garotas que nunca me deram bola - e que sequer sabiam do meu interesse. Ainda assim, era gostoso sentir esse tipo de paixão que a gente só sente na escola, que a gente só tem por uma colega de classe, por meninas que estão um ou dois anos na nossa frente ou por professoras modernas.

Além de um aluno que nunca pode sequer ser chamado de mediano, também era ruim de esportes. Nunca soube virar cambalhota, cansava depois de duas corridas ao redor da quadra, era frangueiro, último reserva no time de vôlei, o primeiro a ser eliminado durante a partida de queimada.

Apesar de tudo, não odeio meus tempos de aluno. Sinto inveja da garotada que está voltando para as salas de aula agora. Espero que se cuidem, que tenham todas as condições de manter o distanciamento, que usem máscara e álcool em gel. Mas, principalmente, espero que vivam essa experiência com toda energia e amor disponível.

Anos depois, a gente acaba entendendo que o enroladinho de presunto e queijo não vale tanta luta, que acordar cedo não é tão ruim, que no final a democracia vai vencer, que matemática também é poesia, que ser o último escolhido para qualquer esportes tem o seu charme, que amores platônicos trazem sustança para o coração e que a escola foi, e sempre será, um dos melhores lugares para ser e estar.  

*É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’ E OBSERVADOR DA VIDA URBANA  

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